O Pior Conto do Ano

Estava frio, o relógio de parede fazia um barulho diferente a cada minuto como se estivesse se despedindo do tempo. Eu procuro meu malboro e tento acendê-lo. O sucesso vem através de algumas tentativas. Olho para o teto e me vejo esvair com a fumaça de cada trago. Já era quase meia noite e ela não havia ligado, ela sempre ligava depois das brigas, pedia desculpas, vinha me visitar e depois de algumas taças de vinho fazíamos amor na sala de estar. Entretanto, dessa vez, eu sabia que isso não ia acontecer, mas algo me prendia a esperar o telefone tocar. Decido ligar para ela, talvez pedir desculpas, mas eu não sabia o que dizer, o orgulho me intimidava. O tempo então morre lentamente, a cada hora um susurro de socorro, a cada minuto um suspiro aliviado. Levanto-me, então, decidido a ir até a casa dela, visto meu casaco, pego a chave do carro e saio. Era noite de ano novo e, ao ligar o rádio, ouço que faltavam alguns minutos para a virada de ano. A imagem dela do meu lado me beijando ao final da contagem regressiva me assombrava. Eu sempre dizia a ela que morreria sozinho, como todo ser do universo, e isso não me assustava, o que me assustava era viver sozinho, e isso me desfazia lentamente. Abruptamente, desço do carro e compro uma garrafa de vinho, subo a ponte gold staten a pé até o topo onde pode-se observar toda a cidade. A contagem de ano novo havia começado. Eu olhei para o horizonte e o barulho dos carros e das pessoas me davam náuseas. Quando os fogos começaram a encher o céu, eu percebi a serenidade do mar, a efemeridade da minha vida estava em meus olhos. Um dia ela me falou que ser feliz era como flutuar, eu só queria ser feliz mais uma vez.