CARACTERÍSTICAS SOCIODEMOGRÁFICAS DOS SUICÍDIOS BRASILEIROS

Joao gomes
Nov 2 · 12 min read

Autores:

João Gomes da Silva -Economista e Doutorando em Demografia pelo PPGDem/UFRN

Victor Hugo Dias Diógenes -Atuário e Doutorando em Demografia pelo PPGDem/UFRN

Fonte: https://glo.bo/2N4beDp

SÍNTESE

O senso comum da sociedade baseia-se em achar que tratar da temática ‘suicídio’ é algo específico dos estudos na área da saúde. Na verdade, esse é um tema que cada vez mais vem sendo discutido pelas mais variadas áreas diferentes da saúde. Este estudo é uma observação realizada por estudantes do curso de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mesmo não sendo uma particularidade exclusiva dessa área. Estudar o comportamento da mortalidade e suas causas, no caso específico, o suicídio, é inerente ao campo da demografia, mesmo que exija diálogo com outras áreas de conhecimento, como psicologia e epidemiologia, por exemplo.

O comportamento dos indivíduos se associa a diversos fatores, tendo a saúde mental como uma das principais causas que levam aos casos de suicídios. Em diversos países, sejam da Europa ou da América Latina, o suicídio vem se apresentando como uma epidemia, sendo constatado como uma das principais causas de mortes no mundo. O Relatório da Organização Mundial da Saúde (2017) mostra que essa causa de morte tem crescido substancialmente, notadamente no início do século XXI. Sendo assim, propõe-se programas voltados para prevenções à saúde mental das pessoas, sobretudo àquelas mais expostas.

Diante disso, o intuito deste trabalho é analisar o suicídio no Brasil distinguindo o perfil sociodemográfico dos indivíduos que morreram por essa causa em 2016. Para isso, usa-se os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Nesse sentido, existem estudos como o de Vidal, Gontijo e Lima (2013) que faz comparativo dessa causa de morte para diferentes países, e apontam que tanto homens quanto mulheres, sobretudo nas faixas etárias entre 15 e 34 anos, são alvos desse tipo de prática. Anteriormente, o suicídio era percebido mais em pessoas de idades avançadas, em contrapartida, esse perfil tem sido diferenciado e notado em pessoas mais jovens.

Portanto, os resultados que se constatam neste trabalho mostram que o suicídio, no Brasil, é uma prática mais presente nos grupos de pessoas do sexo masculino, com diferenciais de idade em relação ao sexo, a maioria é da região Sul, separados e com baixo nível de instrução.

PARE, PENSE E REFLITA!

Fonte:https://bit.ly/2PHYRi3

Os problemas causadores de suicídio têm a ver com uma série de fatores que dizem respeito não somente ao fato da depressão, mas também a qualquer outro tipo de transtorno que os indivíduos podem vir a desenvolver durante a vida, de modo que, por efeito acumulativo, isso acarreta em resultados que podem levar ao suicídio. Ainda de acordo com o relatório da OMS (2017), 4,4% da população mundial apresenta algum tipo de transtorno mental. Tem-se que nas Américas são os locais mais abrangidos por essas doenças mentais.

Mas por que tantas pessoas tomaram a decisão de desistir de continuar refletindo sobre o sentido das coisas? Inúmeras pessoas no mundo passam pela experiência de enfrentar algum tipo de transtorno, seja depressivo ou de ansiedade. São pensamentos dessa natureza que geram as preocupações das quais a sociedade vem se tornando refém. Cada vez mais as pessoas andam ficando estressadas com os afazeres do cotidiano, sobretudo, àquelas que vivem nos grandes centros urbanos. Isso tem gerado uma parcela significante no desgaste físico e mental da população. Portanto, os efeitos colaterais de toda essa agitação e pressão, muitas vezes, são refletidos pela incapacidade mental das pessoas desenvolverem e/ou realizarem planos de vida traçados.

Antes da sociedade chegar a experimentar essas causas de mortes mais recentes, como é o caso do suicídio, a população era acometida por outros tipos de doenças. Segundo o que se aponta por Omran (1971), houve uma série de transições das doenças mais predominantes na população ao longo do tempo, sendo essas as causadoras mais relevantes das mortes nas respectivas épocas. No tocante ao Suicídio, essa causa se enquadra na quinta transição apresentada pelo autor, a qual o mesmo denomina como mortes por doenças sem claras manifestações. Para tanto, pode-se entender que as doenças mentais não eram algo tão previsto no século passado e que tem ganhado uma proporção significante em períodos mais contemporâneos.

