Privilégio
A ideia de privilégio está ganhando espaço e é importante que falemos sempre desses privilégios. Aqui, fale-se em 'male privilege' e 'white privilege' principalmente. Há ainda o privilégio que une os dois: o privilégio de ser um homem branco ou seja, um homem branco cis (para quem não sabe, o conceito de cis é usado para pessoas que se sentem de acordo com o gênero dado ao nascimento).

Eu sou um homem cis branco. Eu sou gay, o que me tira do grupo dos heterossexuais e seus privilégios, mas em muitas situações a minha orientação sexual não é óbvia (e eu não tenho problema em ser óbvia, ao contrário de muitos homossexuais que sofrem de torcicolo permanente por vergonha) o que me deixa numa situação social de conforto.
Eu tenho falado bastante de privilégio, tenho lido muito e discutido com meus alunos. Agora como explicar esse privilégio? Eu vou tentar da melhor maneira que posso, dizendo como eu tenho vivido esse privilégio em várias situações e exemplos. Vou tentar categorizar:
I. Como professor:
- Quando eu explico alguma coisa em público, as pessoas não olham para o lado procurando que algum homem possa falar, afinal eu sou o homem falando.
- Quando eu era professor de criança, tínhamos que pedir para o professor branco americano silenciar as crianças porque mulher e veado brasileiro não funcionam.
- Eu não ganho menos que meus colegas homens.
- Como professor, os alunos confirmam comigo o que a professora disse antes. “Sim, é verdade o que ela disse”.
- Em viagens da escola, depois de receber o 'sim' da professora, os alunos vinham me perguntar se podiam mesmo fazer o que tinham pedido.
- Em viagens da escola nunca acharam o meu shorts curto demais como o das outras professoras.
- Nunca me perguntaram se eu tinha dado para o diretor quando fui promovido.
- Nunca me perguntaram se eu pretendo parar de trabalhar quando casar.
- E também nunca me mandaram arrumar marido rico quando pedi aumento.
II. Como aluno
- Na escola nunca me perguntaram se eu era bolsista ou filho de funcionário porque eu era negro.
- Eu nunca fui o único aluno 'diferente' na sala de aula.
- Eu nunca me senti ofendido porque matemática não é coisa de mulher.
III. Na rua, no cotidiano
- Há muitos anos no Brasil, eu estava numa fila para pagar a compra numa loja num shopping. O homem na minha frente, negro, ao pagar a conta teve que mostrar o seu RG. Na minha vez, atento, eu já entreguei o cartão com o RG, a vendedora disse, “não precisa de RG, não”.
- Quando eu ando na rua eu não tenho medo de ser assediado, de tocarem a minha bunda, e de me chamarem de ‘gostosa’. E se me chamarem de ‘gostoso’ eu vou rir, porque eu tenho o privilégio de poder achar que assédio não é assédio já que sou homem.
- Uma vez entrando numa boate em São Paulo, um conhecido, negro foi parado na porta porque estava de chinelo. Um grupo de gringos brancos já tinha entrado de chinelo. Éramos todos o mesmo grupo. Mas preto não pode ser gringo e se está de chinelo deve ser favelado, pelo menos era a lógica do segurança.
- Quando eu atravesso a rua entre os carros os motoristas não fecham o vidro de medo de assalto. Eu sou um homem branco.
- Em uma loja ou em um shopping nunca me confundiram com o empregado, funcionário ou babá.
- Na rua, à noite, eu não tenho medo que me chamem de bicha, veado, e ameacem me bater. Desde que eu escolha bem as minhas amizades, afinal ser gay não é problema, “mas precisa ser assim afeminado…”
- Eu tiro a camisa na rua nos dias de calor. Ainda que não seja crime mulheres não usarem camisa. E quando eu tiro a camisa na praia ninguém faz um círculo ao meu redor me chamando de vagabunda e dizendo que eu quero aparecer.
- Nunca me perguntaram porque eu estava sentado sozinho num bar ou restaurante. Eu posso comer sozinho sem que ninguém me perturbe.
- Nunca tive medo de ser estuprado.
- Quando eu digo não, é não. Aliás eu nunca precisei dizer não.
IV. No transporte público
- No metrô lotado eu não me preocupe de sair com a calça cheia de porra porque algum tarado bateu punheta atrás de mim. Também não tenho medo de alguém ficar roçando o pinto na minha bunda.
- Como eu sou um homem cis eu não preocupo com a possibilidade de alguém gritar e me ofender no metrô.
- Por ser branco, no metrô, no ônibus, na faculdade, no parque, no banco, as pessoas não pensam duas vezes antes de se sentar do meu lado.
- Um metrô vazio não me dá insegurança.
V. Na vida em geral…
- Eu, de jeans e camiseta, não estou mal-vestido.
- Quando estou triste ou bravo, não estou 'naqueles dias' ou 'mal-amado'.
- Ninguém me pede para dar um sorriso porque eu sou tão bonito…
- A minha barriga não é descuido, é só cerveja.
A primeira autora que falou de privilégio branco — Peggy McIntosh — listou mais de 40 privilégios que ela havia vivenciado. Esses são alguns, poucos, dos que eu consegui me lembrar e elencar nesse '5 minute read'. A lista é muito maior, se formos pensando a lista cresce, cresce…
O privilégio é um conceito acadêmico, muito em voga. Mas antes disso é uma prática do cotidiano que vivenciamos de várias maneiras. Alguns do lado privilegiado e outros, não. Para nós que estamos do lado privilegiado é fundamental levarmos em conta o nosso privilégio para que a gente possa entender o racismo e o machismo nossos de cada dia. Mas é importante que não sejamos os salvadores das minorias. As pessoas têm voz, não estamos em posição superior, estamos ao lado. E como sempre digo o que mais me faz feminista é ouvir a mulher antes que eu fale alguma coisa. Eu não preciso explicar o privilégio para quem não o tem. Elas e eles têm muito mais exemplos do que eu. Quem não tem privilégio aprende cedo, nós é que precisamos, ao menos, reconhecer essa situação privilegiada.
É hora de nos silenciar e lutar para que o nosso privilégio seja direito de todos.