
O que você está a disposto a passar para sair do Brasil?
Talvez você já tenha ouvido alguém falar sobre o poder das escolhas e das decisões em nossas vidas, as consequências positivas e negativas que elas podem ter, e a importância de agir com racionalidade nos momentos mais difíceis.
Eu confesso que nunca tinha parado para pensar nisso até o dia em que, sentando em um avião, olhando pela janela e vendo abaixo o país onde nasci e cresci ficando para trás. Enquanto olhava pela janela, senti um misto de medo e entusiasmo difícil de explicar, mas algo me dizia que a escolha de entrar naquele avião mudaria para sempre a minha vida.
O dia era 23 de Agosto de 2007, há exatos dez anos. Era a primeira vez que eu estava em rumo a outro país por escolha própria. Escolha essa que fiz para ampliar meus horizontes e dedicar um ano de minha vida ao voluntariado. Simples assim, viver uma experiência diferente por um ano e depois voltar para casa.
Demorou apenas um dia para eu me dar conta de que nada seria tão simples como eu imaginei.
Meu primeiro dia no Canadá foi marcado por encontros com pessoas novas, apresentações dos meus colegas e local de trabalho, e uma reunião para conversar sobre meus deveres e direitos como voluntário em uma escola interna localizada numa cidadezinha há cinquenta quilômetros de Victoria, British Columbia.
Foi um dia longo e cansativo que não me permitiu observar e sentir as particularidades daquele lugar. Me lembro de deitar bem cedo, por volta das oito horas da noite e só acordar às sete horas da manhã do dia seguinte.
Com as energias renovadas e sem ter o que fazer, pois era um dia folga para todos e meus colegas ainda estavam dormindo, fui a um trapiche que ficava em frente à escola e se estendia por aproximadamente trinta metros para dentro de um grande lago.

Me sentei no final do trapiche, coloquei os pés na água e fiquei observando a paisagem por longos minutos. Sempre gostei de natureza, de ir à praia, fazer trilhas, acampar, mas nenhuma experiência anterior se comparava àquele momento.
Havia algo diferente e muito intenso naquele lugar. Era um sentimento de paz interior e sintonia com aquele mundo à minha volta que eu estava vivenciando pela primeira vez em vinte e três anos. Naquele momento eu tomei a maior decisão da minha vida; adotar aquele país como meu novo e definitivo lar e fazer tudo o que fosse possível para alcançar esse objetivo.
Alguns amigos brasileiros falavam que eu estava deslumbrado com as novidades e que esse sentimento passaria tão breve quanto eu começasse a vivenciar outros aspectos do cotidiano canadense. É com prazer que lhes afirmo que depois de dez anos desse “deslumbre inicial”, ele continua forte e não demonstra sinal nenhum de enfraquecimento.
Meu ano de voluntariado passou muito rápido, mas foi marcado por algumas das melhores experiências da minha vida e me rendeu ótimas amizades que conservo até hoje.
Nem tudo sai como esperado

Naquela época eu já possuía mais de dois anos de experiência como Designer Gráfico e três anos como Editor de Vídeo, porém não havia terminado minha faculdade e isso me desqualificava para todas as vagas na área, que pediam pelo menos um “college degree”.
Voltar para o Brasil naquele momento estava fora de cogitação. Depois de apenas um ano em um país que possui todas as qualidades essenciais para proporcionar uma vida feliz aos seus habitantes, você naturalmente se apega a ele e retornar ao seu país de origem, que infelizmente está em um nível muito inferior, é uma experiência que você quer a todo custo evitar.
Para estender minha estadia no Canadá e tentar uma forma de imigrar, minha melhor opção era ingressar na indústria de hotelaria com a esperança de obter o apoio do hotel que me empregasse, para assim conseguir o visto permanente através de um programa provincial que beneficiava trabalhadores com mais de nove meses de trabalho em um cargo dentro de um hotel ou restaurante, e que recebessem uma garantia de trabalho por tempo indeterminado de seus empregadores.
Minha única experiência de trabalho no Canadá tinha sido o voluntariado, onde trabalhei na cozinha, na limpeza e na segurança noturna, aproximadamente quatro meses em cada área. Isso me qualificava para conseguir empregos que não tinham muitas barreiras de entrada, e foi nesse tipo de vagas que me concentrei por um mês.
