06 Razões contra os Apócrifos

Motivado pelas excelentes traduções do Fábio Salgado, vou traduzir neste blog alguns textos em defesa da fé católica. O primeiro deles segue logo abaixo.


Santo Agostinho (esq.) e São Jerônimo

As bíblias protestantes têm 07 livros a menos que as versões católicas. Os católicos chamam esses livros de “deuterocanônicos” (literalmente, “livros que foram reconhecidos tardiamente”), enquanto os protestantes chamam esses livros de “apócrifos”, termo confuso porque é usado para se referir a livros rejeitados tanto por católicos como protestantes.

Então, por que os protestantes rejeitam 07 livros da bíblia católica? Matt Slick, do popular site protestante CARM (Christian Apologetics & Research Ministry), oferece várias razões:

  1. Os apócrifos não foram citados por Jesus. Jesus citou diretamente todo o cânon bíblico ao citar Abel e Zacarias como primeiro e último mártires do Antigo Testamento (Mateus 23,35). Ele também nunca cita diretamente algum apócrifo, mas faz referência a várias passagens do Antigo Testamento.

Esse argumento é muito fraco. Do jeito que o autor fala, parece até que Jesus citou cada livro do Antigo Testamento (a partir daqui usarei a sigla AT), quando não é verdade. Jesus não citou vários livros que fazem parte do AT, como Josué, Ester, Juízes, etc.

Mas então como essa fala de Jesus “comprova” o AT protestante? Aparentemente, o autor confunde o Zacarias de quem Jesus fala (Zacarias, filho de Baraquias — o mesmo autor do livro de Zacarias) com Zacarias, filho de Joiada (2 Crônicas 24,20–21). Na ordem dos livros do AT, Zacarias de Joiada foi o último profeta a ser morto, mas isso não significa que ele foi o último mártir daqueles tempos. Os livros do AT não estão em ordem cronológica.

Ao falar da morte de Zacarias, filho de Baraquias, Jesus está mencionando uma tradição extra-bíblica judaica (Comentário Targúmico sobre o Livro das Lamentações, 2:20).

Além do mais, o Antigo Testamento protestante não é o mesmo utilizado por Jesus e pelos judeus palestinos daquela época. Como diz Lee Martin Mcdonald, um pesquisador batista, “o cânon da bíblia judaica atual e dos protestantes reflete uma influência babilônica que não era popular em Israel na época de Jesus.”[1]

Para encerrar esse argumento, veja bem o que o autor diz na última frase: “Ele também nunca cita diretamente algum apócrifo, mas faz referência a várias passagens do Antigo Testamento.” Perceberam? Quando se trata dos apócrifos o critério é rígido, mas quando se trata dos livros aceitos por ele, basta “fazer referência”. Dois pesos, duas medidas.

2. Os apócrifos não foram escritos por profetas ou apóstolos.

Esse motivo não faz sentido, uma vez que vários livros aceitos pelos católicos e protestantes não foram escritos por profetas ou apóstolos (Reis, Crônicas, Hebreus, etc). Como se não bastasse, vários livros do Novo Testamento não identificam o autor, de forma que o autor só é conhecido por causa da….tradição da Igreja primitiva (Mateus, Marcos, etc).

3. Os apócrifos não afirmam ser a Palavra de Deus.

Ridículo. Nenhum livro do Novo Testamento afirma ser Palavra de Deus, e poucos do Antigo Testamento afirmam isso. Pelo critério do autor, devemos jogar quase toda a Bíblia fora.

4. Os apócrifos contêm ensinamentos não-bíblicos, como orações pelos mortos (2 Macabeus 12,45–46) e o incentivo à magia (Tobias 6,5–7).

Rejeitar partes da Bíblia porque você não concorda com elas é colocar-se acima da Bíblia. Quem te deu autoridade para isso? Além do mais, esses ensinos não são bíblicos porque….seus livros foram tirados da Bíblia!

É bom o autor dizer que as orações pelos mortos estão nos “apócrifos”. Significa que se ele estiver errado sobre os apócrifos, as orações pelos mortos são bíblicas e corretas.

Sobre a “mágica” de Tobias: você não pode chamar de “mágica” os milagres que não te agradam. Qual a diferença da “mágica” de Tobias (defumar miúdos de peixe) com os milagres do Novo Testamento (alimentar multidões, curar cegueira com saliva e lama, etc)?

