Tempos modernos

A modernidade exige que cada vez mais tarefas sejam executadas em menos tempo e de forma cada vez mais eficiente (rápida e lucrativa), afinal: tempo é dinheiro. Vemos os reflexos disso no dia-a-dia: já levantamos correndo, colocamos café para as crianças, damos banho, levamos para escola, vamos trabalhar; depois do almoço temos uma reunião marcada, imprevistos, coisas para resolver, etc. Nosso tempo está ficando cada vez mais curto. Quantas vezes já não te falaram que os dias estão passando rápido demais?

Como passamos a maior parte do nosso dia vendendo nosso tempo para produzir lucro (e garantir nossa fatia no final do mês), não temos tempo para as coisas “menos importantes”: cuidar dos filhos, da casa e da nossa saúde. Para esses temos soluções mais práticas: alimentos industrializados (processados e recheados de aditivos químicos para conservar e realçar sabores), babá, empregadas, aspirinas para os dias difíceis e antidepressivos para os mais difíceis ainda; calmantes porque não conseguimos dormir e energéticos para nos manter ativos.

Vivemos numa sociedade imediata, temos pressa de realizar e de possuir. Não temos tempo de parar, pois estamos muito ocupados acumulando dinheiro para poder pagar tudo o que precisamos para a manutenção do estilo de vida que compramos. Estilo de vida que compramos? Sim, você pode não perceber, mas o ser humano, por ser um animal cultural, precisa observar um comportamento para em seguida processá-lo e copiá-lo (foi assim que você aprendeu a andar, falar e tudo que você sabe fazer hoje).

Nosso comportamento hoje é baseado na satisfação de desejos criados para que essa grande engrenagem continue girando até seu limite. Não é mais questão de necessidade, é questão de querer, é questão de poder e status. Não ter significa muita coisa, ter também.

Então essa vida perfeita que temos de família feliz indo passear no shopping no final de semana e levar os filhos ao cinema não passa de pura ilusão, seu cérebro imitando um comportamento que você viu em algum lugar e achou legal, achou que talvez serviria para você e te faria feliz.

Talvez quem já ouviu falar do “American way of life” ou então o famoso e almejado “sonho americano” — aquele sonho de ser independente, ter bom emprego, com um carro na garagem, uma casa, uma linda esposa, dois filhos, um cachorro, uma empregada, um hobby para as horas livres, dinheiro para manter tudo isso e, além de garantir as compras e passeios nos finais de semana e feriados, um montante que seja suficiente para ter uma velhice confortável. Passamos a vida perseguindo um sonho que nos foi vendido, mas que nem todos tem condições de alcançar.

“A filosofia por trás de muita propaganda é baseada na velha observação de que todo homem é na realidade dois homens — o homem que ele é e o homem que ele quer ser.” (William Feather)

Na parábola de Osho “Cuidado com os gatos”, um grande místico em seu leito de morte, chama seu melhor discípulo para transmitir um grande ensinamento: nunca, em momento algum, possuir um gato em casa. — Em seguida o mestre morreu. Esse ensinamento na verdade era sobre as responsabilidades que o gato viria a trazer, tirando o homem de seu verdadeiro objetivo, pois teria que lidar com muitas outras tarefas e responsabilidades que pareciam multiplicar-se a medida que o homem buscava uma solução.

Claro que, como estamos inseridos nesse sistema, lutar contra ele exige uma quantidade de energia imensa que é reaproveitada pelo próprio sistema, absorvendo tudo que se opõe a ele e transformando a seu favor.

Isso não significa que você precisa abrir mão de tudo para ser feliz, mas simplesmente saber que você não precisa de nada disso para alcançar a felicidade: ela é nata do ser humano, está em nós. A partir do momento que entregamos a responsabilidade sobre nossas vidas a qualquer terceiro, fazemos uma escolha: a escolha de seguir a manada para o abate. Está na hora de acordar e seguir nossos próprios caminhos.

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Originally published at artesjefferson.wordpress.com on August 2, 2015.