O homem sem medo

Você não teme a morte. Pensa que isso te torna mais forte, mas o torna mais fraco. Como você poderá se mover mais rápido que o possível sem o instinto mais poderoso do espírito?

Há alguns anos pude conhecer um tipo peculiar da espécie humana. Naqueles dias tal tipo de homem era raro, um habitante exclusivo das grandes histórias de generais, príncipes e reis. Hoje parece ser fácil encontrá-lo na TV ou entre as pessoas “autênticas”. É o homem sem medo.

O homem sem medo não teme fracasso ou derrota, quedas e contratempos. Não teme nem mesmo a chuva nas férias de verão. Eu disse férias? O homem sem medo não precisa delas, pois seu dia comum já é uma grande história. Pra quê gastar os trocados numa viagem, feita quase sempre para se ter histórias, quando a sua vida já é uma candidata a lenda?

Disse-lhe que sonhava em ser como ele. Um destemido, olhos de águia, nervos de aço. Choraminguei ao homem sem medo minhas eternas lutas contra fraquezas de caráter, lutas estas que terminavam em trágicas derrotas ou, no melhor caso, vitórias de Pirro. Qual grande conselho aquele homem notável poderia me dar?

Vou te confessar uma coisa, Marcos. Queria ser como você.” Mal recuperando o fôlego, depois de engolir em seco algumas vezes, indago ao lendário espécime: “O senhor é muito educado. Não convém ter um querer tão descabido.” Então, o Aquiles do século XXI mostrou-me seu calcanhar.

Na verdade só tenho medo de uma coisa: de morrer na praia. Quando se é da seleta raça dos sem-medo, desfrutamos dos louros das muitas vitórias audaciosas, como deve saber. Mas enfrentamos um problema terrível, sem que nenhum de nós descobrisse uma solução. Como saber se toda a nossa coragem, a nossa audácia, a nossa garra, os esforços lendários que nos tornaram semideuses aos seus olhos, pobre homem comum, valeram a pena? Que adianta correr como uma lebre se estou no caminho errado? Teria sido melhor me arrastar como uma tartaruga pelo caminho certo.

Invejo-te, pobre homem comum, porque sabes teus fracassos, conheces tuas fraquezas. Sabendo disto, podes evitar as armadilhas preparadas para derrubá-lo nas tuas fraquezas. Ainda assim tropeças a todo momento, mas não és derrotado definitivamente porque nunca esperaste vencer sempre. Apenas enfrentas o desafio que se apresenta. Se tropeças, não demora a recuperação; é um punhado de coragem que vos é dado. Tu cresces em coragem, ainda que termines pequeno. Eu nasci e morrerei com a mesma dose de coragem, imensa e sem vida como um grande pedaço de rocha.

A falta de medo me arrasta às batalhas mais difíceis, batalhas duras demais para mim. Sem medo, eu luto todos os dias. Sem medo sou derrotado todos os dias. Estou correndo num labirinto quando devia caminhar pela estrada reta. Assim engano a mim mesmo, seguindo minha coragem de lutar uma batalha impossível para mim.

Enquanto eu não me arrependo de nada, por ser corajoso do jeito que sou, não consigo descobrir como sair do labirinto. Tudo o que fiz é memorável. Como um homem sem medo pode temer a si mesmo? Impossível. Só nos resta (aos homens sem medo) o orgulho de si e a certeza do caminho correto.

Tu, homem comum, não és pobre. Teu medo e tua fraqueza são tua riqueza. Eles fazem-no suplicar a ajuda dAquele que é mais forte do que eu, você e todos nós somados. Com a ajuda dEle, tu então lanças-te sobre o abismo. Apenas os olhos da fé são teu guia. Por reconhecer-te miserável te fazes forte, pois contas não mais contigo mesmo, mas com a força dAquele que te criou. É um pulo no vazio. Tudo ou nada. E você alcança o outro lado justamente porque não confiou na sua força, que é fraqueza, mas na força dAquele que jurou cuidar dos humildes.

Tu és homem de sorte. Reze para que o medo de falhar, de morrer sem saber o que é amar, me encontre. Então eu encontrarei Aquele que não tem medo, não de ‘vencer’, mas de amar.”