Uma história #1: Normalidade

Acabo de apertar a gravata, visto o casaco e saio de casa. São oito em ponto. A minha hora habitual de sair para o trabalho.

Desço lentamente os três lanços de escadas que me separam da porta da entrada do prédio. Penso no trabalho que tenho para o dia e a minha cabeça é um turbilhão de ideias. Vejo ao longe, encostado ao muro que ladeia as escadas de acesso ao prédio o meu vizinho do lado, entretido a ver o bairro a acordar. O muro, que a mim me dá pelo meio das costas, permite-lhe a ele estar sentado, meio de lado, uma perna no chão e a outra a baloiçar. Tem vestidas umas calças azuis e uma camisa com umas bolas amarelas que lhe ficam bem, realçando o cinzento da pele. Está, como quase todas as manhãs, a saborear um molho de folhas de alface.

– Bom dia, Sr. Hipo Tese — digo.

– Bom dia. Olhe que é melhor despachar-se. Parece-me que a fila para a cama elástica já está comprida.

– Obrigado. Até logo. — E sigo pela rua abaixo, estugando o passo para percorrer rapidamente os duzentos metros que me faltam.

Quando chego vejo que, efetivamente, a fila esta manhã está um pouco mais longa do que o costume. Não me resta alternativa senão esperar pela minha vez. Ao fim de cinco minutos já não tenho ninguém à minha frente. Subo para a cama elástica e faço o meu número habitual. Um mortal atrás empranchado, uma pirueta vertical e um barani encarpado.

Perfeito. Já posso seguir o meu caminho.

Faltam apenas uns quinhentos metros até chegar ao sítio onde trabalho. Um edifício alto, espelhado, imponente, mostrando claramente que ali trabalham pessoas importantes.

No resto do caminho aproveito o sol que me aquece, o burburinho da cidade, os cheiros matinais de café e de árvores a acordar.

Assim que entro pela porta principal do edifício vem um segurança ter comigo.

– Peço imensa desculpa, mas vou ter de lhe pedir que tire a camisa e a gravata.

Ora bolas, tinha-me esquecido que hoje é dia 1 de julho. A política interna da empresa é clara. Nada de camisas e gravatas entre 1 de julho e 1 de outubro. Lá me dispo e entrego a camisa e a gravata ao segurança, que as guarda num baú. Volto a vestir o casaco e dirijo-me ao elevador. Décimo segundo andar, primeiro gabinete do lado direito. Entro e sento-me à secretária. Está silêncio. Olho à minha volta e, apreciando o sentimento de rotina e normalidade, preparo-me para o dia de trabalho que começa.