Incerteza

Nunca gostei de incertezas. O muro pra mim nunca foi uma opção. Coisas indefinidas sempre me repeliram. Sou do tipo “8 ou 80", sim ou não. Certo ou errado.

Mas a vida é dinâmica não é mesmo? E nem sempre ela se encaixa nas nossas exigências. As margens existem mas o rio entre elas muda toda hora, a cada segundo. E quando para de mudar, o rio deixa de ser rio. Perde sua identidade.

A vida é esse rio e eu um navegante. A vontade de soltar uma âncora e ficar parado é tentadora mas o que eu seria se fizesse isso? Deixaria de ser navegante, nunca chegaria onde eu devo chegar, seja lá onde for. Me tornaria algo indefinido.

E isso é um paradoxo. Fluir como o rio, aparentemente, é algo mais definido do que ficar parado no meio dele. Contudo, o rio não é mais o mesmo e nem a paisagem, a medida que deixamos o vento soprar nas velas.

Porém, concomitantemente, demoro um pouco para me adaptar à mudanças. Me deixo envolver por árvores e aves que vejo numa parte do percurso e tenho sempre que vê-las se distanciando, indo embora. Mas a verdade é que eu que estou me afastando, mesmo parada. O rio me leva pra longe. E nesse ponto só me resta a memória que também se apaga aos poucos com o balanço do barco.

Você pode me perguntar: o que fica então?

Muita coisa. Tudo que está no barco, ou a maioria. O que há de desnecessário vai se revelando a medida que navego e preciso assim me desfazer disso para dar lugar à coisas mais importantes. Porém tenho um verdadeiro tesouro guardado. E quando digo tesouro, não me refiro a algo material, mas eterno. Se nessa viagem tudo passa muito rápido, o mais precioso que eu poderia ter, deveria, logicamente, ser algo que não passasse, que permanecesse.

E acredite: pouca coisa permanece. A maior parte não passa de incertezas. Sim, também as carrego dentro do barco. É algo que não está no meu controle. Se fosse por mim, não haveria nenhuma delas. Mas se todas fossem eliminadas também não haveria rio, e nem eu.

E assim prossigo, tendo que aguentar essas incertezas antigas e outras que aparecem no caminho. Seria mais fácil se eu não fosse como sou, mas nesse caso, eu deixaria de ser eu e me tornaria um desconhecido. O que me consola é saber que as incertezas são passageiras e sempre chega o dia em que algumas delas morrem e dão lugar à certeza, seja ela feliz ou triste.

Espero que a incerteza de hoje, se torne algum dia, uma certeza feliz.

Bancos do Oise. Paul Gauguin.