A Mulher Sentada ao Pé da Cama

Como criança nos anos dois mil eu vivi a transição entre o mundo físico dos anos 80 e o mundo híbrido de real com digital no qual vivemos hoje. Já havia a internet; a bem da verdade, já havia até os vídeos vetoriais feitos em Flash, como as charges do Maurício Ricardo e o clipe animado da música do mamute pequenino. A internet era descentralizada e caótica como a geopolítica sulamericana pré-cabralina, e nós gostávamos de entrar naquele mundo, mas não vivíamos nele. Quando era menino, o meu lugar preferido lá de casa era o escritório, onde tinha o computador. De vez em quando, em segredo, eu lia causos de fantasma.

Minha família nunca foi muito religiosa. A da minha mãe, sim, e ela não quis repetir com a gente a criação severa que teve. O meu pai passou a juventude como evangélico devoto, mas já não fazia parte de nenhuma igreja ou de algum grupo de oração. Mesmo assim, mantinha uma visão sobrenatural dualista, vendo por trás do mundo duas forças antagônicas de bem e de mal, e era desconfiado de tudo que parecesse ter relação demais com o diabo ou com as assombrações. Por isso que para ver os sites de terror eu era sorrateiro e temeroso; me sentia como se estivesse abrindo alguma caixa de Pandora.

Não que fosse necessário ir tão longe para povoar minha imaginação com fantasmas. A casa onde morávamos — que não era nossa, tínhamos o velhinho seu Abel de senhorio — era maior do que o bastante para a família, e tinha nela algo de misterioso e de esquisito. De vez em quando a máquina de lavar ligava sozinha. Fósforos apareciam queimados lá no fundo, muitos organizados em padrões geométricos, sem que ninguém da casa assumisse a responsabilidade (embora depois tenhamos descoberto que era arte da minha irmã). E, como a casa era grande, o bairro era popular e a cidade era violenta, havia o medo maior e mais realista de olhar pra fora e ver alguém pulando o muro. Mas uma história de fantasma acabou se destacando.

Eu e minha irmã dividíamos um quarto. Ela tinha muito medo do escuro, eu também tinha um pouco; na companhia um do outro, ficávamos tranquilos. Até que a minha irmã começou a reclamar muito do quarto e insistir que dormiria só no quarto dos meus pais ou então na sala. “Tem coisa lá!”, ela dizia.

Acreditando que era só medo de criança, e que em pouco tempo ia passar, cedemos. Minha irmã dormia no quarto dos meus pais, ou ficávamos os dois na sala assistindo ao Disney Channel até mais tarde. Mas fazíamos isso com os colchões mais fininhos que tínhamos guardados para eventuais visitas, e dormir neles todo dia dava dor nas costas. Então, por minha insistência, convencemos minha irmã a dar nova chance ao quarto. Ela aceitou descontente, e na manhã seguinte já batia o pé na mesma tecla: tem coisa lá.

“Mas o que é que tem no quarto?”, disse a minha mãe.

“Uma mulher sentada no pé da minha cama.”

“Como assim?”

“É uma mulher sentada no pé da minha cama. Ela é de sombra, não dá pra ver direito, só fica mais escuro no contorno. Ela fica lá a noite inteira, sentada no pé da cama.”

De súbito a minha mãe pareceu muito intrigada, como se tivesse caído alguma ficha, mas não disse nada. Naquela tarde ela ligou pro seu Abel, o velhinho que era o dono lá de casa. Eventualmente, contou pra gente: tinha lembrado de uma história que ouvira na rua, de que a esposa do seu Abel tinha morrido e que era por isso que ele acabou resolvendo mudar de lá. Ela era paraplégica, e passou os seus últimos dias naquele quarto que a gente dividia. A mulher sentada ao pé da cama.

A sorte nossa era que tinha na rua uma mulher chamada Vera, nossa cabeleireira e amiga nossa, muito boa com crianças e especialista de fantasmas. Numa tarde em que nem eu e nem a minha irmã estávamos em casa, minha mãe pediu para a Vera que ela conversasse com o espírito da mulher do seu Abel. Ela foi, disse para a mulher que ela tinha morrido, que o marido dela já não morava mais na casa, e que ela podia ir em paz seguindo a luz. Se essas coisas são verdade, eu não sei. Mas minha irmã nunca mais viu a mulher sentada ao pé da cama, e a máquina de lavar roupa nunca mais ligou sozinha.