Monster — Um experimento arrojado

De roteiro e direção de Hwang In-Ho, Monster é tão raro quanto é fora da curva. É um longa que gosta de experimentar muito. E deixa as formalidades de lado.E ele é um experimento divertido, mas incrivelmente confuso, de tropos de thriller de vingança e ao mesmo tempo comédia. Para audiências de mente aberta e aqueles com um gosto por excentricidade ousada, o filme tem muito a oferecer.

No enredo, temos duas famílias incompatíveis. Bok-Soon (Kim Go-eun), uma jovem mulher com deficiência mental que dirige uma barraca de rua vendendo legumes e cuida de sua irmã mais nova. Bok-Soon pode não ser a garota mais brilhante, mas o que lhe falta em inteligência, ela compensa em uma raiva incontrolável. Ela tem um fusível curto e regularmente entra em briga com as pessoas de forma cômica enquanto sua irmã, Eun-jeong (Kim Bo-Ra),é a inteligente e mais calma, aquela que estuda dia e noite e que na verdade é a responsável por Bok-soon. Do outro lado, temos Tae-soo (Lee Min-ki) um assassino cruel que inadvertidamente assassina a irmã de Bok-soon entre outros atos de barbárie. Ele obviamente é um psicopata e não sente remorso algum em acabar com as vidas das pessoas que aparecem em seu caminho. Seu irmão, Ik-Sang (Kim Roe-Ha), aproveita-se de Tae-soo para resolver seus problemas pendentes que exigem um tanto de violência sem se importar com as consequências.

Convém dizer, os personagens de Goe-un e Min-ki são discrepantes mas suas loucuras e suas condições são equiparáveis. Kim Go-eun entrega uma personagem com shifts tonais deliciosamente executados. Ela faz várias tentativas de exibir a sua gama de talentos e posição como uma atriz de qualidade, e ,apesar de ser apenas o seu segundo filme, ela atinge parte de seu potencial. Ela faz uma louca-valente mas que nem por isso é uma personagem esfarrapada e seu desempenho físico e maníaco que acompanha suas alterações de humor, assim como o cuidado na forma de comunicar o seu vocabulário, a sua linguagem, são excepcionais. Às vezes, ela quase corre o risco de passar dos limites e tornar-se uma caricatura mas mantém-se no controle. Min-ki faz também um serial killer avultado e chamativo. Com um ar gélido, misterioso e um sorriso que esconde muito o que está por trás de si. Para completar o pacote, tem tatuagens por todo o corpo. Ele, que trabalhou com o diretor em Spellbound, faz um ótimo trabalho ao interpretar Tae-soo. É o típico bad-boy de filmes coreanos que geralmente são destinados a idols, no entanto, ele faz um trabalho superior como um assassino marcante com uma profundidade respeitável. Em suma, Tae-soo é um monstro (daí o nome da película) e você simplesmente tem que detestá-lo ou no mínimo, sentir remorso por ele. Algo que o ator consegue expor na tela.

O longa é carregado com um humor exótico, que caracteriza o estilo de Hwang. O diretor quer se libertar de rótulos de gênero, e com este filme ele certamente conseguiu isso, afinal, o longa é uma síntese curiosa e ocasionalmente de cair o queixo de diferentes estilos. Saltando de gêneros de cena em cena, variando entre violência extrema e melodrama com comédia. As partes de comédia parecem ser resultado de um drama com canções animadas e dias com bastante sol mas na cena seguinte, o tom muda e alguém é golpeado até a morte com uma garrafa ou tem a garganta cortada. As partes de tensão são preciosas e no meio termo, há uma quantia tolerável de estranheza e contemplação que serve como break-point e é refrescante! E percebe-se que a cada momento, o diretor In-Ho constrói um suspense que funciona, para então adicionar uma quantidade extraordinária de ação ou comédia low-key para incrementar algum tipo de sabor estranho ao trabalho. Em relação à estória, tem-se em aplicação práticas comuns, mas existem alguns elementos, como “a heroína retardada” e a disparidade entre a cidade e o campo, que trazem algo fora do comum para o filme. E sem dúvida, as partes individuais funcionam devidamente. É cativante a estória em torno de Tae-soo e sua família e o contraste com a forma como a família de Bok-soon escolheu tratá-la. Sobretudo, como os opostos são esmiuçados ao espectador.

Sob a ótica técnica, os set-designs são bem detalhados no que diz respeito à forma e função, e há um extensivo cuidado para fazer alguns detalhes rutilarem. Seja o design da casa de campo de Tae-hoo, a roupa de granny de Bok-soon ou o restaurante logo no final, cada elemento é pesado adequadamente antes de fazer o seu caminho para a impressão final. O trabalho de câmera encapsula a imagem inteira em wide-shots com um ambiente sinistro ou às vezes com belíssimas paisagens, mas também com escolhas por ângulos invertidos em low-angle. A edição é realizada de forma constante, certificando-se de que cada seqüência seja relevante apesar de um ritmo que é insistentemente quebrado.

Na semana anterior, eu escrevi sobre como World of Kanako tinha traços de mudança mas Monster vai além no território e identificação de avant-garde. Como resultado final, tem-se possivelmente o filme mais inusitado que eu me deparei em tanto tempo. Algo intrigante que alterna bastante entre dois tons extremos de atmosfera e que consequentemente funciona.

Veja o trailer.

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