O binômio entre permanente e efêmero


Por Jhonny Rezende

Uma reflexão sobre o que sempre está por vir

“(…) qualquer cultura de projeto vive de uma intensa dialética entre continuidade e descontinuidade, entre permanência e mutações, entre recorrências e casualidades. Por um lado não pode existir um autêntico avanço de uma pesquisa se esta não goza de uma relativa estabilidade no tempo confirmando os paradigmas, os temas e os instrumentos disciplinares de que se alimenta; por outro, se não interviessem ciclicamente improvisas reviravoltas ou adaptações talvez traumáticas dos quadros teóricos e operativos consolidados, a própria pesquisa arriscaria repetir-se em fórmulas já experimentadas, caindo em uma imobilidade perigosa” (Aldo Rossi)

Este trabalho pretende antes de tudo uma reflexão entre a vida contemporânea e as memórias vividas. A arquitetura, por vezes é apenas um detalhe, ou a materialidade de uma reflexão, de um conceito previamente discutido, algo que pode ser potencialmente problemático, pelo “grau crítico” ao que o objeto se torna exposto. O binômio entre permanência e transformação é hoje um dos principais a serem discutidos nas cidades, se fazendo claro entendimento que esta reflexão transcende a arquitetura, trata-se de uma causa maior como constituição das cidades.

Partindo dos conceitos de Rossi sobre a hipótese da cidade como artefato, entendemos que o desenvolvimento das cidades se relacionam através do viés temporal, seja por cultura, por meios econômicos ou sociais, pensando que estas questões podem sim se relacionar mesmo em tempos diferentes, os tornando objetos de reflexão comparáveis. Existe também a questão da estrutura urbana que aceita em seu interior elementos que considero regionalismo que tratam de acelerar ou atrasar o desenvolvimento do processo urbano, tendo em mente toda problemática socioeconômica e cultural que as envolve.

Dentro dessa perspectiva, vale destacar a arquitetura de Aldo Rossi afirma-se como expressão da cidade e, consequentemente, transita numa posição de centralidade entre inovação e tradição. Valendo-se da primazia da cultura humanista impregnada na experiência italiana, da referência da escala humana, forte elemento de identidade da cidade tradicional, busca parâmetros de criação duradouros, procedentes da reinterpretação da herança clássica. Parâmetros esses que se propõem como modelos de uma ação disciplinar de projeto em estreita ligação com a investigação teórica e com a observação da cidade existente.

Considerações sobre a relação entre transformação e memória são de fundamental importância por se tratar de uma discussão que atenta para o reconhecimento das similitudes em relação aos demais modos de uso do espaço urbano, mas que também leva em consideração as diferenças, as singularidades próprias das pessoas da cidade contemporânea.

A história e a memória, na dinâmica de sua relação, são suportes de identidades individuais e coletivas. O ato de relembrar pressupõe possibilidades múltiplas de elaboração das representações e de reafirmação das identidades construídas na dinâmica da história. Apenas do ponto de vista analítico se pode justificar uma oposição conceitual entre os termos transformação e permanência. Transformação indica uma descontinuidade, uma mudança súbita de orientação no curso previsível dos acontecimentos, um corte com relação a um conjunto de valores e expectativas estabelecidos em uma determinada época, acompanhado de um salto em direção a uma nova conjuntura, a ser instituída a partir da superação da conjuntura precedente. Em todos os casos, é sempre sob o pano de fundo das permanências, isto é, sobre o eixo temporal da continuidade dos processos estudados, que se pode pretender identificar e assinalar as rupturas. Uma não existe sem a outra: dialeticamente unidas, efêmero e permanência constituem um mesmo movimento, através do qual se opera a transformação dos processos em curso e que equivale, em última análise, ao próprio movimento da História. Assim a união entre o passado e o futuro está na própria ideia da cidade, que a percorre tal como a memória percorre a vida de uma pessoa e que, para concretizar-se, deve conformar a realidade, mas também conformar-se nela. E essa conformação permanece em seus fatos únicos, em seus monumentos, na ideia que temos deles.

O efêmero, portanto, ressalta o permanente, o binômio se torna forte quando entendemos essa relação de cidade que se transforma e memória que permanece, contudo, esse registro deve ser natural, as cidades não podem guardar ruínas e impedir o desenvolvimento das cidades, ainda mais em uma cidade como São Paulo, rediscutir o uso e porque não mesclar o fazer efêmero no objeto permanente pode sim ser uma relação que mais que uma poética agradável torna-se uma solução útil tanto para a cidade a ser preservada quanto a ser desenvolvida, tornando todos parte de um processo único de renovação urbana.

O teatro do Mundo (1979) de Aldo Rossi é Importante para estudo dos conceitos sobre o binômio entre permanência e preservação da história e memória das cidades. em relação as transformações urbanas. Foi projetado para a Bienal de Veneza de 1979. A ideia era evocar os teatros flutuantes, tão típicas de Veneza e seu carnaval, no século XVIII. Foi construído em um estaleiro, foi rebocada por mar para o seu site no meio da água, onde permaneceu durante a Bienal. O Teatro do Mundo é um teatro flutuante, itinerante, o qual Rossi fez para a Bienal de Veneza de forma a retomar esse tipo de arquitetura característica da cidade do século 18.

Fonte: hipsteria
Fonte: WikiArquitectura

A presença desta marca dota o espaço de um registro que o diferencia das demais estruturas espaciais. Sendo assim, por esta particular característica, uma vez na presença deste espaço marcado — o locus –, podemos experimentar um contato com o universo da memória e do reconhecimento. A memória, para Rossi, antes que uma fonte de modelos a serem reproduzidos no presente, é a possibilidade de retomar a relação dialética com o mundo dentro do processo histórico, a partir das notações espaciais — as permanências.

Assim, paradoxalmente, se por um lado, o conceito de permanência se sustenta na consideração de que a produção arquitetônica se confirma através do processo histórico, por outro, rompe com a noção de tempo linear progressivo e, acima de tudo, com a noção de história como um processo evolutivo, já que a noção de tipo é a ideia de uma estrutura constante, como um relato atemporal.

Em uma discussão mais próxima há o projeto do Brasil Arquitetura para o Museu do Pão-Moinho Colognese (2007), interessante para o estudo da relação entre pré-existência e contemporâneo e inserção que respeita o entorno. Os moinhos remanescentes desta época são talvez o maior registro dessa história, a cidade como memória, a preservação do passado. Mas apesar de sua importância histórica, estes moinhos estavam fadados a desaparecer, pelo abandono e esquecimento típicos de nossos dias. Em 2003 foi lançada a ideia da criação de uma rota turístico/cultural dos moinhos, e iniciamos o projeto para a recuperação de um primeiro exemplar, o Moinho Colognese, de Ilópolis. Para não cair num projeto nostálgico, decidimos agregar a este moinho — que deveria ser restaurado para voltar a funcionar e produzir farinha de milho para a polenta — um Museu do Pão e uma Escola de Padeiros. Cem anos os separam no tempo, mas uma ideia-força os une, e essa ideia é justamente a de uma “celebração da madeira”. A arquitetura cumpre seu papel de renovação cultural, protagonizando o reencontro da comunidade local com sua historia, agora em novas bases de sonhos e utopia: arquitetura de raízes e antenas.

Fonte: Archdaily Brasil
Fonte: Brasil Arquitetura