Sabe aquele dia que tu precisa de um presentinho? Eram 19h e alguma coisa de quinta-feira. Fui ao McDonalds. Estava cheio, filas dentro e filas fora. Muito barulho das pessoas conversando alto, pois tinha muito barulho vindo dos funcionários trabalhando. Então um caixa liberou e o funcionário me chamou. Ele tinha aquelas características que da pra perceber que não era brasileiro. Quando começamos a conversar por causa do pedido, então, tive certeza. Eu precisei perguntar algumas vezes “que?” e da mesma maneira ele fez. Além de entender o que o cliente queria, ele ainda precisava entender o nome e depois escrever esse nome na nota do pedido. Claramente identifiquei que se tratava de mais um refugiado senegalês.

Fui pra fila da espera onde já tinham algumas pessoas… sabe aquele momento em que tu te sente em um filme, observando todos aqueles universos ao teu redor? Vi um pai jovem, irritado com a mãe que permitiu que o filhinho dele de menos de dois anos assistisse algum vídeo pelo celular de crianças espancando algo ou alguém, não entendi bem. Ouvi toda a conversa de um casal atras de mim em que ele fazia de tudo pra não passar a conjuntivite pra namorada e ela fazia questão de não tomar cuidado porque ela queria um atestado pra ficar sem trabalhar. Vi muitas mães e pais felizes em poder dar o Mc lanche feliz de sei lá quantos mil reais só pra criança poder escolher o brinquedinho. Nesse meio tempo, uma outra funcionária, que corria de um lado para outro entregando os lanches em cada um dos caixas, pegou uma notinha e leu o nome que tinha sido escrito pelo senegalês. Não era o nome do cliente e saiu algo que acredito que nem deva existir naquelas listas de nome bizarros. Mas o dono do lanche entendeu que devia ser ele, riu e pegou o pedido. Mas aí todo esse meu momento nesse mundo paralelo, no qual eu amo me perder, foi interrompido por uma guria que foi ser atendida pelo mesmo funcionário que eu fui atendida. Tinha muito barulho. Ela queria um dos hambúrgueres que é Mc sei lá o que barbecue. Ela achou que ele não tinha entendido pq ela não entendia o que ele falava. Começou a repetir e a tentar mostrar pra ele como se ele fosse desprovido de inteligência. Começou a falar alto e com cara de cú. O funcionário continuava atendendo de forma solicita. Então essa cliente começou a gritar pra outra funcionária e então disse pra ela com tom de deboche pra ajudar esse funcionário. Quando ela repetiu o que a guria dizia, o senegalês riu de maneira natural e disse “mas era isso que eu tava falando!” e a guria continuou com aquele comportamento e adicionou caretas quando olhava pra uma amiga. Na hora eu vi aquele sorrisão cheio e alegre que os senegaleses tem, se desmanchar e assumir um novo rosto. Eu senti que ele segurou no semblante sabe? Aquilo me doeu de uma maneira. Aquilo me irritou de uma maneira. Quando eu vi “quem” esse funcionário era fiz um filme na minha cabeça, como faço toda a vez que vejo um deles ou um haitiano. Cara! Imagina tu ter que sair do teu país pq é um dos países mais pobres do mundo, deixar família, tua casa, tuas raízes e vir para o Brasil! Para o Brasil! A gente reclama todo o dia do estado que tá esse país. A gente abre esse FB e, tirando os memes, só tem coisa ruim sobre a nossa terra! Imagina como deve ser o Senegal! Eu não consigo entender o pq de uma pessoa tratar a outra assim. O cara tinha q entender o nosso português, o inglês do jeito que a gente fala (por causa dos nomes dos lanches), tinha que conseguir falar o português e o inglês com todo aquele barulho e tudo aquilo que envolve trabalhar no Mc Donald’s – que todo mundo sabe ser um dos piores locais de trabalho. Pq essa guria não teve a capacidade de pensar em umas dessas coisas que seja? Pensei em algumas possibilidades. Talvez ela nunca tenha tido contato com um desses refugiados; talvez ela estivesse em um dia ruim; talvez ela não tenha tido quem ensinasse o que é empatia. Não sei. Mas não sei se justificaria essa atitude. Eu também estava num dia ruim. Eu fui a pessoa que mais demorou pra ser atendida pq eles não organizavam as notas dos pedidos em ordem de chegada. Era algo aleatório e casualmente eu fui ficando pra trás. Até que eu pedi pra funcionária que pegava os lanches pra ver o meu, pois todo mundo que pediu depois já tinha sido atendido. Ela olhou a notinha que tava escrito Johanna e me perguntou “Jordana?” e eu ri e disse meu nome. O funcionário pegou minha notinha e olhou. Sorri pra ele e ele ficou me olhando com uma cara de “tu não vai me xingar tb?”. A funcionária, depois de demorar mais um pouco, trouxe meu pedido correndo e me disse “eu não esqueci de ti”. Eu sorri e agradeci. Ela sorriu. Ele sorriu de novo com aquele sorrisão cheio e alegre que esse povo – mesmo com tudo que passam – tem e distribuem, para a sorte de quem conseguir sentir.

Todo mundo tem suas dores. Diferentes dores, diferentes níveis. Dores momentâneas, dores que nunca vão deixar de ser dores, dores que vão se transformar em amadurecimento. Falta empatia. Falta conexão. Como dizem, sorrir é o melhor remédio; gentileza gera gentileza.

Mais amor por favor. 🙏🏼