Neutralidade e as eleições

Semana passada um centro de pesquisa da faculdade organizou uma reunião sobre "teaching post-elections". Uma iniciativa para professores, leitores, adjuntos e estudantes de doutorado que dão aula poderem falar sobre o assunto e como tem sido a questão em sala de aula.

Nova York foi um dos poucos estados em que Hillary ganhou com maioria, o que não significa que tenha sido maioria absoluta. Até mesmo na cidade de NY há regiões em que Trump ganhou (Staten Island, por exemplo), mas ainda assim os alunos ficaram abalados com o resultado — para o bem e para o mal. Eu tive alunos chorando na classe, longas conversas, medo, e na mesma semana um grupo de esportistas da faculdade foi suspenso por 'elleged' comentários homofóbicos, machistas, misóginos, racistas e tantos mais

Durante a reunião de professores, um jovem estudante de doutorado disse que era importante tentar ser neutro. Algo como "manter a neutralidade nessas situações". Quando ouvi o comentário do jovem homem branco americano após vários internacionais e POC (persons of color) falando de medo e insegurança senti pela primeira vez o que as minorias sentem: raiva.

Em um país tão racialmente dividido ouvir um jovem homem branco falar de neutralidade em um ambiente tão diverso dói. Eu não me considero uma pessoa de cor (ainda que pelas definições americanas eu possa me incluir nesse grupo), me sinto desrespeitando as pessoas que têm sofrido preconceito ao longo da vida algo que devido ao meu privilégio eu fui poupado. Mas aqui, eu não sou branco, não. Sou 'other', 'latino', talvez até 'hispanic'. E se sou branco é preciso acrescentar algo como 'south american' ou de 'peoples of the middle east' ou algo assim… Mas branco, não.

A minha relação como minoria é sempre muito complicada. Eu venho de privilégio, não de riqueza. Acho que essa diferença já deveria estar clara para nós. Não me sinto um imigrante porque vim convidado para este país. Recebi uma bolsa integral para estudar literatura, fiquei aqui com uma oferta de trabalho em uma instituição gigante. Sou branco de aparência, internacional, ‘foreign’ de nascimento, sou LGBTQ, sim, mas parte de uma minoria que ainda assim se beneficia de certos privilégios. Negar a branquitude mais do que abrir mão dos meus privilégios, é desrespeitar a luta negra no Brasil.

Como um "international queer person", eu só consegui responder ao rapaz que eu não acreditava em neutralidade, que ser 'neutro' é uma decisão política muito clara. Falei isso durante uma reunião que começou com o Paulo Freire, ou seja, me parecia óbvio que nossa 'missão' está longe de ser neutra. O que eu queria dizer para aquele futuro professor é que muitos de nós não temos o luxo de sermos neutros. Neutralidade é só para aquele que se identifica com a norma. Afinal ser neutro é manter-se dentro do seu status quo que te permite não verbalizar a sua diferença, já que a sua diferença é a norma. Como disse Desmond Tutu, "se você é neutro, você decidiu estar ao lado do opressor".

Nós, internacionais, POC, queers, LGBTQ…. não somos neutros nunca. Um estudante de doutorado asiático, uma professora negra, uma professora trans ao entrar na sala não é neutra. Nós perdemos esse luxo quando fomos inscritos no exercício da minoria. Nós perdemos esse luxo quando o presidente eleito americano fez uma campanha baseada no terror e no preconceito. A neutralidade desaparece quando no dia seguinte da sua eleição vários ataques xenófobos, racistas, misóginos e transfóbicos foram feitos em várias partes dos EUA, incluindo a tão liberal Nova York.

Neutralidade na educação é a bobagem do escola sem partido. Um nome que engana e faz com que as pessoas achem que essa é uma boa ideia. Escola sem partido é a escola que responde aos anseios do partido-mãe liderado por um governo branco, heterossexista, machista e racista. Professor neutro como o bom americano disse ou escola sem partido como o cidadão de bem prega é a escola da norma. E bem sabemos que a norma é para poucos.

Eu penso sempre em discurso e de que maneiras nos mostramos para os outros. Quando penso em ser neutro eu me lembro que o presidente-eleito americano escolheu se silenciar sobre os tantos ataques racistas nessas semanas e passou uma manhã inteira exigindo que um grupo de teatro se desculpasse por haver lido uma carta ao vice-presidente eleito. O mesmo presidente-eleito não fala nada sobre as pessoas que atacaram em seu nome um senhor de 75 anos, gay, na Flórida, mas passou a manhã de sábado criticando um programa de comédia que fez uma sátira sobre ele.

Esses atos me preocupam, está claro quais são as prioridades dele. E eu, sendo um homem gay, estrangeiro eu passo a ter medo. Amigos já ouviram na rua "English only". Ainda que economicamente os resultados possam nem ser tão graves, esse presidente-eleito já deixou uma marca muito forte de medo, xenofobia, racismo, homofobia, transfobia, anti-semitismo e tantos outros problemas que só aqueles que podem escolher ser neutros não precisam passar.

Eu resisto, ainda que com medo. Não sei bem como, estou buscando formas de resistir. Tenho medo de participar de manifestações por não ser cidadão. Estou achando formas, oferecendo meus serviços como voluntário como tradutor em associações que ajudam pessoas 'indocumentadas', para começar. Neutro não fico. Não dá para ser neutro. Estamos apenas começando.

Termino o texto com o começo da luta lembrando um um provérbio mexicano que diz "tentaram nos enterrar, mas esqueceram que somos sementes".