A ditadura não será televisionada

3 aspectos sobre a Guiné Equatorial que o desfile da Beija-Flor não mostrou na Sapucaí

Foto: Tata Barreto/ Riotur

Dez milhões de reais. Essa é o valor do patrocínio recorde oferecido à escola de samba Beija-Flor de Nilópolis pelo governo de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, chefe de Estado mais longevo do continente africano que, há 35 anos, comanda um dos governos mais repressivos e corruptos do mundo. O enredo: "Um griô (homem sábio) conta a História: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade". Abaixo, três aspectos sobre o país retratado pelo enredo (ora campeão) da Beija-Flor que não apareceram na Sapucaí:

1º PIB per capita na África; 144º Índice de Desenvolvimento Humano

A descoberta de significativas reservas de petróleo em meados da década de 1990 proporcionou intenso crescimento econômico na Guiné Equatorial. De fato, com menos de dois milhões de habitantes, o país possui renda per capita (em paridade de poder de compra) de quase US$ 26 mil, o maior do continente africano, além de 58º do mundo, superior à renda de países como Grécia e Portugal e mais do que o dobro do Brasil (de pouco mais de US$ 12 mil, o 105º do mundo).

A extraordinária renda provinda da exploração petrolífera, no entanto, não é partilhada de forma a proporcionar melhores condições de vida à população equato-guineense. Segundo informações das Nações Unidas, a taxa de mortalidade infantil atinge 96‰ das crianças até cinco anos de idade (17ª pior do mundo), mais de metade da população não possui acesso à água e a expectativa de vida no país não chega a 53 anos (dados de 2012). A Guiné Equatorial aparece na 144ª colocação (de 187 países) no Índice de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); o Brasil possui o 79º IDH.

Yo no hablo portugués: Guiné Equatorial como membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa

A Guiné Equatorial é o único país do continente africano que tem como língua oficial o castelhano. A despeito disso, o país é o mais novo membro pleno da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ingresso ratificado durante a última conferência do bloco, realizada em Dili, no Timor Leste.

O ingresso da Guiné Equatorial na CPLP foi, por anos, objeto de controvérsia entre os países fundadores do bloco. Portugal e Moçambique condicionaram a entrada do novo membro ao fim da pena de morte no país. O governo equato-guineense chegou, efetivamente, a suspender a aplicação da pena capital por meio de resolução presidencial. No entanto, poucos dias antes da entrada em vigor da moratória, no começo de 2014, ao menos quatro presos foram executados clandestinamente. Não se pode confiar plenamente na palavra de ditaduras.

Brasil e Angola foram os principais apoiadores do ingresso pleno da Guiné Equatorial à CPLP, suporte que quase levou o bloco ao colapso. Organizações da sociedade civil criticaram a ausência de iniciativas da CPLP para verificar as condições do país em matéria de direitos humanos antes de seu ingresso ao bloco. Segundo Tutu Alicante, diretor da ONG EG Justice:

“É lamentável que a Comunidade permita tacitamente a si mesma ser usada para limpar a imagem do mais antigo chefe de estado do mundo. A CPLP deveria ter enviado uma delegação a Guiné Equatorial para ouvir a sociedade civil, a oposição e as autoridades. Deveria ter se engajado em conversas sérias com o governo para descobrir sua real natureza. Ao contrário, escolheu ignorar o chamado de organizações de direitos humanos e, também, as advertências do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial sobre a corrupção, a opacidade, a pobreza e a desigualdade no país. Isso diz muito sobre o déficit de liderança responsável na CPLP.”

Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento: Obiang e a política de limpeza de imagem da Guiné Equatorial no exterior

O ingresso da Guiné Equatorial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é apenas um exemplo de um dos primados recentes da política externa equato-guineense: uma diplomacia de melhora da imagem do país no exterior, à despeito da manutenção da precária governança no plano interno. Os exemplos são abundantes.

A UNESCO, por exemplo, estabeleceu o Prêmio Internacional para Pesquisa em Ciências da Vida UNESCO/Guiné Equatorial após doação de US$ 3 milhões por Obiang. O Prêmio Obiang tem sido, desde então, objeto de repúdio internacional, inclusive pelo risco à credibilidade da UNESCO.

Em 2012, a Guiné Equatorial co-sediou (junto com Gabão) a Copa Africana de Nações (CAN), principal torneio de futebol do continente. O evento envolveu a construção do Estádio de Bata, com capacidade para quase 36 mil torcedores, um dos mais modernos da África, visto como exemplo do desenvolvimento do país. Após a desistência do Marrocos, fundada no risco de epidemia do Ebola, a Guiné Equatorial aceitou sediar a edição de 2015 da CAN, realizada entre os dias 17 de janeiro e 8 de fevereiro. A decisão, tomada com poucas semanas de antecedência, demandou a aceleração da construção de dois novos estádios — em Ebebiyín e Mongomo — ao custo estimado de US$ 16 milhões cada. Uma vez mais, a capacidade em mobilizar vastos recursos financeiros em curto intervalo de tempo foi utilizada como exemplo do desenvolvimento do país. Os imigrantes econômicos deportados logo após o fim da CAN que o digam.

A Guiné Equatorial sediou a 23ª Cúpula da União Africana, realizada entre 20 e 27 de junho de 2014; o país já havia sediado a cúpula em 2011. A organização do evento envolveu a construção de um complexo nas proximidades da capital, Malabo, ao custo de US$ 830 milhões, repleto de pequenas vilas com vista para a costa equato-guineense e um campo de golfe de padrão internacional. Nesse idílico cenário, chefes de Estados discutiram o tema principal da cúpula — Agricultura e Segurança Alimentar — em um país em que a maioria população se encontra abaixo da linha da pobreza.


Como se vê, o patrocínio milionário do enredo (ora campeão) da Beija-Flor é apenas mais uma peça da política de Obiang de vender um país que, infelizmente, ainda não despontou para a maior parte de sua população.

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