Querida gente branca, precisamos falar do racismo que você finge não existir

Por Jhyenne Gomes

Dear White People- Netflix

Dear White People estreou na Netflix no dia 28 de abril e, ao contrário do que se esperava, pensando nos últimos lançamentos, não ocorreu o burburinho nas redes sociais que tanto estamos acostumados quando se trata de séries lançadas por essa plataforma.

Mas é claro que a recepção não seria diferente do que tem acontecido desde a produção dessa série. Os produtores encontraram no caminho o racismo que muitas vezes é velado, e em outras nem tanto, como no caso de pessoas que não conseguem conceber a ideia de pretos protagonizando uma série. Os produtores e a Netflix receberam centenas de comentários negativos, e alguns cancelaram sua assinatura para protestar contra a série. Essas pessoas foram contrárias a série que toca na ferida rosada do peito branco que ainda acredita que somos todos iguais.

Esse mito da democracia racial, que é a ideia de que no Brasil todos são iguais, sem distinção de raça, surgiu em 1933 no livro Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freye e ainda permeia na imaginação de muita gente. Não somos todos iguais, e enxergar as diferenças é o que essencial.

Cara gente branca, não existe igualdade racial e irei lhe mostrar os motivos:

A população negra, que é considerada como pretos e pardos, correspondem a 53% da população. E somos a linha de frente da raiva, do descaso e do abandono. Segundo o Cadernos de Saúde Pública de 2014 da Fiocruz, 65,9% de mulheres que sofrem com violência obstétrica são mulheres negras. Já o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil (Flacso, OPAS-OMS, ONU Mulheres, SPM/2015) os homicídios de negras aumentaram 54,2% enquanto o de mulheres brancas caiu em mais de 10%.

O Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de 2014 relata que 61,6% dos presos são negros. Os jovens negros também são os que mais morrem e aqui, como na série, o medo é presente na vida deles. O movimento Black Live Matters surgiu depois de relatos e constatação dos abusos de policiais que mataram jovens negros sem motivos. Aqui no Brasil, o racismo e a guerra às drogas, são alguns dos fatores responsáveis pelo grande índice de homicídio de jovens negros em todo o país. Segundo o Índice de vulnerabilidade juvenil à violência e desigualdade racial 2014, em MG para 26,1 jovens brancos assassinados existem 57,3 negros.

Dear White people é uma série americana mas o medo, os anseios e o racismo que a população negra sofre independente da região que é. Black face, colorismo, militância, força policial, racismo institucional e o tão aclamado racismo reverso são alguns dos pontos debatidos na série. Talvez seja por isso, que a série assusta tanto. É, não deve ser fácil ter que reconhecer que por vezes você é o problema e que o mundo continua tão racista como na época da escravidão. Cara gente branca, não existe igualdade quando os negros são subjugados por causa da sua cor.