Verdade ou ilusão da verdade: uma nova responsabilidade sobre o conteúdo

A frase “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, constantemente atribuida ao famoso propangandista Joseph Goebbels, responsável pela comunicação no período Nazista, é uma verdade por completo? Não exatamente, mas pode sim ser aceita como uma. O que ocorre é que uma mentira repetida mil vezes é capaz de gerar a “ilusão de verdade”.

Da mesma maneira como a seguinte afirmação — humanos utilizam apenas 10% da capacidade cerebral — quando repetida tantas vezes, faz com que sem questionamento, seja aceita como verdade. Desde o inicio da década de 80 há estudos sobre a credibilidade adquirida por afirmações repetidas como o estudo publicado no Journal of Experimental Psychology Learning Memory and Cognition. Até a atualidade com Tom Stafford, um professor de psicologia e ciências cognitivas da Universidade de Sheffield, autor do livro For argument’s sake: evidence that reason can change minds, publicou dois textos, um no Quartz chamado Science suggests that frequently repeating a lie creates “the illusion of truth e outro na BBC How liars create the illusion of truth ambos em outubro de 2016, mais uma vez confirmando a capacidade de passar como verdade algo assegurando-se apenas em sua repetição.
O efeito da ilusão da verdade, também conhecido como efeito de validação (ou cascata de disponibilidade) é a tendência de acreditar que a informação é verdadeira após ser exposto a ela repetidamente. O que é mais preocupante é que em 2015 um estudo da Universidade de Vanderbilt chamado Knowledge Does Not Protect Against Illusory Truth pontua que mesmo que haja dentro do indivíduo um pedaço de informação que contrarie aquela que está sendo repetida inúmeras vezes, em algum momento ele pode acabar acreditando que ela seja verdade. Comprovando que a ilusão da verdade pode ser mais forte do que a própria experiência quando o indivíduo dúvida do seu conhecimento de causa em detrimento da multiplicação, superexposição e familiaridade ao dado.
A repetição faz com que algo seja percebido como mais verdadeiro independente de ser ou não. E isso acontece principalmente devido a duas situações, a primeira é a fluência cognitiva (também chamada de cognitive ease) que diz que quanto menos esforço cognitivo uma informação ou questão exige mais positivamente ela é absorvida. A segunda é a heuristica da disponibilidade que dentre outras coisas faz com que as pessoas de maneira geral julguem um dado pela facilidade com que exemplos sejam acessados em suas mentes.
Com essa base psico-cognitiva, vamos observar o conceito publicado por Jesper Åström (um propagandista mais atual que Goebbels e também professor na escola Hyper Island) “the smallest acceptable truth” trazido por ele na metade do ano passado como uma variável em que o usuário quer acreditar naquilo e então aquilo se torna verdade para ele, que compartilha aquela informação aumentando assim o grau de veracidade desta (de acordo com o efeito de verdade). Em conjunto ele desvenda o conceito chamado de “through content” que é a capacidade de um conteúdo dizer mais sobre o usuário que o compartilha do que comunicar o conteúdo própriamente dito.

Até aqui caminhamos sobre os pilares fundantes da propaganda. O problema é que estes pilares estão afetando o jornalismo gravemente. Em um recente texto publicado na Folha de S. Paulo (19/fev — Como funciona a engrenagem das notícias falsas no brasil), o jornalista Fabio Victor traça um paralelo entre dois grandes casos, um internacional, que foi o bunker de notícias falsas sobre Trump localizado na Macedônia, e o conglomerado de notícias falsas brasileiras centralizado pelo Pensa Poços. Pouco antes (14/fev) o jornalista Jason Tanz da revista Wired também traz o assunto à luz com a matéria Journalism Fights for Survival in the Post-Truth Era que contém um video incrível que você pode ver abaixo
Uma resposta quase sincronizada a este movimento é publicada pelo Google quanto ele anuncia o funcionamento para a américa latina de um Selo de verificação de fatos para notícias presentes na aba “news” de seu buscador.
A frase de Goebbels fica cada vez mais perigosa nos tempos atuais com a disponibilidade da internet e das redes sociais, nossas mentes são presas fáceis para a ilusão da verdade. Seja por qualquer motivo o “through content” pode fazer com que uma ideia seja passada adiante e escalonada como mostra o texto Revolta leva a compartilhar ou comentar “fake news”, dizem leitores.

Como fala Stafford “Agora que já conhecemos esse efeito, podemos ficar mais atentos. Uma boa maneira é se perguntar por que acreditamos no que acreditamos: será que se trata de algo plausível porque é verdade ou apenas porque foi repetido várias vezes?”
Ele também conclui que devemos reconhecer nossa obrigação e parar de replicar mentiras. Ao compartilhar informação sem se preocupar com sua veracidade estamos contribuindo para um mundo onde mentiras e verdades são facilmente confundidas. É necessário assumir a responsabilidade pelo conteúdo disseminado e refletir antes de repetir o que ouve ou lê por ai.
[NOTAS]
Mais um estudo bacana sobre o assunto: The Truth About the Truth: A Meta-Analytic Review of the Truth Effect