Antes de começar a enviar currículos, procurei estudar o máximo possível sobre como aplicar para vagas de emprego no Canadá — um processo muito diferente do Brasil — até me sentir confiante o bastante para “bater na porta” das empresas.
Enviei exatos quarenta e nove currículos para hóteis em diferentes cidades de British Columbia. Apenas um me ligou e agendou uma entrevista. Era minha única e última chance de continuar no país, fracassar na entrevista simplesmente não era uma possibilidade, eu tinha que me sair bem, e muito.
Nos dias que antecederam a entrevista li absolutamente tudo que consegui encontrar sobre o hotel e me preparei para a entrevista estudando quais perguntas poderiam ser feitas e como eu deveria respondê-las. Não decorei minhas respostas, pois agir com naturalidade em entrevistas é mais do que essencial, porém eu estava preparado para responder qualquer tipo de pergunta de forma calma e confiante.
Alguns dias após a entrevista recebi a oferta de emprego e pude respirar tranquilo. Pelo menos dois anos a mais no Canadá — período de validade do visto de trabalho — estavam garantidos.
Minha função no hotel era “housekeeper”, uma espécie de auxiliar de limpeza, encarregado de limpar corredores, áreas públicas do hotel, e eventualmente quartos quando havia a necessidade.
Sempre fui muito organizado e o trabalho em si, apesar de ser pesado, não me incomodava muito. O maior desafio foi lidar com superiores que insistiam em dificultar minha experiência o máximo possível para ver qual seria o meu limite. Afinal, eles me ajudariam a conseguir o visto permanente caso eu demonstrasse interesse e capacidade de continuar fazendo o mesmo trabalho por pelo menos mais dois anos.
Trabalhei nesse hotel por quatorze longos meses e não recebi o tão esperado apoio para imigrar, o que deveria acontecer logo após eu completar nove meses no cargo. Foram promessas e mais promessas, e a ajuda nunca se concretizou.
Admitir a derrota não foi fácil, mas era chegado o momento de tomar outra importante decisão.
Mudança de planos

A decisão consistia em abrir mão de tudo que eu havia conquistado em dois anos e meio, retornar para o Brasil, retomar a faculdade, me formar, conseguir emprego e adquirir experiência na minha área com o objetivo de em três anos estar qualificado para entrar com um pedido de imigração através de um processo chamado “Federal Skilled Workers”, que recebia todo ano pedidos de imigração de pessoas que preenchiam requisitos como experiência, nível de inglês avançado e que tinham suas profissões listadas entre as profissões com maior demanda no país.
Foi o que fiz em Janeiro de 2010. Me despedi do Canadá com a certeza de que em um futuro próximo estaria de volta, e que me dedicaria ao máximo para transformar esse plano em realidade.
Tudo estava se encaminhando perfeitamente, eu havia preenchido todos os requisitos, traduzido toda a documentação necessária, obtido uma nota excelente no exame de inglês (IELTS) e estava esperando ansiosamente pelo dia 4 de Maio de 2013, no qual seria anunciada a nova lista de profissões em demanda e seria permitido o envio de novos pedidos de imigração.
Para minha surpresa, a profissão de “Marketing & Communications Specialist”, que estava na lista nos três anos anteriores, havia sido retirada da nova lista, ou seja, todo o meu esforço poderia ter sido em vão, pois não havia previsão alguma de quando, ou se, essa profissão seria incluída novamente na lista de profissões anunciada todo ano no mês de Maio.
Sobrou uma única opção…
Conversei com diversos consultores de imigração, do Brasil e do Canadá, li vários textos de pessoas ditas especialistas em imigração canadense, e quase todos falavam que conseguir um emprego na minha área, estando no Brasil, era simplesmente impossível. Um consultor de imigração bastante conhecido me disse que eu poderia até conseguir uma oferta de emprego, mas que isso seria como ganhar na loteria.
Por alguns dias fiquei incomodado ao ponto de não conseguir mais dormir, mas coloquei em mente que não seriam essas previsões negativas que me fariam sentir arrependimento por minha decisão de voltar ao Brasil ou desistir do meu sonho, e que eu provaria a essas pessoas que conseguir um emprego no Canadá estando no Brasil é perfeitamente possível.
