Eu vinha caminhando pela Rua Novembro

Eu vinha caminhando pela Rua Novembro, bem quando notei no relógio que estava atrasada. Cinco minutos, dez. Comecei a correr, dou uma mordida no pão com mortadela, corro e mexo no relógio na mão, ahhh!!! Poderia gritar aqui no meio e ninguém se quer olharia, minha mãe me disse uma vez que essa hora da manhã em cidade grande as pessoas só pensam que tem que chegar lá, deve ser um lugar bom, deve ser onde há paz, um sentimento que nos torna calmos imediatamente e então sabemos que temos tudo para ser alegres, que temos tudo para sorrir, que não há pressa, não precisa se apressar. Estou parada, com o pão na minha mão, olho ao redor, estão todos lá mas me sinto congelada ali, estou intrigada com o mundo, estou tentando entendê-lo, quero que o mundo me veja, porque sou rebelde o suficiente para dizer mil vezes não a realidade, que choro sim, tem lágrimas nos meus olhos agora, a humanidade e sua bondade, vocês se lembram das coisas boas que fizemos? Há todo esse desastre, toda essa lama nos escondendo, onde está a arte? Eu queria saber, eu queria saber. Porque tudo que eu vejo é lama e a nossa tristeza, isso ia acontecer uma hora ou outra, não iria? Alguém não disse antes? Por que deixamos isso acontecer? Estamos ocupados demais fazendo o quê? No que estamos prestando atenção? Ahhh eu estou prestando atenção no relógio. O relógio que é tudo, o tempo que não pode ser gasto com bobagens, não há poesia aqui. Que ninguém escreva uma poesia para encobrir essa lama, para que esqueçam o que significa de verdade, eu digo baixinho, eu olho para o chão: “que horror! que horror! que horror!” Onde nós estávamos? Onde nós estamos? O ser humano, o ser humano exige atenção e cuidado. Não nos escondemos em bueiros e fechemos com a tampa para não olhar para o lado, para não termos que nos importar e fazer alguma coisa. Estamos todos perdidos, estamos todos chorando. Não sei o que dizer! Não sei o que dizer! Mil vezes não sei o que dizer! Uma vez uma escritora que gosto muito disse assim “eu quereria que o nosso povo fosse mais exigente” Olhe bem, nós somos muito inteligentes nós dizemos não a adolescentes atrás de grades e agora que é o maior desastre ambiental do país, que havia estórias lá, corações pulsando, uma fotografia, uma rua, uma calçada, uma casinha que foi construída, nós dizemos que foi um crime, sim. As crianças tem que receber educação, isso tem que acontecer antes que a coisa ruim esteja feita. Agora também, agora também, deveria termos cuidado antes. O que fazíamos antes? O que fazemos agora? Quantos minutos estamos atrasados? Ninguém poderia prever, não é? Olho para esquina, vejo que estou perto, e volto a caminhar, o meu cabelo balança. O mundo se acha tão mais esperto, o mundo debocha de meus sonhos infantis, imaginados, com cheiro de confeito de bolo ou vatapá. Vatapá sim, qual o problema? Eu sou formada em certas páginas do pequeno príncipe em Falar Com Adultos, veja se tive um bom professor: se você chega atrasado no seu trabalho, você ouve reclamações do seu chefe, se fizer isso muitas vezes será demitido! Rua! Rua! Rua! Então você pode fazer duas coisas: xingar todo mundo do seu trabalho e seu chefe, depois de sair de lá, claro!!! Ou abrir os braços e andar pela rua dançando, livre por um momento porque depois vai ser horrível, provavelmente um grande problema. Mas não sejamos tão insensíveis, por uma vez ouçamos nossa alma e nosso coração, seja uma criança. Se nos atrasamos para encontrar um amigo quantidade suficiente para ele ficar magoado, para que a necessidade chegue primeiro e depois o policial e o golpe do politico, para que a lama chegue primeiro, estamos bem com isso? Podemos viver, respirar, dançar, sorrir? O mundo, a realidade, o pessimismo, a esperteza, querem nos engolir. “Acorde para a realidade, você não conhece o mundo e a maldade que existe nele, e você não pode muda-lo.” Há tanta beleza no mundo, olhe, olhe, olhe! “Eu não vejo isso. Você é infantil.” Pois o problema não sou eu, o problema é você, olhe melhor! Lave os olhos e olhe de novo! Eu sei que palavras não são atitudes, meu Deus, como eu queria que fossem! Podemos sonhar um mundo e então haverá tanto trabalho para o construir diante de nossos olhos. Uma responsabilidade enorme. Por favor não chegue atrasado, não vamos chegar atrasados, não vamos deixar alguém se magoar com a gente, se machucar, se perder. E assim o sentimento de perda de tempo, de uma hora, de um dia, de um ano, de um século, de uma vida. Não posso chegar atrasada! Não posso chegar atrasada! É tudo que consigo pensar.