Qual o preço de chegar ao mesmo patamar de quem faz questão de nos deixar de fora?

Jo Melo
Jo Melo
Nov 5 · 3 min read

Se você estudou a vida toda em escola pública, volta mais algumas casas.

Se você teve de trabalhar muito cedo para ajudar em casa, ou cuidar dos seus irmãos, opa, vem cá voltei mais um pouco.

Se você teve de se desdobrar para estudar e trabalhar e ainda cuidar da casa, é, vem cá.

Se eu for colocar aqui todos os passos de uma pessoa que não nasceu com privilégios, talvez este texto vire um livro, porque teria de colocar cada passo, juntamente com cada surto, preconceitos, dores, cicatrizes e traumas. Mas prefiro me abster disso e dizer apenas que tudo isso cansa.

Trabalhar, estudar, ser mãe, não ser branco, ser mulher, pontos na escala de opressão e mais pontos para quem chama tudo isso de mimimi. Se você não estuda porque está cansada, não quer ser alguém na vida e dá todos os motivos para dizerem que quem nasce na periferia, não em futuro mesmo, ou você se dá demais, fica doente, não come direito, passa mal, passa fome, para chegar no mínimo de espaço de alguém que não precisou fazer tudo isso e ser capa dos principais noticiários online como a filha da empregada que venceu na vida, o rapaz catador de lixo que agora é advogado, ou talvez, a mulher indígena que chegou lá.

Independente da sua condição e de como chega ou não, você sempre será case de sucesso ou fracasso para pessoas brancas que nasceram em suas bolhas e não sabem o significado, aliás sabem sim, mas nunca viveram na pele o que é desigualdade.

Somos aqueles ratinhos que passam por testes, nós giramos a roda da economia parcelando nossos eletrodomésticos em centenas de vezes, fazemos empréstimos para financiar nossa casinha própria, ou para abrir o nosso negócio e cair nos encantos do “empreendedor de sucesso”, os juros correm solto e o PIB bate palmas com as nossas ações.

Movemos a economia, alimentamos a roda do capital apenas para sobreviver e nem assim conseguimos.

Desemprego nas alturas, qualidade de vida indo pro ralo. Corre, acorda, trabalha, estuda, compra e se desmonta a noite. Marionetes do Estado sendo corrompidos pelo sonho de “pretos no topo”, ou “uma mulher empoderada e de sucesso”.

Tem gente lá fora apostando nossas cabeças, é como uma briga de galo ou corrida de cavalo, quem levar a melhor e matar os seus primeiro, leva, mas vai pra panela depois para alimentar o dono do galinheiro.

E nessa correria toda pela sobrevivência, ficamos alguns passos atrás, mas sempre com a esperança que alcancemos os brancos, com grana e privilegiados. Nos sentimos culpados em sacrificar muita coisa em prol de uma educação digna, em ser o primeiro da família a ter um diploma e dar orgulho para nossas famílias.

Qual o preço de chegar ao mesmo patamar de quem faz questão de nos deixar de fora? De quem se junta em panelinhas e nós somos aquelas crianças que ficam no canto da sala só observando para no final ouvir que reclamamos demais, que não estamos nos esforçando o suficiente e enfim, nos matarmos porque não conseguimos aquele emprego que era a única esperança em meio o caos.

Desigual, desigualdade, desagua sem identidade. E seguimos nesse circulo vicioso sonhando com o mínimo, enquanto esbanjam o máximo.

Jo Melo

Jo Melo

Altas doses de senso crítico. Comunicadora, mãe, editora da Revista Mães que Escrevem. Escrevo sobre tudo, não sei de nada. Insta e twitter: @milituda_jo.

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