Sem pão de queijo

Parecia natural e adequado comemorar. Era um daqueles momentos onde, no oculto, se comemora a pequena vitória, mesmo à beira de um desafio ainda por vir. E para o banquete, escolhemos a Fábrica de Doces, que meu fiel escudeiro indicara e já saia em frente. Enquanto ele abria caminho entre os transeuntes da Halfeld, eu pensava na ironia do nome, visto que estávamos à caça de salgados. Podíamos ouvir um bloco a batucar, típico de fevereiro, e seguimos em pace firme pra não perder a hora apertada. Entramos determinados. Nosso troféu também seria meu almoço, o que me fez indagar:

— O que tem de frango aqui?

— Tem empada, pastel, e esse hambúrguer bovino senhor.

Fiquei reparando qual seria a melhor pechincha entre os que realmente se qualificavam como salgados de frango enquanto refletia o equívoco do parceria. Apesar da incoerência de origem animal, ele ressalvou:

— Se eu fosse o senhor e quisesse algum salgado de frango, iria nesse pastel assado aqui. É o melhor da casa, sem dúvida.

Confiava mais no paladar que nos conhecimentos biológicos do rapaz, e segui o conselho.

— Manda logo uma laranjada também!

— Duas! — completa o amigo.

Era bom, não; era espetacularmente bom e muito suculento. Não me pareceu nenhum pouco bovino por sinal. Já a laranjada ficara para trás e sumira em meus pensamentos, enquanto todo o sabor que com certeza era frango preenchia a minha mente. De relance, observei a marca do estabelecimento. Senti aquele ar caseiro, que para mim, era alívio. Em meio ao caos urbano, um recanto de boa roça.

E como cheiro de mato e café quente, comida de forno a lenha e barulho de vento em folha, ouvi meu nome em tom familiar:

— Gabriel, ao suco!

Eu e meu compadre caímos em gargalhadas. Nunca em cidade tão carioca vimos cena mais mineira. Não sei dizer ao leitor onde mais se fala assim, mas te garanto que nunca será como na terrinha do trem; parecia vó de manhã cedo.

Não era bovino, nem frango. Era felicidade.

— Me vê mais um pastel desses, moça?


Obrigado por ler!

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