Por sua vez, se tratando ainda da discussão de Omran (1971), nota-se que as mortes por motivo de transtornos mentais, embora não tenha se destacado como uma das principais causas de mortes no século passado, fora mencionada indiretamente pelo o autor, abordando-a na transição inversa, já que essa causa de morte abarca diferentes tipos de outras causas atreladas aos estilos de vida insalubres na sociedade.

Sendo assim, é interessante mencionar o estudo de Preston e Nelson (1974), no qual os autores enfatizam que os diferenciais de mortalidade acontecem, sobretudo em níveis regionais. Além disso, constataram que esses diferencias presente na mortalidade apontam uma inclinação mais recorrente para o sexo masculino, principalmente quando está se referindo às causas externas de mortes. Por isso, achou-se interessante averiguar o perfil da população acometida por suicídio no Brasil.

PANORAMA DO SUICÍDIO NO MUNDO E NO BRASIL

O relatório da OMS (2017), mostra que os 5 países que apresentaram as maiores taxas de suicídio por 100.000 habitantes (padronizadas pela estrutura etária) em 2016 foram: Guiana (30,2), Lesoto (28,9), Rússia (26,5), Lituânia (25,7) e Suriname (23,2). Nesse ranking que contempla 183 países, o Brasil ocupa a posição 131, com uma taxa de 6,1 suicídios para cada 100.000 habitantes.

Ainda conforme o que se aponta pelo relatório supracitado, a distribuição continental dos países que apresentaram as 20% maiores taxas de suicídio mostra que a maior parte deles, 44%, está na África; seguido pela Europa, contemplando 28% das maiores taxas; e depois pela América, possuindo 14%.

No que concerne à essa distribuição geográfica das taxas de suicídio, pode-se verificar, conforme Mapa 01, que as maiores taxas predominam em países pobres da África, sobretudo, na região denominada África Subsaariana. Ao se referir à Europa, percebe-se que os países que apresentaram as maiores taxas de suicídio se localizam no leste europeu, com destaque para as nações classificadas como ex-repúblicas soviéticas

Mapa 01 — Taxa de Mortalidade por Suicídio padronizadas (por 100.00 hab.), ambos os sexos, 2016.

Fonte: OMS (2017)

DIFERENCIAIS DAS TAXAS DE SUICÍDIO NO BRASIL

Neste tópico serão identificados os diferenciais ou gradientes sociodemográficos das pessoas que cometeram suicídio no Brasil em 2016, afim de se conhecer melhor esse público e verificar quais suas características se destacam.

Primeiramente, a partir dos dados de mortes por suicídio fornecidos pelo Sistema de Informação de Mortalidade do DATASUS/Ministério da Saúde e de dados populacionais fornecidos pelo IBGE, foram calculadas as taxas de mortalidade por suicídio para cada 100.000 habitantes do Brasil entre 2000 e 2017. Os resultados dispostos no Gráfico 1 mostram um aumento no período de analise.

Gráfico 1 — Taxa de Mortalidade por Suicídio por 100.00 hab., Brasil, 2000–2017.

Fonte: SIM/DATASUS/MS e IBGE

O Brasil apresentou uma taxa de 4,08 suicídios por 100.000 habitantes em 2000, passando para 6,01 em 2017, o que representa um aumento de quase 50% nas mortes por este tipo de causa.

Quanto à identificação das características dos suicidas brasileiros, foi verificado diferenciais nas taxas de mortes por suicídio do Brasil em 2016 quanto ao sexo, idade, região administrativa, raça, estado civil e escolaridade. Inicialmente, tem-se no Gráfico 2 tem-se as taxas por sexo e idade.

Gráfico 2 — Taxa de Mortalidade por Suicídio por 100.00 hab. por sexo e idade, Brasil, 2016.

Fonte: SIM/DATASUS/MS e IBGE

No Gráfico 2, percebe-se que a mortalidade por suicídio é maior entre os homens em qualquer idade em comparação com as mulheres. No sexo masculino a taxa tem um elevado aumento na faixa etária de 20 a 24 anos, apresentando uma certa constância até aos 70 anos, ponto que volta a crescer, chegando ao seu ápice na faixa etária de 75 a 79 anos. Enquanto que entre as mulheres há um pequeno aumento na taxa a partir da idade de 15 anos, alcançando os maiores valores entre as idades de 40 a 54 anos, com posterior e suave declínio.

