Permanência e memória


Por Jhonny Rezende

Este é um relato sobre a história em constante movimento

Muitas vezes nos deparamos com um espaço, por mais simples que seja, poderá haver uma carga emocional, seja a casa simples onde cresceu, uma praça ou parque em que conviveu, ou a escola em que estudou, a memória não está necessariamente no rebuscamento de uma obra faraônica, ela está presente no detalhe de um parede riscada na infância ou de um chão gasto, a memória está nas histórias vividas naquele espaço, nas lembranças guardadas, na percepção que nos permite ver os detalhes mais ínfimos daquele lugar, pois cada parte daquela materialidade pode haver um pedaço de história, importante ou não, mas leva consigo um tempo de vida, um sentido de lugar.

A memória de uma vida, seja ela qual for, deve ser motivo de reflexão, a materialidade que mantida dela deve ser respeitada como a lembrança dessa época, sem exageros burocráticos que costumeiramente vemos em nossa legislação, mas que sirva de parâmetro para entender o passado. A marca de uma geração e toda sua transformação cultural e social está presente nas formas e no aspecto da cidade, passado, presente e futuro se conformam em algo único, complexo e que em este trabalho consideramos identidade, pois esta diversidade abrange a vida em sua materialidade.

Uma verdade frustrante sobre a memória construída é que não temos um equilíbrio na forma de tratá-la, ou a destruímos de forma absurda e incontrolável por um suposto progresso necessário e devastador da cultura e história, ou também a colocamos numa redoma e protegemos de tal forma a perder o registro histórico ao qual deveríamos ter acesso para aprender a respeitar e manter.

Para a discussão acerca do patrimônio se torna imprescindível a análise de diversas teorias, considero como principais as realizadas por Aldo Rossi, em Arquitetura da Cidade e Cesare Brandi, em a Teoria do Restauro. Desde os anos 60, o tema da memória ganhou destaque cada vez maior nos estudos sobre as cidades, em uma perspectiva de abordagem que se contrapõe ao pensamento e prática do Movimento Moderno Internacional, especialmente no que se refere ao descaso em relação às características históricas, geográficas e culturais que dão identidade ao lugar.

Aldo Rossi analisa em A Arquitetura da Cidade (1966) que todo o processo de surgimento e transformação da cidade em um modo geral, cidades reais de todo o mundo e projetos desenvolvidos em estudos. A cidade e sua formação tem sido um dos temas mais estudados e pesquisados no meio arquitetônico há séculos.

“A cidade é a memória coletiva dos povos; e como a memória esta ligada a fatos e a lugares, a cidade é o “locus” da memória coletiva”.

(Aldo Rossi)

Assim, tratando da arquitetura da cidade, Aldo Rossi refere-se ao “locus” como sendo o princípio característico dos atos urbanos; o “locus”, a arquitetura, as permanências e a história serviram para tentar esclarecer a complexidade dos atos urbanos. Enfim, a memória coletiva se torna a própria transformação do espaço, a cargo da coletividade. É provável que esse valor da história, como memória coletiva, entendida como relação da coletividade com o lugar e com a ideia dele, permita ou ajude a compreender o significado da estrutura urbana, da sua individualidade, da arquitetura da cidade, que é a forma dessa individualidade. Pensando nesta questão do “locus” e da estrutura urbana um bom exemplo dessa discussão é o Museu das Missões (1940) de Lucio Costa, importante objeto de estudo pela singela recriação do sítio jesuítico, através do enquadro da edificação.

Em 1937, é criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -SPHAN-, ao qual se tornaria futuramente IPHAN, para o qual foi designado diretor o arquiteto Lucio Costa. Entre seus primeiros trabalhos esteve o estudo para preservação e recuperação dos assentamentos jesuíticos do Rio Grande do Sul, entre os quais se destacava o sítio da igreja de São Miguel Arcanjo, pertencente aos Sete Povos das Missões.

O museu foi construído com elementos construtivos e materiais provenientes das ruínas, e de maneira similar a um alpendre missioneiro. Inicialmente imaginado como um simples abrigo aberto para as obras de arte, o Museu recebeu pouco tempo após sua inauguração um fechamento de painéis de vidro transparente, igualmente proposto por Lúcio Costa.

