Perceber os limites da medicina moderna através de Vergílio
Recentemente, fui desafiado a ler a “Aparição”, de Vergílio Ferreira. Não foi a primeira vez. Há uns anos, ao regressar a uma aula, contei ao António que não me reconheci quando me olhei ao espelho, minutos antes. Sorrindo, logo ele me ordenou que lesse o Vergílio.

Não obedeci na altura, mas obedeci agora. É uma leitura terapêutica numa sociedade onde todos questionam o outro enquanto fogem das perguntas sobre si. “Aparição” fala-nos sobre a nossa finitude, sobre a necessidade de questionar a relação da nossa existência com os seus limites naturais, o nascimento e a morte. É também uma oportunidade para perceber como, de 1959 para cá, mudou radicalmente o contexto, mas sem se alterarem as preocupações que nos consomem nas noites solitárias. Uma frase de Alberto Soares, personagem que narra a história, pode servir para explicar a relevância da obra: “se em todas as épocas se tivesse só pensado na melhoria económica, hoje não seríamos homens: seríamos apenas máquinas. O meu humanismo não quer apenas um bocado de pão; quer uma consciência e uma plenitude.”
É esse humanismo de Vergílio, presumo, que o faz incluir, a certa altura, uma curta vinheta dentro da história maior do livro. A vinheta fala-nos sobre um homem, a quem chamam Bailote, que procura o médico da cidade para lhe resolver um problema ao qual a medicina tenta, por vezes, fechar os olhos, talvez por se saber impotente.
Subitamente à beira de um monte, um homem de pelico ergueu a mão ao carro. Eram três ou quatro casas apinhadas num terreiro. Moura parou e reconheceu o homem:
— Você outra vez? Então o que há de novo?
— Eu sabia que o senhor doutor ia ali à dona Alzira e pus-me aqui à espera.
— Mas então o que é que há?
O homem olhou-me para ver até que ponto eu podia participar do seu segredo.
— Se é preciso, eu saio — declarei.
— Não, acho que não — disse Moura. — O senhor doutor pode ouvir? — perguntou.
— Ele também é doutor? — adiantou o homem raiado de esperança.
— É doutor, mas não é médico. Diga lá então.
E o homem contou uma história incrível. Moura já a conhecia, porque fez referência a uma consulta na cidade. Mas de nada lhe valeu, porque o homem queria contá-la outra vez desde o princípio. Receava decerto que lhe tivesse falhado algum pormenor e que isso lhe destruísse a esperança. Contava-a agora de novo:
— Quando foi da sementeira, o patrão Arnaldo disse-me: “Ó Bailote, tu já não tens a mesma mão para semear.” Porque eu, senhor doutor, tive sempre uma mão funda, assim grande, como um cocho de cortiça. Eu metia a mão ao saco e vinha cheia de semente. Atirava-a à terra e semeava uma jeira num ar.
Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma boa mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da criação e o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Imaginava-o outrora dominando a planície com a sua mão poderosa. A terra abria-se à sua passagem como à passagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força germinadora.
— Agora o patrão diz que eu já não tenho mão.
E mostrava a sua desgraçada mão, envelhecida, carbonizada de anos e soalheira. Moura olhou-me e sorriu-me numa cumplicidade.
— Olhe. Faça ginástica aos dedos. Assim.
E exemplificava. De olhos escorraçados, o homem lamentou-se:
— Tenho feito, senhor doutor. Mas o patrão Arnaldo diz que eu já não tenho mão. Veja, senhor doutor, então isto não será ainda uma mão de homem?
E tentava cavá-la fundo, com os dedos gretados no ar.
— Então que quer que eu lhe faça?
— Dê-me um remédio, senhor doutor. Um remédio que me ponha a mão como a tinha. Assim grande, assim funda, assim, assim…
E moldava no ar a capacidade de uma mão de Jeová. Fios de sol escorriam de uma azinheira perto da estrada. Os campos repousavam no grande e plácido Outono. E pelo vasto céu azul, sem a mancha de uma nuvem, ecoava levemente a última memória de Verão. Moura pôs o motor a trabalhar.
— Então passe muito bem — disse ao semeador.
E o carro arrancou, erguendo o pó do caminho.
Mas a visita à doente foi breve. Era uma casa fidalga perdida no descampado. Espectros de um ou outro homem ou mulher olhavam-me no carro parado, olhavam o silêncio em redor. Regressámos enfim pelo mesmo caminho. Quando, porém, chegámos ao monte do semeador, saltou-nos à frente um grupo de pessoas numa sarilhada de gritos, de imprecações, braços no ar, braços apontados para uma loja. Moura saiu do carro e o magote de gente seguiu-o. Fiquei só. Mas o médico regressava daí a pouco, pálido, transtornado.
— Que aconteceu?
Ele não respondeu logo, conduzindo o carro aos tropeções. E só quando o monte se não via já me declarou:
— O homem enforcou-se.”
A medicina moderna é prodigiosa. As doenças infecciosas já não são o carrasco de populações inteiras, tratamos bem situações que antigamente eram sinónimo de morte fulminante, e até começamos a dominar o cancro. Que eu não seja mal entendido: a medicina moderna, não tendo devotos, faz autênticos milagres.
Apesar disto, abre-se espaço a que cada vez mais homens e mulheres passem por uma fase da vida em que um dia adicional representa menos força, menos energia, menos memória, menos capacidade de entender o mundo, e tudo isto com a consciência de si e do seu decréscimo. Sendo eu um jovem, não tenho o conhecimento de causa para o saber, mas para isso existem as conversas, os relatos, e até a literatura. Não temos resposta para as mãos que deixaram de ser fundas, para quem nos pergunta se a sua mão não é já a mão de um homem. Vergílio, em alguns parágrafos, lembra-nos bem que, mais do que curar, é preciso sempre cuidar, até porque há problemas que, tendo alívio, não têm cura, e podem não querer ser vividos.