A taxa de suicídio total por sexo, evidencia como esse tipo de morte acomete de forma distinta os homens e as mulheres. Em 2016, os brasileiros apresentaram uma taxa de 8,53 suicídios para cada 100.000 homens, enquanto que para as mulheres esse valor foi 2,28 no mesmo período. Isso significa dizer que a taxa masculina é quase 4 vezes maior do que a do sexo feminino. Esse achado ratifica os resultados apontados pelo Boletim Epidemiológico (2017) e também por Júnior et, al. (2019), esse último estudo aponta que embora as mulheres estejam mais expostas aos fatores de risco, como depressão, por exemplo, são os homens que apresentam a maior mortalidade por suicídio, o que tornam as suas estatísticas maiores quando comparadas as mulheres, no caso do Brasil.

Quando verificados os diferenciais das taxas de suicídio por região no Brasil (Gráfico 3), verifica-se que a Região Sul é aquela que apresenta o maior valor, com 7,86 suicídios para cada 100.000 habitantes. Em seguida vêm as Regiões Centro-Oeste e Sudeste, com taxas de 5,77 e 4,64, respectivamente. Apresentando as menores taxas, tem-se as regiões Nordeste e Norte, com taxas semelhantes na ordem de 3,9 suicídios para cada 100.000 habitantes.

Gráfico 3 — Taxa de Mortalidade por Suicídio por 100.00 hab. por região, Brasil, 2016.

Fonte: SIM/DATASUS/MS e IBGE

Ao analisar os resultados ilustrados no Gráfico 4, que trata das taxas de suicídio por raça/cor, atesta-se que os indígenas destoam das demais raças, apresentando uma elevada taxa de 11,36 suicídios para cada 100.000 habitantes. Em sequência e de forma decrescente, tem-se as raças branca, parda, preta e, por último, amarela.

No entanto, é necessário considerar que esse elevado valor na taxa de suicídios dos indígenas pode ser uma observação atípica, já que se trata de um contingente populacional pequeno e com poucas mortes por suicídio observadas, estando, portanto, sujeita a aleatoriedade e eventos anormais.

Gráfico 4 — Taxa de Mortalidade por Suicídio por 100.000 hab. por raça/cor, Brasil, 2016.

Fonte: SIM/DATASUS/MS e IBGE

Esse perfil constatado no Gráfico 4, o qual mostra os indígenas se destacando como a maior taxa de suicídios no Brasil, ratifica os achados por Machado e Santos (2015), onde os referidos autores constataram em outro estudo realizado para o Brasil que o indivíduo que se suicidava era predominantemente homem, da raça/cor indígena e/ou residente na região Sul.

Considerando o estado civil das pessoas que se suicidaram no Brasil em 2016, verifica-se no Gráfico 5 que a maior taxa é observada entre os separados, com 7,81 suicídios por 100.000 habitantes. Com taxas bem aproximadas, tem-se em seguida os solteiros, viúvos e, por último, os casados.

Gráfico 5 — Taxa de Mortalidade por Suicídio por 100.00 hab. por estado civil, Brasil, 2016.

Fonte: SIM/DATASUS/MS e IBGE

Quanto aos diferenciais nas taxas de homicídio de acordo com a escolaridade, conforme mostrado no Gráfico 6, verifica-se que os indivíduos menos instruídos apresentam as maiores taxas. A menor taxa observada se refere a população mais escolarizada, com ensino médio completo ou mais.

Esses achados se divergem do que se apontava em épocas passadas. De acordo com Durkheim (1982), o qual analisou o suicídio no século XIX sob óptica do campo sociológico, há uma predominância maior desse comportamento entre pessoas mais instruídas. Por outro lado, se tratando de pesquisas mais recentes, o Boletim Epidemiológico (2017) ratifica os resultados encontrados neste trabalho, apontando que as pessoas mais acometidas pelo suicídio são as menos desprovidas de instrução (sem instrução até o médio incompleto).

Gráfico 6 — Taxa de Mortalidade por Suicídio por 100.000 hab. Segundo nível de instrução, Brasil, 2016.

Fonte: SIM/DATASUS/MS e IBGE

No tocante aos casos de suicídio segundo a escolaridade, observa-se no texto de Machado e Santos (2015) que a mortalidade por suicídios no Brasil é mais presente para àqueles indivíduos menos escolarizados. Esses achados estão em consonância com os observados no presente artigo, uma vez que as maiores taxas de suicídios estão concentradas na população de escolaridade mais baixa. Isso mostra que as pessoas em situações mais vulneráveis, como as pessoas menos instruídas, por exemplo, precisarão de maior assistência governamental no que diz respeito às políticas de saúde mais direcionadas.