Fonte: © blogspot Museu das Missões

Indagações sobre futuro e utilidade, manutenção e reutilização de ruínas, imagem do antigo e construção do novo, contraste, simultaneidade, anacronismo, transparência e opacidade foram proclamadas pelo arquiteto carioca setenta anos atrás.

Fonte: © IPHAN

O trabalho de Brandi ao desenvolver sua teoria, funda-se na necessidade de excluir o empirismo dos processos de restauração das obras de arte, garantindo, assim, que aquele imperativo moral de preservar nossas relíquias para as gerações futuras seja levado de fato, sem as burocracias costumeiras.

“A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo”.

(Cesare Brandi)

Desde os últimos anos do século XIX e início do século XX vinham sendo empreendidas diversas tentativas com o intuito de disciplinar e limitar as ações de restauração, tendo em vista que as más restaurações estavam causando prejuízos maiores às obras de arte do que a própria ação do tempo sobre elas. Preconizava-se a necessidade de tornar o restauro um ato científico, que seguisse princípios e métodos cientificamente determinados, respeitando os monumentos enquanto documentos históricos, ainda que as teorias de Brandi sejam questionáveis no campo real são de grande importância na crítica ao restauro que torna a memória presa em uma bolha. O que deve guiar a intervenção é, portanto, um juízo crítico de valor. Brandi define ainda como princípios para intervenção restauradora mais dois aspectos fundamentais:

“a integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; mas sem que por isto se venha a infringir a própria unidade que se visa a reconstruir”

(Cesare Brandi)

“que qualquer intervenção de restauro não torne impossível mas, antes, facilite as eventuais intervenções futuras”

(Cesare Brandi)

A partir das considerações supracitadas pensamos como exemplo dessa discussão a Casa das Rosas (1935), do arquiteto Ramos de Azevedo para ser a residência da sua filha, sendo assinada por Felisberto Ranzini devido a morte de Ramos de Azevedo anos antes do término.

Habitada até 1986, a mansão foi desapropriada pelo Governo do Estado quando, o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), tombou o local no dia 22 de outubro de 1985. A Casa passou cinco anos, de 1986 até 1991, sendo restaurada. Em 11 de março de 1991, a Secretaria de Estado da Cultura inaugurou o espaço cultural conhecido por Casa das Rosas — Galeria Estadual de Arte, que exibia mostras temporárias de obras do acervo artístico do Estado, divulgando as iniciativas da rede estadual de Museus e do Departamento de Museus e Arquivos. Em março de 2003, a casa foi fechada para reformas.

Fonte: Album Iconográfico da Avenida Paulista

Levando-se em conta a estrutura urbana da Avenida Paulista e seu entorno, podemos dizer que a avenida mais paulista da cidade transformou-se em um dos espaços de cunho democrático, onde todas as manifestações têm vez, representando na dinâmica da cidade um grande fórum de debates.

Evidencia-se tanto lutas pela inclusão como é o caso da Parada Gay que celebra a diversidade, dado ao enorme público que congrega, bem como questões tradicionais como a comemoração do Natal e Ano Novo, à qual convergem multidões. É nesse cenário que a Casa das Rosas permanece um legítimo representante da arquitetura paulista como símbolo e referência de memória do cotidiano e das transformações da cidade e modos de vida.

E é nesse contexto que a Casa das Rosas, desde a sua reinauguração no final de 2004, tem oferecido à população de São Paulo cursos, oficinas de criação e crítica literárias, palestras, ciclos de debates, lançamentos de livros, apresentações literárias e musicais, saraus, peças de teatro, exposições ligadas à literatura, etc. Transformou-se, portanto, em um museu que se notabiliza pelo trabalho de difusão e promoção da literatura de escritores muitas vezes deixados de lado pelo mercado e pela oferta de oficinas e cursos de formação para aqueles que pretendem se tornar escritores ou aprimorar sua arte.

Fonte: © CULTURA NA PAULISTA