São Jorge dos Revolucionários
(Originariamente aqui, 05/ 11/ 2010)

Hoje senti vontade de falar com Ogum. No início do ano passado, eu já havia escrito um post sobre sua dança. Agora sinto o Orixá de novo dançando. Desta vez na minha mente, desta vez no espaço-tempo, não mais um menino mirrado na praia de Copacabana, mas um soldado romano de capa vermelha, trajes rotos, mãos sujas de poeira e sangue. Mas o gládio brilha, reluzindo sob um sol imaginário, Jorge da Capadócia, cujo capacete também reluz, Jorge da Capadócia, dançando diante do dragão recém-vencido. Jorge dança, e o universo se torna expressão de sua dança, Jorge, que é Ogum, portanto o movimento, portanto…a dialética.
Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa, a poucos quarteirões de distância do escritório. Naquele burburinho da Praça Tiradentes, em meio a ônibus e comércio da Avenida Passos, em meio a garotas de programa da esquina (sim, mesmo à tarde já se pode encontrá-las), em meio ao calor do horário de verão, lá está a Igreja, e é lá que, quando sinto vontade, encontro Ogum. Antes, Santo Expedito. Expeditus, soldado-lenda, santo-mito (redundância?), indicando que o momento é hoje (hodie) e não amanhã (cras). A ave negra, o corvo demoníaco, repete “cras! cras!” em nossos ouvidos, mas o santo o mantém aprisionado, sob seus pés, dominado. O hoje venceu o amanhã. Não é preciso ser católico, ou mesmo religioso, para captar o que esse romano de lenda quer nos passar, nos ensinar. O ateu “praticante” (coisa ridícula, porque o ateísmo acaba funcionando ele próprio de crença), em sua aversão, em seu pensamento binário acaba por deixar escapar essas lições, porque têm um fundo religioso. Mas tire o fundo religioso e a lição se mantém! O maior dos ateus, não fosse binário, poderia aprender com Expedito. Poderia, quando visse a imagem de Expedito -como estou vendo neste momento, enorme no altar da Igreja- identificar no corvo pisoteado todas as aspirações, todos os sonhos que, por medo e preguiça, deixamos para amanhã. E poderia ouvir o “hodie!”, hoje, forte da boca do santo, convidando para a práxis já. Como ouço agora. Não existindo, Expedito nos ensina mais que muitos “gurus” reais.
Mas é de outro soldado romano que vim falar. Jorge da Capadócia está lá, bem o sei, no local reservado da Igreja, ladeado por São Benedito. E por São Jerônimo e São Lázaro, quero dizer, Xangô e Omulu. O mito -a lição que nos traz- tem vários nomes. Ao chamá-los conforme os chamariam nossos ancestrais negros (e reivindico a herança africana, em meu sangue, em minha alma) homenageio a todos que, pela dor e sofrimento, compuseram o País. Não sou patriota, já disse aqui, meu apego não é pelo país, mas pelas pessoas, pelo ser humano. Assim, a África -toda ela, do magreb ao Cabo da Boa Esperança- é tão minha pátria quanto o Brasil o é (até mais, quem pode dizer?) de modo que homenageando os antigos escravos homenageio meus próprios compatriotas. E que bons mitos são Xangô e Omulu. A justiça, a erudição, que associam, tanto quanto a figura do leão, o Orixá africano a São Jerônimo, o jurista tradutor da bíblia, a saúde, a harmonia física, ligando -através dos séculos e da distância geográfica- o mito de Lázaro e o de Omulu. Tudo se interliga, eu penso cá na minha. O “imaginário criador dos povos”, como diz Garaudy, é riquíssimo e gosta de recontar, de diversas formas pelo globo, a mesma história.
E agora estou aqui, contemplando a imagem de guerreiro, cavalo branco majestoso, lança de ferro goela adentro do dragão. A capa é vermelha: será coincidência? Porque vermelho é a cor da revolução, é a cor do movimento. O vermelho comunista adorna as costas de São Jorge, o dragão, talvez, analogia para o monstro capitalista. E me lembro, neste momento, da gravura da época da guerra civil russa, Trotsky caricaturado como São Jorge. Tudo se interliga, a voz interna torna a dizer…São Jorge Guerreiro, São Jorge Revolucionário: a lança é instrumento da luta de classes.
Esse é Ogum pra mim. Há que ser religioso, para adotá-lo assim na vida? O exemplo, a lição, o símbolo prescinde de crença. Já falei acima: muitas vezes o mito ensina melhor que professores “reais”. Roger Garaudy também diz nesse sentido. Para ele, Heitor de Tróia é uma figura mais presente que, digamos, Júlio César; pelo exemplo que aquele, mito, deixou, em comparação com este, gente de carne e osso.
Faz silêncio na Igreja. Saúdo Jorge, mas antes toco a capa vermelha, rogando em silêncio que a força que impulsiona, a força revolucionária, esteja sempre atuante. E tem que estar: cessando ela, cessa a vida.