SUICÍDIO: É PRECISO CONVERSAR SOBRE

Fonte: https://bit.ly/327Cl4H

Ao final deste trabalho, conclui-se que é de suma importância identificar os suicidas para propor políticas públicas específicas e direcionadas para esse público. Além disso, em que se pese de se tratar de um tema tão delicado, é imperativo que o assunto seja mais e melhor discutido na sociedade e pelo poder público, justamente para criar mecanismos de se evitar esse tipo de morte que ainda causa choque e comoção na sociedade. Diante do exposto, foi possível inferir que as práticas de suicídio no Brasil e no mundo têm sido reflexo de um problema de saúde pública generalizada. Nesse sentido, ressalta-se que:

[…] falar do tema sem alarmismo e enfrentando os estigmas, bem como conscientizar e estimular sua prevenção, pode contribuir para reverter a situação crítica que estamos vivendo. De fato, intervenções eficientes, bem fundamentadas, baseadas em evidências e em dados seguros, podem ser aplicadas a determinados grupos e indivíduos para se prevenir as tentativas de suicídio e evitar o óbito por essa causa (BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO, 2017, p.2).

É importante saber que as perdas que esse tipo de morte causa na vida social, sobretudo de familiares, acarretam consequências emocionais. Isso também se estende para outras pessoas que tinham diferentes tipos de relações pessoais com a pessoa acometida pelo suicídio. Os suicídios no Brasil estão em meio aos fenômenos que acontecem por diferentes motivações, notadamente os aspectos relacionados com as desigualdades de renda que, em parte, leva a população a viver em condições financeiras distintas. E isso favorece à mudança nos comportamentos psicossociais dessas pessoas (MACHADO; SANTOS, 2015).

Como visto nos resultados, os suicídios no Brasil têm características bem definidas no Brasil e apresenta um crescimento de 4 para 6 mortes por 100.000 habitantes, entre os períodos de 2000 a 2016. Além disso, é possível constatar que a região Sul sobressaiu das demais regiões brasileiras, apresentando a maior taxa de suicídios no ano de 2016. No tocante ao perfil do morto, é homem apresenta um número de casos mais acentuado para os grupos acima de 65 anos, indígena, separado e com baixo nível de instrução.

Em suma, o que se parece diante dessa breve análise feita sobre as características sociodemográficas dos suicídios no Brasil é que precisa-se de planos direcionados ao melhoramento das políticas associadas a saúde pública, no sentido de oferecer métodos preventivos ao suicídio através de ações que reflitam a realidade de cada região, uma vez que existe esse diferencial sociodemográfico.

REFERÊNCIAS

BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO. Suicídio: Saber, agir e prevenir, Secretaria de Vigilância em Saúde − Ministério da Saúde. Volume 48. N° 30, 2017. ISSN 2358–9450

DURKHEIM E. O suicídio: um estudo sociológico. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1982.

JÚNIOR, A. D-Eca; RODRIGUES, L. V; MENEZES FILHO, L. P; COSTA, L. L. N; RÊGO, A. S; COSTA, L. C; BATISTA, R. F. L. Mortality by suicide in the Brazilian population, 1996–2015: what’s the predominant trend? Cad. Saúde Colet., 2019, Rio de Janeiro, 27 (1): 20–24. 2019.

MACHADO, D. B; SANTOS, D. N. Suicídio no Brasil, de 2000 a 2012. J. bras. psiquiatría. Vol, 64 n.1 Rio de Janeiro, Jan/Mar, 2015.

OMRAN, A. R. The epidemiologic transition: a theory of the epidemiology of population change. Milbank Memorial Fund Quarterly, 49 (parte 1): 509–538, 1971.

PRESTON, S. H.; NELSON, V. E. Structure and Change in Causes of Death: An International Summary. Population Studies, vol. 28, nº 1. P. 19–51, 1974.

WORD HEALTH ORGANIZATION. Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Geneva: World Health Organization; 2017.

VIDAL, C. A. L; GONTIJO, E. C. D. M; LIMA, L. A. Tentativas de suicídios: fatores prognósticos e estimativas do excesso de mortalidade. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 29(1):175–187, 2013.

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