A fantasma

Uma história do João Maria Cícero pelo João Nemi Neto

Eu nunca sei como começar histórias. Não sei o que escrever primeiro. Fico em dúvida se tenho que deixar claro que é uma obra de ficção ou se tenho que fazer uma introdução nos moldes dos cursos de escrita americanos. Quais são as minhas perguntas, quais são as minhas dúvidas? Sobre o que quero falar? Sexo. Como vou falar sobre isso?

Eu começo escrevendo…

Paro. Volto uma semana depois, dois meses depois, nunca mais volto. Tenho mais começos de histórias do que a Bíblia. Nunca terminei nenhuma. E hoje não sei se escrevo em português ou em inglês. Não sei se quero ter a fama do Paulo Coelho ou ser um escritor obscuro. Talvez eu queira mesmo é ser leitor…

No Brasil, hoje, me parece que há mais autores que leitores. Eu tenho um livro, sou culpado dessa febre de escritores. Afinal, para escrever basta saber, não é? E aí, qualquer um pode ser escritor. Eu, inclusive. Sou um escritor de três livros e dois leitores que me parece ser a média brasileira hoje.

… leitor em voz alta. Quero só ler em voz alta. Que meus livros só existam enquanto eu leio. O primeiro era assim. O segundo era uma caixa. O terceiro virou livro de papel mesmo. São 600 cópias, 100 já foram vendidas. Outras 100 estão rolando por aí. E agora eu quero ser leitor-em-voz-alta.

Hoje eu comecei mais uma história. Escrevendo. Esta que você está lendo agora. É uma história sobre sexo. Sobre um fantasma:

Noite passada eu acordei ouvindo um barulho estranho. Barulho que todo mundo ouve em apartamento novo. Imaginei que fosse um fantasma e que eu iria transar com esse fantasma no armário para que meu namorado não ouvisse, mas no meio da minha fantasia sexual com meu fantasma, achei que seria mais legal ser uma fantasma. Afinal meu namorado estaria na cama e eu transando com uma fantasma no armário. O público ficaria confuso “mas ele não é gay?”… Quem me conhece ia achar estranho, “mas ele agora quer transar com mulher?” E poderiam fazer análises sobre as questões de gênero e sexualidade na minha literatura. A inversão dos papéis nas relações homoafetivas, algo assim.

Aí eu parei a história. Sempre que escrevo sobre sexo com mulher tenho medo de ser misógino e ser um desses gays que não sabem nada de mulher. Mas eu tenho experiência, eu não sou misógino, eu sou feminista… E tem aquele curso de escrita criativa, ou desescrita descriativa que fala que temos que partir do que sabemos. Eu sei de sexo. Eu sei de fantasmas. Eu sei de barulhos e este apartamento novo sei muito sobre armários.

E enquanto eu não escrevo a história, eu descubro na internet, não um, mas vários filmes pornográficos com fantasmas. Desde os pintadinhos de branco com lençol até os mais artísticos, uma coisa meio drama psicológico-filme noir com genitálias. Fantasmas em filme se depilam. Pelos sempre me fazem pensar. 
 
 O resultado é que minha história não é original. É só um sonho erótico pornográfico sobre trepar no enorme armário do meu apartamento novo. E trepar no armário com uma fantasma pode ser uma leitura psicológica meio drama noir de questões mal resolvidas com a própria sexualidade. Talvez… Afinal quem é super resolvido com a sexualidade?

Nesse meio tempo o barulho que me acordou de noite, voltou. É o vizinho no corredor. Eles têm mania de deixar um carrinho de feira cheio de frutas no corredor. Ainda não perguntei se é para todo mundo do andar ou só deles. Era o barulho das laranjas caindo.

Nada de erótico nesse barulho. Talvez existam filmes pornográficos sobre laranjas e frutas, mas agora já perdi o tesão mesmo. Quero terminar essa história sobre o fantasma que eu ia trepar no meio da noite.

E esse fantasma-fantasia me perturba por toda a manhã. É política? Não era, mas agora que eu mencionei, pode passar a ser. E essas laranjas? Que podem não ser laranjas, mas podem estar associadas ao meu medo do homem-laranja como tem sido chamado aquele que evitamos dizer o nome.

E pronto. Minha história sobre uma fantasma tarada que queria transar comigo no meu armário se converte em uma história sobre o meu medo da atual conjuntura política atual. E tudo isso em recordes cinco minutos, o tempo para escrever este texto. 4 minutos quando lido (em voz baixa porque meu namorado ainda está dormindo).

Não se esqueçam que sou um leitor-em-voz-alta e não necessariamente um escritor.

É sobre o medo. Sobre a falta de sono. Sobre as semelhanças entre esse ‘ghost’ e os fantasmas que habitam minha língua natal. É sobre nada. Sobre a vontade de ler em voz alta. Sobre teatro.

E por fim, é sobre a fome. E sobre o sono. E com tudo isso, nem consegue se converter em uma história.