New York, I love you (te odiando)

Ontem eu fui lendo no metrô (coisas de Nova York) uma seleção de crônicas do Caio Fernando Abreu. Em um de seus textos ele fala da relação de amor-ódio com São Paulo. Na crônica, ele diz que a sua relação com São Paulo é "igual a um casamento. Atualmente, em crise". Lendo em pé em um metrô lotado em um trajeto de mais de uma hora para o trabalho em dia de chuva parece que o próprio Caio veio até o meu vagão, abriu espaço entre as pessoas que não se encostam e colocou o dedo na página 29.

Nova York não é fácil. Nova York é grande. Nova York não é Manhattan. Nova York se transformou num grande centro de lavagem de dinheiro para os endinherados do mundo "investirem" em apartamentos caríssimos deixando a classe média sem moradia. Um apartamento de um quarto vale dois milhões de dólares? Não. Não vale. Mas a tal da "força da grana que ergue e destrói coisas belas" tem seu nascimento aqui (Não foi em São Paul0). Esses ricaços com esse dinheiro de origem suspeita derramam milhões em apartamentos ridiculamente caros lavando seu dinheiro em um sistema que não faz perguntas, apenas aceita. Deixando, assim, alguns mais ricos e outros mais pobres.

Moradia talvez seja o pior problema da cidade. Aqui há uma elite que pode viver bem em apartamentos caros que não valem nem metade. Valor de aluguel é sinal de status aqui. Quanto mais caro, mais valor o inquilino tem. Outro sinal de status é um "rent control". Esses apartamentos, hoje, quase fantasias, são apartamentos que se mantêm dentro de um preço justo devido aos acordos legais antigos. Muitas pessoas mantêm tais apartamentos lucrando com sub-aluguel enquanto moram em residências próprias (mas isso vai ser assunto mais tarde — corrupção, alguém?).

A cidade é tão ridiculamente cara que mesmo eu, professor em uma das dez maiores universidades do mundo, não ganho o suficiente para viver perto da universidade ou para viver no centro da cidade — Manhattan, a única Nova York que os turistas conhecem. Tenho que viver longe, uma hora e pouco de metrô.

Há vantagens, claro. A leitura em dia é uma delas. Nunca li tanto na minha vida. Em São Paulo eu ficava o mesmo tempo no trânsito, mas não podia ler enquanto dirigia. E também, eu estava no centro, o trabalho na puta que o pario. Agora é quase o contrário. E para quem cresceu na Bela Vista estar fora do centro é de doer….

A vantagem é chegar em casa descansado e desconectado do trabalho. Ainda que eu adore as aulas, é bom chegar em casa pensando já em outras coisas. No caminho já desopilei o fígado.

E claro, há o metrô. E essa parte, por pior que seja, ainda é boa. Mesmo de final de semana ficarmos vinte, trinta minutos esperando um trem. De madrugada ter vômito, gente bêbada caída e sempre aqueles estudantes universitários pentelhos que gritam e querem "high five" você. De manhã, eu acordo e vou com meu livro na mão, preparado para uma hora em pé colando minhas leituras em dia. Às vezes dou sorte e consigo me sentar. Muitas vezes eu desisto porque as pessoas brigam. Sim, Brigam, para sentar. Já vi gritaria, empurra-empurra, palavrão, tudo por causa de um asento.

Só entre transporte e moradia já dá para entender o Caio Fernando Abreu. Nova York fascina, mas te destrói. Só os ricos, muito ricos aproveitam o cartão-postal. A desigualdade social dessa cidade é gritante. E mesmo com toda a segurança que a cidade oferece (em algumas partes), é de doer andar por aqui e sentir tanta pobreza e tanta indiferença a ela.

E acho que há o lado pessoal. O meu lado. Ter crescido na Bela Vista e morado lá toda minha vida — no meio de tudo, no centro do meu mundo — não ajuda a estar em outro bairro, longe da cidade. Nos meus primeiros cinco anos aqui eu fui desses que gastava mais da metade do salário por um apartamento de 22,5 m2. Quem viu, sabe do que estou falando… Foram precisos cinco anos para me mudar para um apartamento maior — ainda caro — mas longe do centro-cartão-postal.

Vejam os absurdos dessa cidade. Morar aqui é uma luta com o aluguel, com os donos dos apartamentos corruptos e mesquinhos. Morar aqui é aceitar que Wall Street faz as leis e a classe média segue sendo rebaixada. É aceitar "que está demais, querida Sampa [NYC]" como dizia Caio. Mas ainda assim, aqui estamos. Chegamos e vamos ficando. Por quê?

Para mim, é simples a resposta:

Eu gosto do meu trabalho aqui. 
Eu tenho uma pessoa (será que é homem, é mulher, é demi, cis, a????) aqui. 
Eu tenho uma vida mais simples aqui. 
Eu aprendi a viver a cidade fora do cartão-postal.

Por incrível que pareça, Nova York, essa cidade devoradora de dinheiro, com tanta corrupção financeira e imobiliária me ensinou a viver com menos. Estar fora do centro é um exercício de desapego para mim. Estou aprendendo. E enquanto vou aprendendo, vou me fortalecendo contra essa desigualdade desumana que Nova York te joga na cara todos os dias. E nos dias que fica impossível tem sempre um livro por perto.

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