Eu não sei Pajubá, mas sei o que é dialeto.

Parece que o ENEM fez esta questão pensando em mim…. Uma questão sobre linguagem com ênfase em LGBTs. Obrigade.

Vamos lá então:

Em primeiro lugar, para ser bem honesto, dentro da minha bolha CIS, eu não sabia que Pajubá era o nome dado ao dialeto. Eu conhecia o álbum novo da Linn da Quebrada (que MERECE e PRECISA ser ouvido por todos nós), e muitas das palavras eu conhecia da minha vida por aí. Elas são palavras bastante usadas por LGBTs em vários lugares mesmo (é preciso falar em algum momento de apropriação cultural — fica para a próxima). Porém fica a dúvida: Por que esta pergunta incomodou tanto?

Ainda que não saibamos todas as palavras mencionadas no ENEM, talvez já tenhamos ouvido alguma por aí. Mas saber ou não as palavras não é o que a questão propõe. Basta ter lido a prova com calma. O ENEM pede que os estudantes saibam o que é um dialeto. Eles poderiam ter usado qualquer dialeto, o de alguma região do nordeste, talvez do interior paulista…. mas escolheram o pajubá porque já existe um dicionário, ou melhor, uma dicionária publicada em 2006.

Dialetos, variações regionais, língua coloquial são temas de língua portuguesa há décadas. Em livros de português dos anos 80 essas questões já apareciam. Eu me lembro que o livro que eu usava com meus alunos da 5a. série há dez anos falava do dialeto mineiro (pó pô pó era o exemplo dado). Dialetos e variações linguísticas fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais desenvolvidos nos anos 90.

Voltando à questão inicial: Por que essa pergunta incomodou tanto?

Como disse uma conhecida, "não é preconceito, mas eu não preciso saber essas palavras…". Não, vocês não precisam saber. E como eu disse antes a questão fala sobre dialeto. O que incomodou foi a menção das palavras travesti e gay. Mencionar a existência é o que causa incômodo, é como eu já disse aqui em um texto anterior, "não tenho nada contra, mas não precisa mostrar, né?". PRECISA, SIM. Em letras grandes.

Se você não tem preconceito, a presença de uma mulher trans, uma travesti, um homem gay, uma lésbica, um homem trans não deveria incomodar. O que incomoda na questão é ter que aceitar a existência das minorias LGBTs.

E se a menção dessas palavras te incomoda, você tem preconceito, sim.

Um dos grandes problemas hoje é justamente mensurar nossas pequenas atitudes preconceituosas. Quando alguém me grita na rua "bicha tem que morrer", sabemos que é preconceito (deveria ser crime) e é fácil mensurar. O que é difícil é entender que se a simples menção da palavra travesti em uma questão de vestibular incomoda é também uma forma de preconceito, um dos mais perversos, hoje em dia, o preconceito internalizado. Ou seja, o preconceito que aceitamos nas atitudes cotidianas sem refletir que esse incômodo é um problema.

Muitas das pessoas que reclamaram da questão simplesmente não leram a questão com atenção (sinal dos tempos?). Simplesmente gritaram contra a presença das palavras travesti e gay. Ou seja, gritaram contra a existência dessas identidades. E isso é uma forma de preconceito. É aceitar sem ter que conviver… Difícil, né?

A luta pela visibilidade é diária, cansativa… E temos que dar passagem para todas essas identidades que todos os dias colocam a tapa para bater para nos defender. E deixar que elas apareçam no ENEM, na novela, no cinema, em todos os lugares, porque o espaço tem que ser para todos. E se tem alguém que te incomoda, tente entender o porquê. Reflexão é bom!

Pensando alto:

Agora, será que esta pergunta não reflete o momento também? Pablo Vittar nas paradas de sucesso por todo o Brasil, Gloria Groove, Linn da Quebrada e tantas outras artistas despontando pelo Brasil não nos fazem pensar em algo no ar? Algo muito bom, diga-se de passagem.