Destruir Também é Uma Forma de Criação

Fala-se muito hoje em desconstrução. Na entropia que assola nosso cotidiano. No cenário onde coabitam pessoas cada vez mais autocentradas e que gradativamente vão perdendo a sensibilidade em relação a vida. Onde emerge a latente necessidade de inclusão da diversidade, das parcelas menos notadas, sedentas por serem vistas e ouvidas.
Para os mais atentos, apesar de toda tecnologia e facilidades em obter informação, a desconexão é gritante. Principalmente de si mesmo.

Entramos nessa busca desenfreada de nos conectar, de pertencer, de sermos vistos, considerados, valorados, utilizando os mais diversos meios para alcançar esse fim. É buscando gostar de nós mesmos que damos demasiada importância a opinião dos outros, ao padrão de vida dos outros, à capacidade intelectual do outro, ao relacionamento conjugal e familiar do outro, ao currículo do outro, ao físico físico do outro, ao desempenho com sexo oposto do outro… Esta lista segue indefinidamente. 
Em meio a esse mar de informação e comparação, nos pressionamos a destruir nossos padrões mundanos em busca de patamares inalcançáveis, tudo em prol de uma ilusão ou de satisfações passageiras.

A vida é simples, banal e repetitiva, mas é na sua simplicidade que se encontra a sofisticação. 
E não há nada mais elegante do que amar-se. 
Apesar de ser apontada como a habilidade mais valiosa para magicamente resolver todos seus problemas na vida, a simplicidade desse ato está inversamente relacionada com sua facilidade em realizá-lo.

O que muitos não percebem é que para amar a si mesmo, você precisa olhar diretamente para tudo aquilo que te impediu de se amar. E essas coisas não são flores de se cheirar. Definitivamente não são boas lembranças. Elas são o seu pior, aquilo que você pensa de pior em você, suas piores percepções, seus maiores pensamentos negativos por si mesmo, são as aversões de si próprio, são as razões que você pensava ter para não se amar da forma que cogitava ser o amor.

O amor próprio é uma destruição. Um processo de criação. E pode ser que você definitivamente não goste da pessoa que está por baixo das suas defesas, do seu ego e das suas falsas identidades. Talvez você sinta raiva quando souber exatamente de tudo aquilo que permitiu e conviveu, mas que não merecia. Agora você sabe que fez o melhor que podia, quando não conhecia nada melhor e principalmente, quando não se conhecia.

Porque amar a si mesmo é saber que você merece, que você é o bastante, que é suficiente. Parte desse processo é reconhecer uma sombra onde estavam todas as evidências que você coletava quando não se achava digno.

Ficamos então com dois momentos, o antes e o depois. Você vê seu passado com novos olhos e terá muito trabalho para desembaraçar tudo aquilo que o antigo eu dizia estar bem. Terá de lidar com o possível desconforto e insatisfação que surjam, mas com consciência, reconhecerá que foram etapas para te trazer onde está hoje.

Porque amar a si próprio antes de ser uma libertação, é um fardo. Porque machuca. Porque você fica angustiado pelas pessoas que te trataram mal quando não sabia exigir o devido respeito. Porque você lembra de quão indefinidos eram os seus limites. Porque você fica com raiva de si mesmo por tudo aquilo que permitiu. Então você sente dor pelo tempo perdido e surge a enorme necessidade de colocar para fora tudo aquilo que é seu de verdade. Sua autenticidade aumenta a medida que se perdoa.

A solitude será sua fiel companheira, a medida que seu eu cresce. Você admite novas fronteiras pessoais e adquire uma enorme diversidade de valores para usar a palavra não. Seus olhos antes acostumados a permanecerem fechados, tentam se acostumar com a luz da realidade e resignação. Amor não é mais um sinônimo de alegria e euforia. Amor é a personificação de crescimento.

E crescimento não é o paraíso que prometem. Nunca foi. Era apenas mais uma ilusão.
Não existe esse tão esperado auge milagroso do amor próprio.
É simplesmente um processo doloroso, de reconstruir tijolo por tijolo, a vida que seu eu não amado construiu.

Destruir só ganha um novo e nobre significado quando aprendemos para onde olhar.

“Sua visão tornará se clara somente quando puder olhar para dentro de seu coração.
Quem olha para fora, sonha.
Quem olha para dentro, desperta.”

Carl Gustav Jung