Redondamente enganado

Durante a semana, o ministro da educação, diante da aprovação de uma lei que o desagradou, soltou a frase: “Não podemos voltar ao tempo da Inquisição, em que Galileu Galilei foi queimado porque achava que a Terra era redonda, e a ‘Fé’ não [achava].”

Deixando de lado a imprecisão histórica, nessa hora lembrei de três coisas:

1. Do livro de Jó que fala da redondeza da terra;
2. Das “Metamorfoses”, do poeta romano Ovídio, em que ele descreve a criação do mundo: “Depois que o Deus, o grão corpo dispôs, quis dividi-lo / E membros lhe ordenou. Para que a terra / Não fosse desigual em parte alguma, por todas a compôs na forma de ORBE. Ao mar então ordenou que se esparzisse…;
3. De Tomás de Aquino na sua Suma Teológica, escrita durante a idade média, falando “…deve-se dizer que a diversidade de razões no conhecer determina a diversidade das ciências. Tanto o astrônomo quanto o físico chegam à mesma conclusão: a terra é redonda. Mas o primeiro se utiliza de um raciocínio matemático, que prescinde da matéria; ao passo que o físico por um raciocínio que tem em conta a matéria.”;

O futuro é um lugar seguro onde o homem moderno busca refúgio contra seus antepassados. Somos lisonjeados o tempo todo com a ideia de que superamos toda a ignorância e pela primeira vez somos guiados pela razão.

Nada mais falso, mas a mentira pega. Isso porque o futuro é uma tela em branco, onde podemos escrever nosso nome do tamanho que quisermos. Enquanto isso, no passado, precisamos nos comparar com outros nomes que já estão escritos lá e nos sentimos humilhados, pois não temos tanta fé e tampouco somos mais espertos.

Diante do vexame nos resta a ação reconfortante de bater em um espantalho e dizer: “aqueles bobinhos, achavam que a terra era uma pizza de calabresa”.