Signal: O passado,o presente e o primor dos dramas coreanos

Este é de longe o melhor drama que assisti desde o início de 2016, nada do que eu escrever aqui fará justiça à qualidade do mesmo, das atuações, dos plot-twists implementados em relação aos casos reais, de todos os prêmios que o elenco e a produção merecem. Este drama não é para os fracos de coração. É um drama violento, enérgico. Esta crítica está um pouco atrasada e sim, o texto terá um ou outro spoiler pois é inevitável …

É possível classificar Signal como um thriller de crime que empresta muito do noir. Por vezes brutal e sangrento, o drama, no entanto, continua a ser predominantemente uma estória de caráter e ideais. De como as “boas” figuras em particular devem encontrar o seu caminho através do pântano moral que é o mundo do crime e da polícia. Em que a linha tênue entre o bem e o mal, o certo e o errado, muitas vezes tem de ser cruzada, a fim de garantir um final desejado e a verdade exposta. E de alguma forma, eles devem fazê-lo sem perder tanto a sua humanidade e sua alma no processo, o que é algo difícil. Busca-se capturar as tragédias, casos esquecidos por motivos diversos desde os básicos: serial killers,corrupção, interesses políticos até assuntos mais complexos. Em outras palavras, é um drama para ser admirado e revisto. O próprio complicado(e artificial) enredo serve bem a um thriller noir, pois cada episódio carrega uma quantidade de emoção e camadas ocultas impressionante.

Sometimes things get bloody…

Ao mesmo tempo é um drama sobre viagem no tempo mas de uma maneira especial. O passado e o presente estão conectados por meio de um emblemático walkie-talkie, através do qual nossos personagens principais se comunicam uns com os outros. Nosso detetive, Lee Jae-Han (Cho Jin-Woong), a partir de 1986 faz contato com Park Hae-Young (Lee Je-Hoon), um profiler, que está em 2015 e juntos tentam solucionar cold-cases no futuro. E o profiler, por sua vez, ajuda o detetive a chegar à frente desses mesmos casos no passado assim que eles ocorrem. Claro que como em todas as estórias de viagem no tempo, o drama faz alusão ao paradoxo de como o passado afeta o presente e o efeito borboleta criado a partir das escolhas que os nossos personagens fazem, uma vez que o passado é alterado. Uma terceira personagem, a detetive Cha-Soo-Hyun(Kim Hye-Soo) que é a chefe de Hae-Young e foi colega de Lee Jae-Han é o ponto de intersecção entre ambos e ela também têm seu próprio arco no desenrolar do drama.

Time travel on a different matter…

Signal é resultado de uma parceria competente entre “o maestro”, o diretor Kim Won-seok, e a roteirista-chefe Kim Eun Hee “a especialista”, experiente com roteiros profundos e cheio de teias firmes, sem furos. Não há nada previsível neste drama, o enredo nunca se apresentou de forma direta e linear mas nem por isso lacunas são aparentes. O desenvolvimento de personagens é bem executado. São personagens que parecem reais, pessoas comuns com suas diferentes perspectivas. Há de se parabenizar os roteiristas por tecer uma estória tão complexa com tantas reviravoltas e momentos impactantes. Cada episódio termina em um ponto alto que deixa o espectador desesperado e ansioso para a próxima seqüência de eventos. É um exemplo de como fazer o uso correto do cliffhanger.

O elenco, através de seus respectivos personagens, faz um trabalho incrível de transmitir a culpa e agonia que eles estão enfrentando para o público, o que torna este drama muito envolvente. Cho Jin-Woong dá vida a um personagem que é intenso e que luta contra a maré. Sua atuação é algo próximo do impecável, do supra-sumo. Já a detetive vivida por Kim Hye-Soo é outro caso à parte, não é por menos que ela levou a estatueta de melhor atriz deste ano no Paeksang Awards. A trifecta é completada por Lee Je-Hoon que entrega uma excelente atuação como seus outros colegas. O espectador é facilmente sugado tanto pelo sofrimento emocional como pelas seqüências de ação intensas e os diálogos. O último citado,os diálogos, valem uma breve descrição. Ao escolher acontecimentos e crimes marcantes da história coreana (como os assassinatos de Hwaseong e outros) mesclá-los aos seus personagens, os roteiristas criam e revisitam casos criminais sob uma ótica atraente e desafiadora.O diálogo é como um doce para o cérebro: independentemente de concordar com o que os personagens estão dizendo ou fazendo, a eloquência e o ritmo são viciantes. Você está em posição de desfrutar de um acelerado, espirituoso e cativante drama criado por alguns dos “veteranos do diálogo”, operando com total liberdade artística que a tvN (muito à la HBO) continua a permitir a seus diretores e roteiristas.