Vale mencionar que venho de uma família de classe média-baixa, meus pais não tinham condições de me ajudar e meu salário não era o suficiente para optar pelo caminho de estudar no Canadá por dois anos para depois tentar imigrar, o que a maioria dos brasileiros tem feito nos últimos anos.
Na época não havia o atual sistema de imigração chamado “Express Entry”, que tem facilitado a vinda de profissionais experientes capazes de obter a pontuação mínima necessária para entrar com um pedido.
Sendo assim, minha única opção era conseguir uma oferta de emprego estando no Brasil, ou como haviam me dito, “ganhar na loteria”.
Foram sete meses de buscas diárias por emprego, incontáveis currículos enviados, diversos cursos online feitos para melhorar minhas qualificações, até que, na semana do meu aniversário de trinta anos, recebi a confirmação de que um dos diretores de uma empresa de tecnologia para educação, o qual havia me entrevistado alguns dias antes, queria não só me contratar, mas também me oferecer uma oferta de emprego permanente para eu poder entrar com um pedido de imigração através de um programa chamado “Provincial Nominee Program”, o mesmo que teria me permitido imigrar na época que trabalhei no hotel, mas em uma categoria diferente.
O sentimento de realização era indescretível. Eu havia contrariado a regra, provado que conseguir uma oferta de emprego estando no Brasil era possível, e ainda conquistado o apoio da empresa para conseguir imigrar. Era como ganhar a final do campeonato de goleada marcando todos os gols do jogo.
Comecei a trabalhar remotamente para essa empresa em Dezembro de 2013, que decidiu pacientemente esperar o tempo que fosse necessário para que eu pudesse ir ao Canadá. Reunimos e enviamos todos os papéis necessários para Vancouver e depois de exatas 14 semanas, recebi pelos correios a minha “Carta de Aceitação”, que me dava os parabéns por ter sido nomeado pela província de British Columbia para me tornar um residente permanente do Canadá.
Os passos seguintes foram aplicar para um visto de trabalho e após obtê-lo, entrar com o processo de imigração, agora em âmbito federal.
É importante mencionar que todo o processo, desde a parte provincial até a parte federal, foi feito de forma independente, sem ajuda nenhuma de consultores, baseado apenas no meu conhecimento sobre imigração obtido através de vários anos estudando as leis de imigração e acompanhando um site especializado chamado CanadaParaBrasileiros.com.
O retorno ao Canadá e o novo desafio

Em 11 de Julho de 2014 cheguei ao Canadá pela segunda vez, agora acompanhado da minha esposa, com um emprego na minha área e um processo de imigração em andamento.
Tudo estava indo muito bem até que em Janeiro de 2015, apenas seis meses depois, a empresa em que eu trabalhava anunciou para os funcionários que, devido a uma série de fatores, sendo o principal a falta de recursos financeiros, estaria fechando as portas dentro de um mês, e que deveríamos começar a procurar por outro emprego.
Para todos os funcionários essa notícia veio como um baque, mas para mim ela teve um peso muito maior, pois aquilo significava que nosso processo de imigração poderia ser cancelado devido à minha nomeação provincial estar vinculada àquele empregador.
Foi um momento desesperador, pois nosso futuro no país estava incerto, e não havia nenhuma referência online sobre como proceder em casos desse tipo.
Decidi então entrar em contato com a professional responsável pelo meu processo, contar o ocorrido e perguntar quais seriam nossas alternativas para ficar no Canadá.
A resposta dela?
“Lamento muito que isso tenha acontecido com você. Em casos assim permitimos que o aplicante tente conseguir um novo emprego e atualize o nome do empregador vinculado ao seu processo. Porém, você tem um prazo de quinze dias para conseguir o novo emprego, caso contrário seu processo de imigração será cancelado”.
Coloque-se no meu lugar e imagine como você se sentiria se tivesse que enfrentar uma situação dessas.
Não foi fácil compreender o porquê de um prazo tão curto, mas isso estava além do meu controle, e reagir com negatividade não resolveria nada. A única coisa que eu poderia fazer era aceitar o desafio, arregassar as mangas e partir para a batalha.
