50 km's, deu certo mas deu errado :|

Foto: Foco Radical

Quando fui pegar o kit perguntei como estava a categoria no solo, se haveria chances de pódio, pelo que me falaram, acreditei que seria possível, precisava ficar entre os 20% melhores da corrida, a confiança aumentou. Ao chegar em casa, preparei os acessórios com base no checklist e deixei tudo no sofá para não haver riscos de esquecer no outro dia, mas como sempre numa corrida longa, bate aquele nervosismo e o frio na barriga, que atrapalha o sono, mas que é gostoso.

Resolvi testar com disciplina a alimentação e hidratação para conhecer melhor meus limites, para isso, levei para consumo a cada 1h de corrida (tâmaras, castanhas, linguiça blumenau e géis GU), tudo preparado para ir no cinto mesmo, sem mochila, como haviam bastante pontos de hidratação, não achei necessário levar água. Devido a dor que senti na semana antes da corrida (panturrilha), também julguei necessário testar algum analgésico, resolvi apostar no Anador, levei 2 comprimidos com o planejamento de tomar um com 3h de prova e outro com 4h.

Tâmaras, castanhas e linguiça :P

Foram 5:30h de sono, mas suficiente já que a prova era em Joinville mesmo, bati um belo abacate com castanhas de caju, cacau, mel, leite e óleo de côco, energia suficiente para 1h de prova conforme o treino. Da minha casa até o local da largada foram 30min de carro, dessa vez saí com 1h de antecedência, pois os últimos 4km da chegada, é difícil ultrapassar e aumenta o movimento, a galera que corre em equipe chega mais tarde (largam mais tarde) o que complica o trânsito, o dia começava a clarear, e as belas montanhas nos davam bom dia e desejavam uma excelente prova a todos.

Foto: Rodrigo Dacol

Antes da prova é aquela alegria com nervosismo onde encontramos amigos e conhecidos, um cumprimento daqui e dali, todos desejam boa sorte e “nos falamos daqui 4 a 7h” na chegada. Hora da última conferida dos itens básicos (número, chip, monitor, relógio, tênis amarrado, etc.), alonga um pouco, tenta aquecer outro pouco, estava friozinho, 10 graus, com isso camiseta manga longa e aquecer as orelhas bastavam.

Foto: Rodrigo Dacol

Exatamente como programado as 7h largamos, o sol começava a raiar, lindo demais, um friozinho gostoso e aquele dia maravilhoso, o trajeto é na região do Piraí, tem 3 idas e vindas nas estradas rurais, mas a paisagem não cansa os olhos, além da visão para a montanha azul (Pico do Jurapê), tem rios lindos e residências também de cinema, lugar que natureza caprichou e o homem ainda preserva.

Foto: Foco Radical

Eu havia treinado para fechar em 4h e 30min, ou seja, manter um pace de 5:30, logo no km 2, percebi que poderia baixar um pouco mais, pois me sentia muito bem, foi o que fiz, mantive um pace de 5:15 e estava muito confiante que conseguiria manter, há não ser que a dor na panturrilha viesse me parar, e no km 34, o momento inesperado, a panturrilha gritou, “PARE, se quiser correr Perdidos deu pra ti”, parei, caminhei e pensei, bom como volto para onde tem carona? Passado um tempo que aceitei a lesão, raciocinei e vi que estava há uns 4km de um posto de apoio e uns 3km do retorno.

De qualquer forma teria que andar uns 4km para trás, mas seguindo um aprendizado de um amigo (mais a frente explico), decidi que andaria esses km’s para frente, pois no retorno teria água e um carro de apoio, se a dor fosse insuportável ficaria lá, mas se suportasse iria até o fim, e mancando consegui achar a pisada ideal e entender o que seria suportável sem piorar demais a lesão e fui, cheguei no posto de água, e não queria parar, queria chegar, faltavam menos de 12km, não iria desistir, mesmo que o pace estava acima de 6min, mas nessa hora isso não interessava mais, eu iria completar a prova.

Quando estamos num caminho longo, com muitos quilômetros a nossa frente, o olhar para onde seus olhos alcançam nos dá a visão de longitude, e nesse caso essa visão me afeta de forma negativa, prefiro olhar a cada 10 ou 20 metros a frente, fazer 1km com 100 percursos de 10 metros, fazer 50km com 5 mil percursos de 10 metros, para mim isso funciona, me preocupo com o agora com os próximos segundos e minutos e não com horas, não sofro com o futuro, procuro focar no presente e fazer o melhor no presente (passada, movimento dos braços, postura do corpo, etc.), foi isso que fiz, vencer cada desafio de 10 a 20 metros, de acordo com o que a panturrilha aguentava.

Se eu falar que me sinto 100% durante a prova na parte física, fisio e psicológica será mentira, boa parte do tempo dá vontade de parar, de andar, de desistir, mas vem um mantra que sempre ajuda “a dor e o cansaço serão passageiros e em 2 a 3 dias estarei 100%, mas a glória será para sempre, eu não vou desistir” eu vou correr mais 10 metros, mais 10 metros e assim chegarei nos 50 km.

Olhar sempre para frente, aprendi essa atitude com meu amigo Nato Amaral numa corrida que fizemos boa parte do percurso juntos em Bento Gonçalves, não sei se isso é planejado se é um hábito dele, mas ele não olhava para trás, foi isso que fiz, 99,9% do tempo eu não olhei para trás, sempre busquei vencer os próximos metros e km’s, o olhar para trás me traria sentimentos de “caramba o quanto andei, o quanto devo estar desgastado, cansado, etc.” e isso não ajuda em longas distâncias.

Maratona do Vinho em Bento Gonçalves: Eu e Nato Amaral

Já estava no km 42, ou seja, uma maratona, tomei meu segundo Anador e o último gel, comi as últimas castanhas (consegui me alimentar conforme o planejado e isso ajudou, mantive a hidratação, exceto comer a linguiça que não desceu, mas o sal q tinha nela consegui ingerir), e repeti para mim mesmo a cada 10 metro “Eu vou conseguir, a dor vai passar, se eu desistir será para sempre, eu vou chegar”, já faltando 4km encontrei o Rodrigo que estava na bike de staff, me deu um incentivo, tirou algumas fotos e eu mantinha o pace e acreditava firmemente que eu chegaria, faltava muito pouco.

Faltando menos de 4km para a chegada

Com 4h e 47min enxerguei a galera e as banderolas, com aplausos e incentivos de vamos lá, você arrepia, seu olhos enchem de lágrima, as dores somem, dá vontade daquele sprint final, mas era melhor segurar a adrenalina para não piorar a panturrilha, e falando para mim mesmo “obrigado senhor pela força e ânimo que consegui manter e aqui estou, eu consegui”, cruzei a linha de chegada, mais feliz do que lambari de sanga e com algumas dores a medalha no peito, ainda consegui o terceiro lugar na categoria. Sem mais, que venha a Ultra Maratona dos Perdidos e o intensivo com muito gelo para melhorar a panturrilha.

D > E: Edessandro 2º lugar, Fábio 1º lugar e Eu 3º lugar