Dilma e Frankstein

Uma das coisas que mais me impressionou durante esse processo de impeachment foram as discussões (no sentido inglês da coisa, discussion, sem briga) e conversas com meus alunos. Vários alunos meus eram favoráveis ao impeachment e ao longo do semestre passado foram dando suas explicações para o caso.

Eu, como não trabalho numa escola sem partido, nunca precisei esconder meu apoio à Dilma, minhas críticas ao PT e minhas opiniões. Os alunos nunca se sentiram doutrinados. As avaliações de final de curso mostram isso, tudo pacífico e de alto nível. Infelizmente o semestre acabou e não sei se os alunos que eram a favor do impeachment permaneceram até o final ou mudaram de opinião. Mas a lembrança de que as discussões podem ser favoravéis para todos ficou na memória.

Semestre novo acaba de começar. Hoje foi difícil dar aula de uma língua que muitos alunos estrangeiros se sentem apaixonados. Dava um pouco de vergonha de falar do Brasil. E os alunos tinham perguntas. Eu passei essas últimas semanas procurando razões judiciais para o impeachment, procurei entre conhecidos, jornais, revistas, ouvi discursos. Não consegui achar e não vou entender nunca como esses senadores se venderam a tal preço.

O que poucos querem entender é que muitos de nós, contra o impeachment, não somos petistas ou comunistas (ainda que do segundo eu não tenho problema nenhum em ser apontado na rua como tal), simplesmente é uma questão de proteção do estado democrático tão jovem no Brasil. Como explicar isso aos alunos estrangeiros ávidos por Brasil? Ainda agora procuro razões para justificar tal movimento político sujo. E mais uma vez, a literatura vem para me salvar. Aquela mesma literatura que as universidades e escolas, inclusive as americanas, acham desimportante.

Coincidentemente (ou não) essa semana eu resolvi reler Frankstein. Um machista qualquer diria, "ah, ele lembra a Dilma" seguido de risadas idiotas. Pois eu já antecipo a sua piada imbecil e sigo meu texto: Dilma, na verdade, me lembra Justine, uma empregada acusada injustamente de ter matado o irmão de Frankstein (para quem não leu, lembre-se que Frankstein é o criador, não criatura). Em seu julgamento, mesmo sem provas, como ela é uma mulher pobre acaba sendo condenada à morte, já que deve ter matado o menino por inveja da classe alta. Ela é julgada por vários homens e ao longo do processo apenas uma mulher, Elizabeth, tem a coragem de vir em sua defesa. A defesa não é suficiente e Justine é morta pelo governo de homens brancos.

Enquanto votavam o seu impeachment hoje eu lia o trecho acima. De uma similaridade infinita. Uma mulher julgada por um crime que não cometeu. Esse juízes que mataram Justine acham que ganharam, mas o livro ainda está na metade. E criador e criatura ainda estão vivos. Há muito que se perder ainda.

Quando falamos que a elite se articulou de maneira eficiente e conseguiu que a classe média e operária (sim, você paulistano que acha que é elite porque financia seu carro zero) se aliassem a eles, muitos que se acham elite, me dizem que meu discurso está ultrapassado, que isso é coisa do passado. A novela ainda não acabou. E agora, vamos ver essa mesma elite que achamos que fazemos parte se distanciar de nós e articular o que foi feito nos Estados Unidos nos 80 no governo Reagan. Capitalismo tardio… Papo ultrapassado mesmo? Fica difícil quando o Brasil, ainda que insistam em papo ultrapassado, segue reproduzindo esses ideais que achamos do passado só porque já temos TV à cabo e netflix.

Temer parte feliz para o G20. Se esses governos prezassem pela democracia como tanto dizem, teriam que dar uma bronca grande nesse menino democrata. Mas sabemos que democracia é gerida pelo dinheiro, e que infelizmente nada será feito. O tal governo interino, agora oficial, seguirá seu caminho desastroso contra a jovem classe média e a antiga classe média que se acha elite. Temos muito que aprender e agora vamos trabalhar mais ainda para que tenhamos menos tempo para aprender. Processos semelhantes que culminaram na ascensão de Trump, começam a engatilhar no Brasil a ascensão de Bolsonaros e seus tais.

A esperança é que Dilma não teve o final de Justine. Espero que siga a sua luta afinal Dilma é uma mulher, é a representação da luta. Ela é também responsável por um desastroso segundo mandato (além dos conchavos e alianças questionáveis…), seguramente, mas a possibilidade de mudanças ainda que pouco prováveis lhe foram arrancadas.

A foto da reunião ministerial de hoje me lembra a descrição dos homens julgando Justine. Todos aqueles homens brancos com seus ternos caros prontos para seguirem matando Justines. É tempo de Justines. É tempo de Dilmas.

Eu não desisti ainda da Dilma.