Felizmente nesse período haviam quatro vagas em aberto na cidade que eram compatíveis com minha experiência. Preparei meu currículo, caprichei ao máximo nos emails enviados para as empresas, e acreditei com todas as minhas forças que uma daquelas vagas seria minha.
Duas empresas não responderam, uma disse que estavam procurando uma pessoa com um perfil diferente do meu, e a última me chamou para uma entrevista. Essa, após uma série de três entrevistas, me deu uma oferta de emprego e concordou em ser a nova empresa vinculada ao nosso processo de imigração.
Ao colega que disse que conseguir um emprego seria como ganhar na loteria, é com grande alegria que lhe informo que não ganhei apenas uma vez, conseguindo uma oferta de emprego estando no Brasil, mas sim duas, pois conseguir um emprego em menos de quinze dias requer quase a mesma “sorte”.
Não me considero uma pessoa diferente das demais ou com uma sorte incomum, mas sim alguém que estava disposto a alcançar um objetivo e que em nenhum momento cogitou a possibilidade de que isso não seria possível. Se eu pude “ganhar na loteria”, qualquer outra pessoa também pode, basta utilizar a mesma “fórmula”, que consiste em um misto de determinação, foco, positividade e atitude.
Finalizando um ciclo

A última etapa do processo de imigração canadense é enviar seu passaporte para o orgão responsável para ter uma “Confirmação de Residência Permanente” emitida e anexada a ele. Recebemos o pedido de passaportes no dia 17 de Julho de 2015, e tínhamos nove meses para ir até uma porta de entrada do país (aeroportos internacionais ou fronteiras) para ter o visto permanente emitido e estampado no passaporte.
Como o dia 23 de Agosto era uma data especial para mim, por marcar a primeira vez que vim para o Canadá, decidi aguardar e ter o passaporte estampado com o visto permanente exatamente na mesma data, fechando assim um ciclo de exatos oito anos. Oito anos de altos e baixos, alegrias e decepções, decisões difíceis, estudo, planejamento e muita dedicação.
Hoje, 23 de Agosto de 2017, me encontro numa posição melhor do que quando obtivemos o visto permanente e isso é natural, pois o Canadá oferece muitas oportunidades e proporciona um ambiente de crescimento pessoal e profissional para quem tem motivação de correr atrás.
Atualmente trabalho em uma universidade pública canadense, levo uma vida confortável que nos permite adquirir bens e experiências que em nosso país de origem não teríamos condições, além de viajar para o Brasil uma vez por ano para visitar a família e matar a saudade.
Minha decisão de voltar ao Brasil em 2010 provou ser a melhor escolha que eu poderia ter feito, pois não somente me permitiu alcançar meu objetivo de imigrar para o Canadá, mas também me presenteou com a companheira mais sincera, honesta, humilde e bonita que eu poderia encontrar, minha parceira para toda a vida, que abdicou de viver próximo à mãe, irmã e parentes, em prol de um objetivo maior; o de começar nossa própria família em um país estável, seguro, justo, civilizado e acolhedor.
Viver em outro país não é fácil como muitas pessoas imaginam. Requer muitas renúncias, adaptações, e paciência para compreender as diferenças culturais, mas no final vale a pena. E muito.
E você?

A minha história agora você já conhece. E a sua, qual é?
Você também sonha em morar em outro país, mas te dizem que não será possível? Ou talvez o sonho parece tão distante e você não sabe nem por onde começar?
Lembre-se que minha jornada teve diversos momentos onde decisões importantes precisaram ser tomadas. Você está disposto a tomar as decisões necessárias para alcançar seus sonhos?
Compartilhe sua história nos comentários, adorarei saber o que te motiva a sair do Brasil e o que você pretende fazer para alcançar esse objetivo. Prometo responder a todos.
Te convido também a conhecer um projeto pessoal chamado “Imigrante de Sucesso”, no qual compartilharei todos os segredos que me permitiram chegar até aqui, e ajudarei todos os interessados desde como dar os primeiros passos para sair do Brasil, a como ser bem sucedido em um novo país. Clique aqui para acessar o site.