5. Os apócrifos têm sérios erros históricos.

Outro padrão duplo. Vários relatos do AT são questionados por historiadores (como a Arca de Noé, as batalhas dos israelitas, etc). Ignorar essas críticas quando voltadas aos livros que te agradam, e acolhê-las quando voltadas aos livros que te desagradam não é algo muito justo a se fazer.

6. Os apócrifos nunca foram considerados parte da Bíblia. A Igreja Católica só adicionou esses livros em 1546, em resposta à Reforma.

Isso é pura mentira. No próprio site eles dizem:

É verdade que a Igreja Católica aceitou os livros apócrifos nos Concílios de Roma (382 dC), Hipona (393 dC), Cartago (397 dC) e Florença (1442). No entanto, estes não foram concílios ecumênicos, e os três primeiros foram fortemente influenciados por Agostinho, que não era um especialista em Bíblia, ao contrário de Jerônimo, que rejeitou os apócrifos. Além do mais, é duvidoso que as decisões destes concílios diziam respeito a toda a Igreja, uma vez que foram concílios locais. Algumas vezes esses concílios locais cometiam erros, sendo necessária a correção por um concílio ecumênico.

Como eles mesmos reconhecem, os deuterocanônicos foram considerados parte da Bíblia muito antes da Reforma Protestante e do Concílio de Trento (1546).

Sobre os concílios: o de Florença foi sim um concílio ecumênico (o 17°). Foi convocado pelo Papa Eugênio IV e contou com a presença de católicos, ortodoxos e coptas. O concílio produziu a Bula Cantate Domino, da união com os coptas, onde católicos, ortodoxos e coptas declaram sua fé nos 73 livros do cânon católico[2].

Finalmente, é um pouco hipócrita acusar os concílios de Hipona e Cartago de falta de expertise bíblico, quando eles são usados para provar a historicidade dos livros do Novo Testamento.

Como podem ver, cada argumento do autor contem erros, mentiras ou padrões duplos. Eu não selecionei trechos do texto dele, mas respondi todos os seus argumentos. Também não escolhi algum maluco da internet para refutar: o CARM atingiu quase 7,5 milhões de pessoas ano passado, com 23 mil visitantes por dia[3]. É vergonhoso que um site com esse alcance use de mentiras e erros para defender seus argumentos. E mais importante, espero que os irmãos protestantes vejam como é frágil a base dos 66 livros da sua bíblia.

O texto original é do interessante blog Shameless Popery.


[1] Lee Martin Mcdonald, The Biblical Canon: Its Origin, Transmission, and Authority, pgs. 223 (no final do capítulo The Scriptures of Jesus and Early Cristianity).

[2] Bula Cantate Domino (em latim) afirma: “ Unum atque eundem Deum veteris ac novi testamenti hoc est legis et prophetarum atque evangelii profitetur auctorem, quoniam eodem Spiritu sancto inspirante utriusque testamenti sancti locuti sunt, quorum libros suscipit et veneratur qui titulis sequentibus continentur. Quinque Moysi id est Genesi, Exodo, Levitico, Numeris, Deuteronomio; Iosue, Iudicum, Ruth, Quatuor Regum, Duobus Paralipomenon, Esdra, Neemia, Tobia, Iudith, Hester, Iob, Psalmis, David, Parabolis, Ecclesiaste, Canticis Canticorum, Sapientia, Ecclesiastico, Isaya, Ieremia, Baruch, Ezechiele, Daniele, Duodecim Prophetis Minoribus id est Osee, Iohele, Amos, Abdia, Iona, Michea, Naum, Abachuc, Sophonia, Ageo, Zacharia, Malachia; Duobus Machabeorum, Quatuor Evangeliis, Mathei, Marci, Luce, Iohannis; Quatuordecim Epistolis Pauli, Ad Romanos, Duabus ad Corinthios, ad Galatas, ad Ephesios, ad Philipenses, Duabus ad Thesalonicenses, ad Colocenses, Duabus ad Thimotheum, ad Titum, ad Philemonem, ad Hebreos; Petri Duabus; Tribus Iohannis; Una Iacobi Una Iude; Actibus Apostolorum, et Apocalipsi Iohannis.

[3] https://carm.org/why-support-carm