Um desabafo em crônica

Hoje eu fui grosso com uma pessoa desconhecida e preciso pensar sobre isso. Antes de explicar o que aconteceu preciso me justificar, preciso escrever algumas linhas explicando tudo que anda acontecendo comigo para que eu possa me sentir melhor antes de escancarar a monstruosidade do Mr. Hyde.

O vilão sendo bem escroto.

Antes mesmo de começar o semestre, já estou cansado. Ando ansioso demais. Vou dar aulas demais, parece. Arrumei trabalho a mais, escrevendo mais e preparando mais aulas. Mais do que ansioso com o meu livro que dizem que sai, mas não sai. Parece finalzinho de gravidez quando a mulher começa a querer que a criança saia. É que eu não tenho controle. Nem datas, nem nada. Primeiro livro, primeira editora, não sei argumentar, não sei dialogar. Além disso, vou trabalhar demais e ganhar de menos, o aluguel nessa cidade é indecente de caro e parece que a cada ano temos que morar mais longe ainda para que os novos ricos de Wall Street possam invadir Nova York afastando a empobrecida classe média da qual faço parte. Só nos Estados Unidos um professor de uma instituição de elite não consegue morar na cidade em que trabalha. Talvez tudo se resuma a ansiedade mesmo. Aulas novas, turmas novas, responsabilidades novas e esse livro que não sai nunca. Já ando dizendo para todo mundo que sou poeta, mas não tenho livro ainda. Vou ter que começar a vender folhetinhos na praça… mas quem quer comprar folhetinhos na praça? Nem no MASP compram. Mas eu sempre digo para mim mesmo, pelo menos tenho editora… acho, pelo menos…

E com tudo isso, esse final de verão encalorado.

E hoje eu fui extremamente grosso com uma gerente de restaurante. Logo eu…

(aguardem um pouco mais porque além de me justificar eu preciso dizer que eu sou uma boa pessoa quase sempre)

… Eu que dou 20% de gorjeta mesmo quando o serviço é ruim porque esses garçons não ganham nada. Eu que sempre penso no outro. Eu que sou uma das únicas pessoas nessa cidade a se levantar no metrô para os mais velhos. Eu que escuto os amigos, ajudo os pobres, faço doações mensais a algumas instituições da cidade que ajudam pessoas com diferentes necessidades.

E essa pessoa hoje foi grossa como nunca (Sim, neste momento me distancio transformando o texto em terceira pessoa) tinha sido antes. Acho que já posso contar:

Em um restaurante da cidade ao pagar a conta, colocamos três cartões de crédito. Se você mora em São Paulo não vê nada demais, mas aqui, muitos restaurantes não aceitam dividir a conta em vários cartões, no máximo dois. Qual é a lógica? Não sei, é o que tentei descobrir hoje sendo grosso perguntado por quê?

-Porque só aceitamos dois cartões por mesa.
-Qual é a lógica? 
-Só aceitamos dois cartões por mesa.-
-E se estivéssemos sentados em três mesas? 
-É diferente. Você está na mesma mesa. 
-Mas por quê? Essa regra não faz sentido.
-Você pode pagar em dinheiro. Nós temos muitos clientes aqui.

Ah, não… me dispensar como cliente. Eu pago. Eu tenho direitos… Eu odeio esse diabo neoliberal que fica assoprando no meu ouvido do lado direito. Cadê o eleitor do Bernie Sanders do lado esquerdo nessas horas? Escondido de vergonha, me disse o diabo neoliberal…

-Mas eu só quero entender a razão de só dois cartões.
-Temos muitos clientes, é impossível passar todos os cartões.
-Mas em mesas separadas você passaria.
-Você está na mesma mesa. Todos os dias as pessoas me perguntam isso e essa é a regra.

E ela saiu andando pisando grosso, me xingando em outra língua (talvez ela só tenha dito, que merda de vida). Eu não me conformo com burocracia estúpida. Deus, eu estou me tornando aquelas pessoas que acham que o seu pior defeito é pensar demais…. Anjinho eleitor do Bernie Sanders, cadê você?

O pior é que eu não desisti. Na hora de embora fui falar com ela de novo.

-Só acho que se todos os dias tem gente reclamando, talvez…
-Não é todo dia. Olha, desculpa. I am really sorry. I am. 
- I don't think you mean it. (Essa parte eu deixo em inglês porque algumas pessoas não vão entender e é melhor assim. Desse jeito, ainda me sobra alguma humanidade, pelo menos no olhar do outro).

E saí do restaurante. Ao pisar na rua, o sol me lembrou o quão escroto eu fui. Aceite as regras e ponto. Eu queria voltar, mas eles teriam me jogado um sushi na cara. Aceitei minha culpa para mim mesmo e passei o dia tentando expiar essa merda de culpa ao mesmo tempo que tentava matar esse maldito demônio neoliberal que habita meu ouvido direito. 10 dólares para almoçar. Só isso. Deixa a mulher trabalhar em paz.

Eu voltei para casa, e não fui dormir, fiquei com aquela ideia martelando na cabeça. O anjinho eleitor do Bernie Sanders acordou e agora não me deixa dormir. E aquela pessoa foi dormir pensando, que merda de dia, aguentar o dia inteiro essas pessoas escrotas. E eu nem vou dormir com vergonha de mim mesmo.

Ainda que tarde agradeço meu anjinho que habita meu lado esquerdo. Peço desculpas a todos os garçons que aguentam gente escrota o dia inteiro. Eu incluído. Amanhã, eu vou continuar minha missão de enterrar esse diabo escroto que me habita. Enquanto isso, vou ficar uns meses sem comer sushi.