Com muito orgulho?

O maior símbolo de um país em frangalhos, nada mais simbólico (Foto: Ana Clara Marinho / G1)

Vivemos mudando os rumos da história. Seja aquela escrita nos livros, seja a história das nossas vidas. Só daqui a muitos anos iremos conseguir entender tudo que está acontecendo hoje ao nosso redor, se pudermos entender. É um momento estranho, de crises em todos os âmbitos da nossa sociedade, desde a política, passando pela economia, até chegar à crise de valores, a maior consequência de todas as mudanças que estamos experimentando. Parece muito difícil ter a tranquilidade de discernir entre os muitos lados que apresentam ideias, formas de pensar e de agir. A linha entre o coerente e o insano é cada vez mais tênue.

Respirar fundo. Pensar três, dez, cem vezes. Medir as palavras com método científico e analisar o efeito delas. É tudo o que tenho feito antes de querer emitir qualquer opinião. Nesse momento de efervescência política e social, a última coisa que eu quero é me indispor com quem quer que seja, ainda mais no inóspito terreno das redes sociais, onde qualquer movimento mais brusco pode causar uma revolução, ou, no mínimo, o fim de uma boa amizade. Não que eu considere minhas visões uma referência, algo de grande relevância na vida das pessoas do meu convívio, mas por ser uma pessoa que sempre me posicionei em relação às coisas do mundo, incomoda muito ter que ficar cheio de dedos para me expor.

Como leitura complementar: “Por que não vou abrir meu voto?”, de outubro de 2014.

Hoje me vejo como um derrotado. Confesso que sempre tive muita esperança na humanidade e que era possível fazer mais e melhor. Infelizmente aqui no Brasil não tem como. Somos um lugar que se diz pluricultural e democrático, mas onde qualquer opinião emitida se vê na mira de dezenas de pedras, seja qual for a vertente. Já percebia muito disso em outros âmbitos da sociedade, mas depois que este comportamento maniqueísta mergulhou de cabeça no pântano político-partidário, aquele que — lamentavelmente — decide o nosso futuro, se perdeu a mão em tudo. Viramos grandes massas de manobra, dispostos a matar e a morrer por aquilo e aqueles que defendemos, vendo coisas boas apenas em um dos lados da moeda e desprezando totalmente o que lhe é oposto.

Somos uma população que só consegue advogar em causa própria, que vive tentando tirar vantagem em tudo, e que só estende a mão ao próximo se ele puder retribuir de alguma forma. Somos egoístas por natureza, e esse mundo de modernidades e facilidades nos tornou ainda mais individualistas. Potencializamos tudo que o ser humano pode ter de pior, não conseguimos respeitar o diferente, somos incapazes de exaltar nossas virtudes sem espinafrar os defeitos do outro. Para quem acha que estou falando impropérios absurdos, basta tornar-se um melhor observador de si mesmo e das pessoas ao redor. Reproduzimos a todo momento comportamentos que condenamos, sendo incoerentes e hipócritas.

Novamente, me vejo como um derrotado, como brasileiro e como ser humano. Sei que posso apanhar bastante por me posicionado desta forma, mas não consigo pensar diferente. Transferimos nossos sentimentos mais primitivos para questões que exigiriam o máximo de nossa parcimônia, e estragamos tudo. Sim, a culpa é minha, é tua, é nossa. Se não pecamos pelo erro, pecamos pela omissão. Perdemos o trem da história, tivemos toda chance do mundo para tornarmos nosso país um lugar melhor para se viver e jogamos isso no lixo. Só me resta adaptar uma frase do nosso triste passado para afirmar: “Brasil, não ame-o, deixe-o”.