Masters of Sex e o ser sexual

O ser humano desde seus primórdios busca respostas para todos seus questionamentos, dos mais básicos aos mais complexos. Com o passar dos séculos a resposta de que um raio cai do céu como manifestação da ira de um deus veio ao chão. A ciência virou o deus do homem moderno e através dela fomos buscar todas as respostas possíveis e imagináveis. E já que a ciência está respondendo a todas essas perguntas, por que não perguntar sobre sexo?

Essa é a premissa básica do seriado da emissora Showtime, Masters of Sex. William Masters (Michel Sheen), um respeitado ginecologista da Universidade de Washington quer começar seu estudo sobre as respostas corporais durante o ato sexual. Para lhe auxiliar no estudo Bill (redução de William) contrata uma secretária, Virginia (Lizzy Caplan) entra de cabeça no projeto, mostrando interesse, disposição e o traquejo social que faltava ao doutor. Um homem e uma mulher estudando sexo, vendo pessoas se tocarem e tendo relações em sua frente, o palco está montado.

“As pessoas acham que sexo e amor são a mesma coisa, não são. Pode-se transar sem amor”. Hoje, muitos ainda veem como tabu falar sobre sexo em muitas rodas sociais, quem dirá colocar fios e aparelhos no casal durante sua intimidade, inconcebível! Se atualmente muitos ainda pensam assim, durante as décadas de 1950 e 1960, período em que a série se passa, isso era visto como um desvio de caráter, uma pouca vergonha descabida e perversão. Não estou falando sobre uma “base social de mente fechada”, a própria sociedade médica acaba por taxar o estudo como pornografia. A conversa sobre sexo acontece, assim como acontece hoje, amigos na mesa de bar, mulheres reunidas, no entanto estudar o sexo estava fora de cogitação. Exceto para dois visionários.

“Bill e Libby Masters”

“Minha prática é cheia de mulheres mutiladas, desapontadas, confusas e torturadas pelo sexo. Elas querem ajuda!” Se coloque no contexto de uma sociedade machista e patriarcal…ainda mais machista e patriarcal que hoje. A mulher ter um orgasmo não é relevante, ainda não existe o anticoncepcional, os preventivos são muito mais falhos; no entanto quem comanda a sociedade pouco se importa, afinal de contas a mulher é uma “parideira”. E quando essa sociedade é confrontada por um médico, um renomado ainda por cima, dizendo numa relação o orgasmo é direito de ambos, que o corpo da mulher é dela mesma para se conhecer e atingir o prazer, isso é escandaloso demais.

Em contraponto, o tão visionário doutor restringe sua visão ao seu escritório e pesquisa, em casa sua realidade não é diferente em nada de todos os outros casais comuns. Uma esposa que está ali apenas para gerar um filho e cuidar da casa. Que se sente extremamente falha, um fracasso por não conseguir conceber, pois entrou no papel a ela imposto de progenitora e acha que deve um filho ao marido. Ao passo que ele acha que deve engravidá-la, pois o “sonho” de toda garota é ser mãe. De forma que ele se culpa por ter ajudado centenas de mulheres a engravidar e não conseguir realizar o tal sonho feminino para sua própria esposa. Não há dialogo, duas partes sofrendo por um suposto dever que nenhum dos dois realmente quer.

Outro ponto contrastante é o doutor lutar tanto pelo estudo do sexo enquanto ele vê a esposa apenas como uma conveniência, já que todo homem de respeito deve ser casado. Dormindo em camas separadas, tendo contato físico apenas quando o corpo da esposa está em seu momento mais fértil. Sua amante é o trabalho, a quem ele se dedica integralmente. Quando sua libido finalmente vem à tona, é destinado para Virginia, sua assistente bem resolvida com seu corpo e sexo.

“Estar com ela é mágico”

“Estar com ela é mágico, é diferente de qualquer outra mulher. Ela não tem vergonha do sexo. Ela conhece seu corpo, sabe o que lhe dá prazer.” A mulher solteira com dois filhos já não é vista com bons olhos, essa mesma mulher que se empodera de seu corpo e sexo é vista com repudio, taxada de prostituta tanto por homens quanto por mulheres. Ao mesmo tempo que os homens queriam estar com uma mulher como estas e as mulheres gostariam de ser tão bem resolvidas e se dar ao prazer do sexo. Mas se limitam por causa do socialmente aceito.

Mas ela não se contenta em apenas ser resolvida com seu corpo. Quando Virginia deixa de lado um envolvimento amoroso em detrimento de sua ambição de crescer no trabalho, seguir com o estudo a quem está se focando, conseguir seu diploma na universidade e provar que pode ser mais do que o esperado para uma mulher no padrão daquela sociedade.

Mas não só de machismo e feminismo se constrói a série. Avançando um pouco os episódios, vemos os primeiros personagens homossexuais. Vamos novamente fazer um exercício de adaptação temporal, ser homossexual na época era quase crime, uma abominação que era “corrigida” através de remédios, tratamentos de choque e até a castração química. Mesmo sabendo de todas essas práticas, foi involuntário o nojo e repulsa que senti ao ver um dos personagens se submeter a tais tratamentos. Se denegrindo, castrando uma parte de si e podendo perder sua consciência e sanidade apenas para pudesse continuar exercendo a profissão que amava e não “destruir” sua família.

Masters of Sex foi com certeza uma das melhores séries que já assisti, traz um assunto tão básico primal e, no entanto, ainda tão cheio de ressalvas; 50 anos se passaram, muito se evoluiu na ciência e tecnologia, no entanto a mentalidade de uma grande maioria se mantêm a mesma após todos esses anos. A mulher que empodera de seu corpo e aproveita o sexo ainda é taxada de puta, por certas pessoas o homossexual ainda é uma aberração que deve ser tratada como doença. Homem e mulher ainda se prendem ao conceito patriarcal de provedor e cuidadora. No entanto avançamos e a luta continua.