A gestação de um mindset e o início de uma nova jornada de realidade

Há 10 anos, nas últimas semanas grávida do João, meu primeiro e único filho, nem imaginava o grau de mudança que ocorreria na minha vida após seu nascimento. Mesmo em mãos com relatos de pessoas próximas a mim sobre a experiência da maternidade, eu não fazia ideia do que seria minha vida depois disso. Os desafios a aceitar, a coragem a tirar do âmago, a criatividade a prevalecer, o desapego a exercitar… e por aí vai a lista sem fim e ainda em construção.

Esse não é um texto sobre maternidade, filhos e coisas do tipo. Faço apenas um paralelo entre a minha experiência gestando um ser vivo e a minha experiência, 10 anos depois, gestando um mindset que me fez mudar totalmente a vida, a forma como me relaciono comigo e com o mundo, e o foco da minha atividade profissional. Tem a ver com mudança, transformação, reinvenção. E também é uma auto-homenagem de gratidão pelo tempo que passou e de celebração pelo que há de vir.

Foram necessários 9 meses para o João nascer. Um turbilhão de fatos e emoções funcionava em mim como um treinamento de evolução para o meu próximo nível de consciência. Afinal, eu deveria estar minimamente preparada para o início de uma jornada que duraria a vida inteira…

Consigo contar na memória 5 fases bem distintas nesse processo. Recentemente me dei conta que foram fases semelhantes pelas quais passei nos últimos 9 meses dos meus lindos 33 anos.

A primeira fase foram nos 3 primeiros meses de gestação. Uma fase de formação da ideia de uma nova realidade. Um típico período de descoberta, de processar o que estava acontecendo, de cair a ficha da caixola e planejar um futuro imprevisto… Avisa geral a família e os amigos, planeja união, mudança, reforma, trabalho, carro.

Felicidade, gratidão, entusiasmo e medo, tudo junto e misturado. Um processo profundo de resgate da figura interna da mãe e do pai se instaurou a partir daí. Com isso, uma nova fase que durou mais ou menos um mês: a busca por definição de responsabilidades e por estruturação de uma nova casa, metafórica e literalmente.

Do “moramos onde?”, “sustentamos como” ao chá de bebê e que tipo de mãe é possível ser. Do macro ao micro, uma verdeira confrontação. Rios de conflitos corriam para o mar de emoções até a definição de uma estrutura sustentável de família. “Inspira, expira… relaxa, vai dar tudo certo” era mantra.

Sobrevivi e saí ilesa, mas não vou mentir: fácil não foi. Foi como uma TPM sem fim. Um storming interno mesmo, que só passou depois que meditei e aceitei que estava nele e que precisava me movimentar mais para neutralizar as emoções, ao invés de ser dominada por elas. Aí pronto, feito!

Assumi total responsabilidade pelos pensamentos e decisões que me cabiam até que, num momento, a vida se normalizou por mais 2 meses e meio. Uma fase de norming trazia mais identidade para o caminho.

Fui fazendo o que tinha que fazer, organizando e experimentando um novo estilo de vida. Toca a obra da nova casa, reforma do piso ao telhado, mantém a rotina saudável, alimentação saudável, relacionamentos saudáveis, auto-conhecimento, natação, yoga, meditação, acompanhamento e conexão com o bebê.

Passei a me sentir aquelas grávidas que reluzem, no meu imaginário feminino celta, de vestido longo e guirlanda de flores na cabeça. Só amor e força, um verdadeiro estado de graça que durou 1 mês e meio, desenhando a penúltima fase — a de performing. Alta produtividade, execução e melhoria do processo de gestação de um ser e de um novo mindset.

Me sentia pronta para estar sempre pronta para a maternidade até que a “finalêra” chegou… Uma fase final densa de quase dissolução de tudo, aquele último mês em que não se aguenta mais. Uma nova mudança se fazia necessária, mas não antes do reconhecimento do processo e das pessoas.

Era 30 de outubro, meu aniversário de 24 anos. Celebração! Depois da despedida dos convidados, uma chuva caía no quintal. Corri para lá, abri os braços para o céu e agradeci por toda a gestação, pela presença daquele ser em mim e por toda a geração que me fez estar ali naquele momento enquanto me sentia agraciada pela água. Chamei de chuva de bênçãos.

No dia seguinte, corre para o hospital, João vai nascer. E assim, após o trabalho de transição durante o 31 das “bruxas” (love!), o menino chega com o nascer do sol no dia 1 de novembro, dia de Todos os Santos. E nunca mais parou com a sua presença em minha vida.

Nasce um filho, nasce uma mãe: a Joana nasceu. Outra pessoa, outra forma de viver e encarar a vida, outra filha, outra irmã, outra amiga, outra profissional. Grandes poderes, responsabilidades e desafios vão dando a toada de uma nova jornada de realidade que ainda continua, ainda bem.

Há exatos 10 anos, lá estava eu dissolvendo o processo de gestação depois de formar a ideia de algo incalculável, de entrar num momento storming, de viver um norming claro e de performar com essência para receber o novo da vida.

Para “o mundo dá voltas” tenho uma interpretação: a vida vai e vem em espiral. E cá estou eu hoje, vivendo o mesmo processo, mas em outro ponto da linha. Há quase 9 meses venho gestando um novo mindset que me permitiu novos rumos.

Formei a ideia de um novo estilo de vida pautado em propósito, liberdade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Revi padrões, passei por um longo momento de storming até me reiventar profissionalmente e também como mulher e mãe. Uma fase de norming me permitiu mais uma vez estabecer uma nova rotina criativa conectada com prazer. Uma fase de performing me proporcionou executar com foco e entrega o trabalho que manifesto com amor para o mundo.

A alguns passos dos meus 34 anos e dos 10 anos do João, estou na fase de dissolução total da gestação desse mindset. Não porque ele acabou e não serve mais, e sim porque ele inaugura a semente de outro que nasce e que traz novas oportunidades de crescimento interior e atuação pessoal/profissional.

Novas novidades, o novo de novo outra vez, a espiral. Começo a conectar os pontos e com esse post inauguro minha nova fase.

Escolho o caminho da minha multipotencialidade e passo a unir tudo o que conquistei de conhecimento e aprendizado dentro dessa cabecinha e desse ser: a essência da arquitetura e do urbanismo (minha formação superior original), minha experiência no mundo acadêmico (no mestrado em urbanismo e como professora universitária), minha experiência no empreendedorismo digital (atuando em learning experience), minha habilidade e paixão desde pequena (a comunicação e a escrita) e, lógico, o “ser/estar mãe”.

Como?! Volto logo mais, quando a dissolução do novo mindset tiver seu fim e a semente da minha nova ideia começar a brotar. É só uma pausa para ajuste de sintonia e formatação.

Porque se tem algo que aprendi com essa história é que uma nova mentalidade, uma nova maneira de agir e realizar tem um tempo de maturação. O tempo de maturação da ideia. E é preciso cada vez mais clarear a mente para enxergá-lo e poder materializar, de fato, uma nova jornada.

Mas antes um reconhecimento a todos que me deram abertura e oportunidade. Cada lugar por onde passei acrescentou saberes na minha bagagem e me trouxe pessoas inesquecíveis, que despertaram minha criatividade e coragem para seguir em frente. Chamo mais uma vez de chuva de bênçãos.

Joana Ribeiro