De um ponto de vista técnico, cinematográfico, o drama mais uma vez destaca-se. Isto é percebido no cuidado em mudar o aspect ratio, utilizando o 2:35:1 nas cenas do passado, insistindo em tons como o sépia, magenta e verde e o contraponto com as cenas do presente que apresentam cores como azul e branco, além da volta para o aspecto ratio comumente utilizado em seriados de televisão, o 1:78:1 ou 1:80 aka 16:9. A direção é competente especialmente no que mais importa que são as cenas de ação (perseguição, lutas..). Muitas vezes os diretores tentam fazer muito além do que conseguem, o que torna cenas como essas difíceis de seguir, enjoativas e instáveis (a infame câmera tremida não intencional). Felizmente, não é aqui assim. Tais cenas são fluidas e bem enquadradas, tornando a ação agradável de acompanhar. A trilha sonora por sua vez apresenta-nos regravações de clássicos da música coreana desde as Pearl Girls até o godfather do rock coreano, eis aí uma experiência positiva para os seus ouvidos.

E o que falar do primeiro episódio de Signal ? Que praticamente deixou todos boquiabertos quando quebrando as regras do formato para seriados de televisão, apresentou-nos um episódio inaugural de 76 minutos em que nenhum destes pareceu desperdiçado…. ou, o fato de praticamente acelerar o ritmo e solucionar um dos principais casos já no mesmo episódio? Eu não me recordo da última vez que observei um seriado tão corajoso, sem medo de espalhar as informações e sem ficar na enrolação. O uso de objetos que carregam significados que ligam o passado e o presente como o já mencionado walkie-talkie ou a infame foto do Batman do George Clooney que além de servir como um alívio cômico guardam um segredo, uma mensagem oculta e ajudam a enriquecer a estória.

Se você passar do episódio quatro ou 13 sem sentir nada, Congrats leitor! Você é mais pedra do que eu. Signal me quebrou psicologicamente tantas vezes que aparecer para conversar com as pessoas no dia seguinte era algo complicado. Ele me fez tirar 5 minutos cada dia após a exibição dos episódios para aceitar aquela carga emocional e não quebrar a tv…e para aceitar que aquilo era ficção (…quer dizer tem um bocado de realidade ali também). Eu não lembro a ultima vez que eu “cocei tanto os meus olhos” ou me senti empolgado e desesperado ao mesmo tempo para acompanhar uma experiência cinematográfica de 60 minutos ou mais a cada semana.

What’s this? errrrr…tears

Eis aqui mais uma evidência de que a produção sul-coreana é tão boa quanto e por vezes melhor que a americana, tem mais significado, alma. Seja no cinema ou em seriados de televisão. Se me permitem: é a televisão coreana em seu primor estrutural e técnico. Tá esperando o quê? Vai conferir! 아싸!!


Considerações

  1. O Paeksang (Baeksang) Awards que é o equivalente ao emmy da televisão coreana coroou o drama e as atuações de alguns atores. É fato que não apenas o público considera este um dos melhores seriados já produzidos mas também os críticos e produtores do país também. Interessante ver como os lados estão em sintonia.
  2. A idéia do uso do walkie-talkie para comunicação e elo entre o passado e o presente lembra em muito o filme Frequency de 2000 mas as coincidências param aí. Na minha opinião, Signal > Frequency é inclusive mais original no emprego da ferramenta como elemento impulsionador do roteiro.

Signal está disponível para assistir no DramaFever com legendas em espanhol, inglês e português.

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