IX FESTA DA MANDIOCA DE ILHA SOLTEIRA

joão marcos
Sep 9, 2018 · 3 min read

Já faz um tempo que eu não vou para as festas da faculdade; em parte porque eu tenho um joelho estragado do qual eu não cuido direito, aí doi ficar tanto de pé, mas também porque é muita muvuca, as músicas são feias, e eu me sinto estrangeiro com meus jeans e camiseta ao redor do pessoal que vai mais parecido, vestindo abadás de micareta e cuecas samba canção, beijando uns aos outros com os rostos sujos de tinta e glitter. Eu faço então piadas sobre festas que tem mais a minha cara: a festa da democracia (que esse ano promete pegar fogo) e a Festa da Mandioca, que por aqui está em sua IX edição e inaugurando um prato novo, o caribó, que é um pastelzinho aberto com purê de mandioca, queijo e carne dentro.

A festa de mandioca também tem fila e muvuca, mas é porque a comida é boa e tem que trocar o dinheiro por fichas antes de ir comprar nas tendas. Como sempre cai no sete de Setembro, os universitários vão quase todos embora, e aí fica bonito ver as famílias mais à vontade. Há pré adolescentes emburrados comendo bolinhas de mandioca com queijo numa mesa junto aos pais, mães preocupadas porque os filhos estão correndo para o meio das pessoas, estandes de vendedores de artesanato e vários casais. Os casais de longa data andam com um propósito empresarial pela festa, traçando os caminhos mais eficientes para os seus pratos preferidos. Os mais novos trocam olhares de brincadeira e tentam provar tudo: o escondidinho de carne seca, as mini pizzas de mandioca, e, se estiverem a fim de encarar a fila mais brava da quermesse, um par de pães com linguiça.

O que eu acho mais bonito é ver os velhinhos bem vestidos, com camisas e coletes, esperando pra tocar na Orquestra Caipira. Todos sabemos que pra quase todo velho a vida fica bem sozinha, e que eles vão juntando excentricidades, algumas amarguras, que às vezes chegam a fazer inimizade com as crianças mais arteiras. De forma que é gostoso vê-los num momento com os amigos, de novo debaixo das luzes do palco, tocando viola e parecendo bem contentes.

A verdade é que às vezes eu me sinto como os velhos: lendo meus livros, jogando meus joguinhos do Japão, recusando convites para curtir a vida em festas com bar aberto. E é bem verdade que a vida mais sozinha deixa a gente mais amargo, mais assustado e receoso com os outros. Então também me ajuda esse ambiente mais família, com mesas para sentar, e cada um vestido de um jeito, e com as tendas perto vendendo por cinco reais o melhor pão com linguiça que eu já comi: vinagrete e o contraste entre o fibroso da linguiça e a textura tenra de um purê de, você já deve ter adivinhado, mandioca.

joão marcos

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