Invisível

Baseada em fatos muito reais.


O cabelo crespo cresce para cima em várias direções, e os olhos verdes parecem procurar um bom motivo para ir embora. Arthur é lindo, e os lábios grossos são umedecidos quando ele fecha seu livro e olha para a capa, interrompendo nosso contato visual.

Ele faz menção de dizer algo e eu procuro seus olhos, concentrados na capa do livro do curso de história. O curso havia sido escolhido dois anos antes, e não poderia combinar melhor com sua personalidade forte e espírito revolucionário, embora ele sempre tivesse atitudes tranquilas para aquele estilo de vida.

— A gente precisa conversar. Não adianta tentar fingir que nada aconteceu. – Falo, minha voz soando mais agressiva do que eu planejava. Minha família por parte de pai é de italianos, e, sendo criada por minhas tias enquanto meus pais trabalhavam, desenvolvi o péssimo hábito de ser incapaz de controlar o volume da minha voz.

Ele me encara, e são nesses curtos minutos antes do que veio a seguir, que eu percebi que estava irremediavelmente apaixonada por aqueles olhos.

— Eu sei. – Ele se levanta, seus 1.95 ficando bem aparentes. Não deixo de admira-lo outra vez, pois foi exatamente sua altura que me fez prestar atenção nele pela primeira vez.

Sempre fui indiscutivelmente alta em cima dos meus 1.80, e ele parecia ainda maior com o Black Power à postos. Tudo isso contribuiu para que eu me apegasse, mas foi o jeito que ele falava sobre nossas lutas que fizeram com que eu me encantasse por ele.

— Me desculpe – ele sussurra.

— Por que todos os caras com quem eu me envolvo acham que um “Me desculpe” irá fazer com que eu me esqueça das merdas que vocês fazem? – Solto, irritada. – E por que você tem que ser tão bonito? Que droga!

Ele ri, e eu fico ainda mais puta.

— Eu estou sendo engraçada?

— Você fica linda irritada desse jeito. – Ele me abraça – Olha, eu sou um idiota. Eu sei disso. Mas o que a gente tem é importante e eu não quero que acabe por que eu não sei olhar o relógio, Ju.

— Eu tenho um problema muito sério com caras atrasados.

— Dá para você parar de me comparar com os seus ex?

— No dia que você deixar de ser tão parecido com eles, claro, eu paro.

Seu maxilar treme e eu sei que ele está irritado. Quase me arrependo do que disse.

Quase.

Ele me solta, encarando um ponto aleatório atrás de mim.

— Tem certeza que você não está comigo só por que eu me pareço com eles?

Meu queixo cai, e estou indignada. Eu apenas não acredito que ele vai jogar a culpa para cima de mim. Cruzo os braços, plenamente puta.

— Você me largou plantada naquela fila por três horas, Arthur. E não apareceu, não me deu uma satisfação e não falou comigo por duas semanas! Vai para a porra do inferno!

Olho para ele, e, outra vez, encontro os olhos verdes. Suspiro. Por que eu estou insistindo tanto nisso? A energia que você devota a algo diz muito sobre o quanto você quer aquilo.

— Boa sorte daqui pra frente, Arthur.

Seus olhos estão desfocados e, embora ele me olhe, tenho a impressão que seus olhos vêem através de mim, como se eu fosse invisível.

— Certo.

— Certo.

Eu demoro um pouco para me afastar, porque apenas não quero fazer isso. Embora ele seja incrível, eu prometi a mim mesma que nunca mais iria passar por esse tipo de coisa outra vez. Queria interesse. Reciprocidade. Não queria outro cara completamente desinteressado nos meus sentimentos.

Mesmo assim, eu levanto minha cabeça e o beijo. É apenas um selinho, e eu me permito acariciar o rosto macio antes de me afastar, mas quando me preparo para ir embora, seus braços se prendem em minha cintura, suas mãos acariciam minhas costas e ele me beija de verdade.

Droga. O filho da puta beija bem.

— Desculpa, Ju. De verdade. Eu sou um bosta.

Ah. Essa frase. Eles sempre dizem isso.

— Não, você não é. – Sorrio, me afastando para não beijá-lo de novo. – Se cuida, xuxu.

Talvez eu tenha cometido um erro. Talvez tenha feito a coisa certa. Arthur ainda aparece nos meus sonhos de vez em quando, e isso não soa exatamente como algo saudável.

Mas meu coração ainda está inteiro, e isso é importante.

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