Quando a gentileza de torna uma surpresa

E aqui estou eu… Depois de um dia que parecia não ter fim, cada minuto parecia uma hora. Intermináveis palestras e dissertações sobre o novo CPC me deixaram com uma dor de cabeça que raramente tenho.

Intermináveis 6 horas dentro de um anfiteatro escutando tudo aquilo me deixaram mais cansado que correr uma maratona. Pra colocar a cereja do bolo dessa ótima semana, ainda fui pra faculdade fazer minha ultima prova.

Pois bem, prova feita, já começo com sorte. Chego em cima da hora de pegar o ônibus pra ir pra casa. Pra mim seria como todos os dias, nada de especial. Lá estava no terminal, com a cara de morte que fazia jus ao dia que tive, eis que me aparece uma figura diferente. Nunca tinha visto aquela mulher lá. Roupas extremamente coloridas, aparencia cansada e suada, vai até a frente do corredor do ônibus, com uma cesta verde nas mãos, com o conteúdo ainda desconhecido. Estava conversando no WhatsApp, e já logo disse na conversa que com certeza estava mais interessante que o mundo real: “Aff, já tem vendedor ambulante aqui”. Mas uma coisa nessa vendedora ambulante me chamou atenção logo de cara: a aparência cansada, sofrida e a barriga protuberante, dando a impressão de gravidez. “Eu sei que a vida está difícil pra todo mundo, mas vim aqui pedir pra quem puder me dar uma ajuda nesse final de mês, estou vendendo essas balas, e tô vendendo por só um real. Alguém aí pode me ajudar, comprando as balas?” Nesse momento ela deixa a mostra o conteúdo do cestinho verde: pacotinhos de bala de goma.

Confesso que senti vontade, amo aquelas balas, e senti pena daquela pessoa. Mas já é um hábito, não carregar dinheiro vivo. Enfim, deixei pra lá e voltei para minha conversa no celular. Quando sinto ela se aproximando, eu estava encostado na janela, com os pés por cima do banco ao lado ao meu, com a roupa social toda amarrotada e aparencia desleixada depois de um dia inteiro tentando me manter “apresentável”, com a gravata já afrouxada e com a cara de morte digna de um funeral. Ela se aproximou, e falou baixinho “moço, você parece triste. Pegue uma bala”; eu respondi “Desculpe, não tenho dinheiro vivo comigo”; ela prontamente responde “Pegue uma bala, pra te alegrar”.

Nesse momento senti uma coisa diferente. Recusei, obviamente; Não acho justo ficar com algo que sustenta a pobre mulher. Agradeci, ela deu um sorriso e me virou as costas, saindo do ônibus. Mas fiquei pensando naquilo por vários minutos.

Estive, ontem e hoje, no meio de pessoas com boa condição financeira, todos impecavelmente vestidos e sem excessão, com um nível de escolaridade de 80% dos presentes que passa a graduação, e não vi sinal de gentileza e doçura, quanto vi dessa mulher no terminal. E me fez pensar… Educação, gentileza, não são inerentes de um nível de escolaridade ou condição financeira. Ela era uma simples vendedora ambulante, que na minha opinião, em um ato de desespero, procura o sustendo próprio e do filho que estava por vir, se já não tiver outros filhos; mas foi gentil, educada e mostrou uma compaixão que nenhuma das pessoas com quem compartilhei um espaço hoje mostrou.

Ganhei o dia com esse pequeno ato, sempre como eu adoro. Pequenas coisas…