Divórcio: a Igreja Católica segue a Bíblia. As outras igrejas, não.

O Casamento do Czar Nicolau II com a Grã-Princesa Alexandra Fyodorovna (Ilya Repin, 1894)
3 Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?
4 Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez,
5 E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne?
6 Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.
7 Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?
8 Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.
9 Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.
Mateus 19:3–9 (ver também Mateus 5,31–32)

Muitas pessoas (e praticamente todas as igrejas protestantes) interpretam essa passagem como uma permissão do divórcio em caso de adultério. Pensam que esta é a fornicação de que fala Jesus.

A Igreja Católica interpreta o versículo do seguinte modo: o casamento válido é indissolúvel, ou seja, ele não pode ser desfeito enquanto os esposos estão vivos (Mt 19,6).

Caso adotemos a interpretação protestante, temos de solucionar vários problemas:

  1. A contradição bíblica. Jesus não abre exceções ao divórcio nos outros Evangelhos sinóticos (Mc 10,1–12; Lc 16,18). A permissão do divórcio também não existe em outra parte do Novo Testamento (1 Cor 7,10; Gal 1,12). Essa aparente contradição nos leva ao próximo problema.
  2. Desconfiar da Bíblia. Vários pesquisadores protestantes tentaram explicar essa contradição, esse “ensino isolado” que permite o divórcio, como um tipo de adição ao texto bíblico feita pelo escritor ou editor do Evangelho de Mateus. Para eles, era óbvio que Jesus e os primeiros cristãos proibiam o divórcio em qualquer caso. Ver os comentários do batista A.T. Robertson [1], da International Standard Bible Encyclopedia [2], do Greek New Testament Dictionary/Lexicon, dicionário padrão do Novo Testamento[3] e do Oxford Dictionary of the Christian Church [4]. O pesquisador protestante James Dunn chegou a dizer que Mateus adulterou a tradição recebida, adicionando a exceção ao divórcio[5]!
  3. Os especialistas protestantes. Todos os especialistas em Bíblia citados no item anterior interpretaram a questão do divórcio de maneira bem mais rígida, próxima da interpretação católica, que os protestantes atuais. Para eles, o divórcio não era permitido aos cristãos em nenhuma circunstância.
  4. Os apóstolos. Os apóstolos acharam o ensinamento de Jesus tão difícil que disseram no versículo seguinte: “se é assim, melhor não casar” (Mt 19,10). Se Jesus simplesmente repetiu a Lei de Moisés e permitiu o divórcio (a Lei de Moisés permitia o divórcio em caso de adultério), por que os apóstolos reclamaram depois de escutar algo a que já estavam acostumados (a Lei de Moisés)?
  5. O grego. Os evangelhos foram escritos em grego. A palavra grega para “fornicação” é porneia. Logo em seguida, quando Jesus fala de quem comete adultério, a palavra usada é moichatai, derivada de moicheia. Fornicação = porneia, adultério = moicheia[6]. Ou seja, Jesus diferencia adultério de fornicação. De fato, o significado de porneia é “união sexual ilícita” (o concubinato, sexo durante o namoro, etc), enquanto moicheia é sempre traduzida como adultério. A mesma diferenciação entre porneia e moicheia acontece em Marcos 7,21 e Gálatas 5,19.
  6. A Igreja Primitiva. Segundo o historiador protestante (e biógrafo de Lutero) Roland Bainton, em seu livro sobre os primeiros 05 séculos do Cristianismo, “o segundo casamento não era permitido, a menos que o primeiro parceiro morresse antes do batismo do cônjuge sobrevivente.” (Early Christianity, p. 56). Michael Gorman, em artigo para a revista Christianity Today (fundada por Billy Graham), escreveu:
O divórcio, com a possibilidade implícita do segundo casamento, não era uma opção aos casais cristãos, mas a separação permanente, sim. Casar depois da separação era considerado adultério ou bigamia. (“Divorce and Remarriage from Augustine to Zwingli”, 14/12/1992)

A única solução a esses problemas é a interpretação católica: um casamento válido só termina com a morte de um dos cônjuges. Portanto, o divórcio não é permitido (a separação sem novo casamento, sim), muito menos o casamento enquanto o primeiro cônjuge está vivo. Reconciliamos o Evangelho de Mateus com o resto da Bíblia e com a tradição dos primeiros cristãos; respeitamos o idioma original do Evangelho; e afastamos teorias conspiratórias de adulteração do texto bíblico.

Nenhum desses 06 problemas é tão grave quanto a banalização do divórcio. Ele deixou de ser uma permissão em casos de adultério para tornar-se a saída de qualquer crise conjugal. Este é um problema que afeta católicos e protestantes, infelizmente. Porém, a onda de divórcios entre católicos acontece apesar dos ensinamentos da Igreja Católica. Suportando ser chamada de “retrógrada”, a Igreja Católica não altera o ensinamento de Cristo para acomodar-se à triste moda do nosso tempo, pois a Igreja não pode se conformar a este mundo (Romanos 12,2).


Referências bibliográficas:

[1] A.T. ROBERTSON, Volume I, 155,47 — Robertson, Archibald T., Word Pictures in the New Testament, Nashville: Broadman Press, 1930, 6 volumes.

[2] ORR, Volume II, 866; Volume III, 1999 — Orr, James, editor, The International Standard Bible Encyclopedia, Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 5 volumes, 1956.

[3] KITTEL, 606, 920 — Kittel, Gerhard, Theological Dictionary of the New Testament, editado por Gerhard Kittel and Gerhard Friedrich, traduzido em um volume por Geoffrey W. Bromiley, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Co., 1985.

[4] CROSS, 889 — Cross, F. L. and E. A. Livingstone, editors, The Oxford Dictionary of the Christian Church, Oxford: Oxford University Press, 2nd edition, 1983.

[5] DUNN, 73–74, 247 — Dunn, James D. G., Unity and Diversity in the New Testament, London: SCM Press, 2nd edition, 1990.

[6] Evangelho em grego e inglês, consulta em 21/06/2017: http://biblehub.com/interlinear/matthew/19.htm


Texto adaptado do sempre bíblico (e católico) Dave Armstrong. Quem pensa que a Igreja Católica não é bíblica, deveria aprender inglês e devorar o blog do Dave. Este texto está no capítulo 14 do seu livro Está na Bíblia — 95 versículos que fundamentam a doutrina católica.

Todas as citações bíblicas são da versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel, exceto quando indicado.