O efêmero e arquitetura experimental


Por Jhonny Rezende

Para além dos pilares, vigas e lajes do dia-a-dia

O caos diário pode ser um exercício interessante, se desligar por um breve momento do que na verdade fazemos parte, o trânsito, o movimento das pessoas nas ruas, o barulho das coisas, da cidade acontecendo, como tudo está parado e em movimento, qual é a história de cada um que está passando ali? Qual o motivo dessa pressa? Em algum momento já se perguntaram o quanto a vida naquele espaço é transitória, a cidade se torna cenário da passagem, tudo se torna efêmero.

O critério definidor da arquitetura efêmera não é a durabilidade potencial do objeto construído, mas sua durabilidade real. Um assentamento rural pode ser precário, mas pretender a permanência, e assim sê-lo por conta de contínuas manutenções. Ao contrário, edificações sólidas podem ser demolidas por esgotar-se, em curto intervalo de tempo sua finalidade. Eis o primeiro paradoxo do tema: uma arquitetura só se torna efêmera de fato quando se desfaz de um dado lugar. Conceitualmente, existe apenas quando cumprida sua efemeridade. Tudo o mais é incerteza. O segundo paradoxo é consequência deste: não há relação direta entre a tecnologia construtiva e a efemeridade real da construção. Os ambientes efêmeros são constituídos por objetos — no sentido que demos ao termo, de edificações de porte variável — e ainda por elementos que não são arquitetônicos propriamente ditos, que não abrigam dentro de si atividades humanas. Tais ambientes são transitórios por inteiro, cada parte de diferente maneira.

Em uma feira, a atração performática pode acontecer em um caminhão-palco; toldos desmontáveis e pantográficos, sucessivamente, cobrem stands, enquanto sanitários químicos em cabines rígidas são dispostos em uma lateral, com todo o perímetro cercado por folhas de madeira compensada, sobre uma preexistência fixa que apoia as novas atividades. Esse ambiente geralmente é uma mescla heterogênea de processos, de materiais, e mesmo de insumos tecnológicos.

As características da produção do ambiente efêmero põem em cheque pressuposições tidas como naturais do fazer arquitetônico. A arquitetura, como a concebemos, é obra unitária. Porém, a tônica do ambiente efêmero é a partição em pedaços menores. Um deles tratamos à exaustão, que são os objetos arquitetônicos propriamente ditos, ou unitários em sua concepção original (desmontado, compactado ou inteiriço) ou concebido a partir de arranjo momentâneo de um sistema construtivo de fácil montagem.

Tratamos a relação aos símbolos como estratégia para fundamentar o efêmero, as relações literais, ainda que por vezes problemáticas denotem o sentido proposto, o espetáculo especulado por Koolhaas em New York delirante, nesse que consideramos um estudo do caos, se torna imprescindível na busca por um entendimento de cidade enquanto elemento em transformação.

Fonte:Archigram

O grupo Archigram experimenta ainda assentamentos temporários, como a Instant City (1969). Amplamente ancorados em meios de transporte — especialmente aqueles que nem o território percorre, simplesmente pairando no lugar — potencializam o que hoje é usual, que é a possessão repentina de um lugar por uma atividade temporária, seja exposição ou festa rave, para posterior desaparição. A velocidade e a escala são maiores, mas os assentamentos transitórios são ancestrais. Diante de algo tão antigo quanto as caravanas e os acampamentos de tendas, cabe a reflexão sobre o genius loci, de Aldo Rossi, já citado, pela questão do lugar e suas transformações.

Fonte: Argchigram
Fonte: Archigram

Outros projetos que experimentam esses conceitos, o Pavilhão Mobilizart (2011) dos escritórios Pax.arq e Frentes arquitetura, é um bom exemplo, construção inspirada em crochê e tenda de circos se destaca por sua materialidade.

Fonte: pax.arq

O efêmero é o que mais chama atenção neste estudo, como uma estrutura temporária pode se tornar um marco, fazendo ainda a reflexão sobre cidade em transformação. A malha inflável concebida cria espaço aberto de atividades diversas, é pensado para receber a manifestação cultural da região onde estiver, tem uma interessante trama com sua malha inflável, tornando a montagem rápida, reutilizável, pensando ainda nos efeitos de luz e sombra, como também na plástica do pavilhão, que pode sofrer diversas alterações e se formar de várias maneiras, conforme o lugar a ser implantado. O uso do esquema como representação de projeto para este pavilhão se torna essencial.

Ainda no campo conceitual, NYC, in the Air (2011) do Paisajes Emergentes, mostra como a experimentação pode mexer com o aspecto urbano de cidade e como podemos reinterpretar o edifício. A crítica era para um concurso que pedia uma torre de 100 metros em Baterry Park, em Nova York. A torre deveria ser a nova sede do Museu da Imigração, assim como um monumento para o tema. A 100 metros do nível do mar se posiciona a parte de uso temporário do museu. Três milhões de metros cúbicos de gás hélio mantem o objeto no ar, já a exibição permanente se encontra na parte subterrânea de onde o dirigível se projeta.

Fonte: LCLA
Fonte: LCLA