
Costuras
Ela se comprazia inteira no falar depois que longos fios de lã passaram a sair sem sossego de sua boca. Em toda prosa, quanto mais dizia, mais linha regurgitava. Dias e noites de papear intenso e os novelos se desembolavam da garganta para o chão da sala.
Logo o marido tratou de dar serventia à conversa da mulher. Chamou Sá Cotinha, costureira antiga da cidade– todo um alumbramento com lãs nunca vistas. Na agulha de tricô descascada de tanto usos, testou o material: de primeira.
A mulher ria da produtividade de sua prosa e, sentadinha no banco de madeira da cozinha, desfiava causos do povo de ali mesmo enquanto as mãos de Sá Cotinha trabalhavam ligeiras para dar conta daquele converseiro.
Com pouco tempo, a mulher reparou que era mudar a altura da voz e a lã se cuspia de coloridos diferentes. Sá Cotinha tremeu. Aquilo tinha novidades que o mundo carecia conhecer. Mandou recado a uma amiga de um interior ainda mais empoeirado. Não demorou para que a casa virasse um entra-e-sai de tricoteiras de todos os cantos.
A mulher nem mais assunto tinha — tanta a conversa para fazer lã — , mas inventava falares estranhos e recuperava cantorias do tempo de sua avó que eram logo costuradas em numerosas roupinhas de bebê. Prestimosas, as filhas das bordadeiras preparavam os caixotinhos com as peças todas, no cuidado.
Sapatinhos de multicor, esses eram para exportar. E as comadres na altura da noite imaginavam os ares novos que as peças haveriam de respirar. A mulher arriscava nomes já quase esquecidos: europas, áfricas e chinas. E repetia que repetia, dando corda aos sonhos.
No falatório sem fim, ninguém percebeu quando o marido se ensimesmou, num abaixar de volume. Ia de um lado a outro em seu não-fazer e, de quando em vez, esbarrava seu ciúme na alegria daquelas tantas mulheres. O marido e sua voz sem produto, na fabriqueta de costuras.
Foi então que, numa manhãzinha, antes até do sol nascer, ele pegou a mulher no fogão, no preparo do café para as costureiras que estavam por chegar.
E disse, com a fita métrica na mão, subindo o tom: que dali em diante a prosa seria na medida do seu querer. Ele querendo, tinha conversa e tinha linha. Ele não querendo, a costura parava. Era isso ou rumaria para outras bandas.
Ao que a mulher respondeu — econômica, dessa vez:
_ Ocê pode ir.
E com o fiapinho das três palavras ainda arrematou um cachecol enquanto o marido desaparecia na estradinha de terra.