Vento & Ninho
Aquela gota que caía na minha coxa era a mesma que escorria dos olhos da minha mãe enquanto eu a deixava no aeroporto, conversando sobre os medos do meu futuro, o qual chegaria em 5 dias: Voltar a estaca zero de novo, criar uma nova vida em outro lugar. Construir do meu jeito, sem ter que ajustar os pilares antigos que me sustentariam. Afinal, eu estou no chão. Ainda não há nada para ser sustentado — valores, histórias que me entregam, frases que não aconteceram, imagem, julgamentos…- Não me conhecerão o suficiente pra me cobrarem promessas antigas que ninguém mais quer prometer.

O acompanhamento desse prato recheado de comidas nunca comidas é a distância. É o preço, que cada um paga da maneira mais íntima. Às vezes finjo que todos que estão longe de mim não existem, pois mesmo que existissem não fariam muita diferença. É uma morte em que as pessoas continuam na terra.
No meio daquelas lágrimas, eu senti que tem uma linha costurada no coração da minha mãe, que costura no meu, e o novelo dessa linha é infinito. Pode ficar invisível às vezes, mas aguenta dar a volta ao mundo.

Invisível ficou durante meu tempo em Londres: Era eu, meus poemas, e aquele cenário espetacular que fazia eu me sentir num filme misterioso de 1800. Foi lindo, intenso e longo, até ficar invisível, por falta de amor. Não havia nenhum lugar de onde viesse (falo do amor que pode ser sentido num gesto, de qualquer fonte), então amei a mim mesma como se eu fosse a única pessoa que existisse; porque era.

Sozinha eu me libertava do consenso que tem que se chegar fazendo as coisas à dois. Jantares exatamente ao meu gosto, filmes que outros não assistiriam e no meu horário, viagens seguindo somente a minha intuição, fazer exercício só com os meus limites, sem limitar os outros, conhecer pessoas novas e conseguir criar um laço em pouco tempo … exemplos de uma vida sem viver as limitações dos outros.
Porém, eu temo viver assim de novo.
Temo gritar e só eu me ouvir.
Temo cair nesse egocentrismo outra vez.
Temo só eu me amar, enquanto pode-se amar e ser amada em um mundo tão abundante. Temo que daqui a 5 dias eu comece a construir essa vida autosuficiente de novo, pois ela não existe de fato - É apenas uma ilusão utilizada como defesa, assim como fingir que as pessoas que estão longe demais não existem mais.
Nessa conversa minha mãe não ouviu tudo isso, mas dialoguei internamente durante nosso último abraço.
Esses 4 meses no Brasil depois de ter ficado 2 anos fora, os quais eu vi minha família (a do coração também) por menos de 25 dias, foram um lembrete da fortaleza que eu tenho aqui. Cada familiar, cada amiga, cada amigo, que quando me abraçavam eu só sentia um “seja bem-vinda” transbordando amor. Obrigada pelo ninho de amor.
Agora que meus olhos já enxergam demais, meus ventos me avisam que é para girar o leme do barco, e partir para a próxima aventura, que já está à espera.

“keep laughing, keep shining.”
Júlia
