Temporada das rosas: O dramático nono ano de RuPaul’s Drag Race
Em seu nono ciclo, o programa que pôs drag queens de volta ao centro da cultura gay tenta se reinventar, ao passo em que reverencia a tradição

Passados alguns dias desde o final da nona temporada de RuPaul’s Drag Race, é possível notar os ânimos da audiência se arrefecendo e, finalmente, se concentrando no legado deste ano tão confuso quanto emocionante para o reality show favorito do público LGBT. Com o devido distanciamento no tempo de exibição do programa, é possível vislumbrar possíveis respostas às perguntas levantas por este ciclo (quais os marcos da temporada?, qual a protagonista, se há uma?, o programa voltou a boa forma, tendo em vista a ruptura causada pelo seu sétimo ano?, há qualquer possibilidade de renovação num formato que em breve vai celebrar sua primeira década no ar?). Muitas destas respostas, claro, não temos ainda como responder. Algumas outras, porém, já pululam nas discussões que os fãs mantêm, fervorosamente, pelas redes sociais.
A nona temporada de RPDR é uma das mais peculiares de todas, em vários sentidos. Por mais que facilmente encontremos uma protagonista (sendo ela, é claro, Valentina, espécie de diva latina que traçou um percurso dramático dentro e fora do programa), pela primeira vez desde 2014 um corpo razoável de competidoras ganhou atenção suficiente dos fãs e da mídia para se manter relevante (nomes como Farrah Moan, Nina Bo’Nina Brown, Shea Couleé, Sasha Velour, Trinity Taylor, Peppermint e Eureka não se permitiram ser obscurecidos diante dos violentos holofotes postos sobre a personagem mexicana de James Leyva). Falaremos mais sobre isso daqui a pouco.

Este não foi o único elemento inédito que surgiu nesta temporada. Pela primeira vez, uma mulher transexual (Peppermint) foi admitida abertamente na competição, que nunca teve um histórico muito amigável à causa trans, apesar dos discursos de inclusão de Mama Ru. É estratégica a posição de Peppermint, que chegou ao top 4 mais em virtude do seu carisma e senso de humor do que pelos visuais previsíveis de pageant queen. Quão problemático seria se o programa a vestisse com as roupas de uma vilã? Numa sutil imitação de Guess Who’s Coming To Dinner (1967), as piadas inofensivas e a figura agradável de Peppermint surgem como uma forma de pavimentar o caminho para a aceitação de outras mulheres transexuais no programa. Sua presença no reality show, inclusive, motivou um debate que sempre aparece, mas nunca com a força necessária: a atuação das mulheres na arte drag.
Abramos um parêntese para discutir isso brevemente. Recentemente, Trinity Taylor, também membro do top 4, fez uma live no seu Instagram, na qual respondeu a perguntas dos seus seguidores a respeito do tema. Seus comentários não poderiam ser mais infelizes: segundo ela, RuPaul’s Drag Race é sobre homens que se transformam em mulheres, e por conta disso não há espaço no programa para quem não se encaixa neste grupo. Além do mais, para ela, mulheres não podem levantar as mesmas bandeiras que os homens gays, por não sofrerem o que estes sofrem, portanto são incapazes de transgredir regras de gênero sexual, como as que estes transgridem. Os fãs, é claro, ativaram as armas e a colocaram no lugar de vilã que ela própria fugiu já no início da nona temporada.

O assunto rende um outro texto por si só. É claro que Trinity não fala sozinha, a arte drag é historicamente amparada pela cultura gay, por homens vestidos de mulheres, em termos simplórios, daí as piadas fálicas, os shades (herança direta de um humor autoirônico cultivado pela intelectualidade gay de meados do século XX), o humor sexual. Mas tratar a inteireza da arte drag em termos tão miúdos, em pleno 2017, tange à vulgaridade. Me parece um erro interpretar essa arte pela sua duvidosa etimologia (drag = dress resembling as a woman, de quando personagens femininas eram vividas por homens no teatro da Era Elizabetana) e não tanto pelo seu aspecto exagerado, caricatural e desconcertante. Nem mesmo os homens que se vestem de mulheres de fato apenas se vestem de mulheres, mas fazem uma leitura cartunesca das normas de gênero que atribuem elementos arbitrários à constituição da feminilidade (artistas como Courtney Act e Farrah Moan são comumente criticadas por fazerem uma leitura demasiado fiel das mulheres, passando ao largo do que as demais drag queens costumam fazer). Esse, para mim, sempre foi um dos aspectos mais fascinantes da arte drag: deixar claro que saltos altos, unhas longas, bocas pintadas etc fazem parte de algo artificial, que a feminilidade pode ser facilmente transmutada, rasgada, expandida, não sendo exclusivamente um atributo das mulheres.

Seu outro ponto, o que concentra os argumentos mais políticos, me parece igualmente falho, na medida que tenta pôr cada um no seu lugar (homens gays lutam contra a homofobia, mulheres contra o machismo, e cada um fica no seu próprio playground). No limite da interpretação da realidade, não sofremos todos mais ou menos do mesmo mal? Não é essa divisão bem estabelecida de direitos e deveres que pregam as normas consagradas da sociedade (homens ocupam este espaço, enquanto mulheres ocupam aquele ali)? Não compreendo como mulheres se veem de mãos atadas na luta contra as duras regras as quais são submetidas todos os dias e não vejo por que elas não podem fazê-lo artisticamente. Finalizado o parêntese, voltemos à Drag Race.
Ao contrário das edições anteriores, os temas que mais pautaram o nono ciclo eram relacionados mais ao andamento da competição, em vez de fatores mais pessoais. Diferente da segunda temporada, por exemplo, quando as competidoras discutiam motivadas por cacoetes das suas personalidades (a frase “Tyra is a bitch”, de Tatianna, seria uma espécie de metonímia disso). Após nove anos de evolução do programa, porém, é evidente que as queens estão mais interessadas em vender suas personagens da melhor forma possível ao público, conscientes de que qualquer equívoco pode torná-las párias no meio LGBT (personagens como Willam e Phi Phi O’hara, ou qualquer figura mais erradia, vilanesca ou antipática quanto à produção do programa, dificilmente voltarão a aparecer no universo construído por RuPaul).

Contamos nos dedos os embates verdadeiramente pessoais deste ano. É emblemático que a maior das discussões tenha sido a Shea tentando argumentar para a Nina que elas são, sim, amigas, e não o contrário. Um excelente artigo publicado pela Vox no final de junho (“How RuPaul’s Drag Race went from cult favorite to inspirational teenage dream”, de Caroline Framke) dá uma possível resposta para a mudança de paradigma: conforme o programa evoluiu, a idade média do público diminuiu, obrigando as queens a moderarem no veneno e se tornarem ligeiramente mais palatáveis:
This combination of smarts and heart launched RuPaul’s Drag Race from cult favorite to bona fide phenomenon. Its ratings have steadily increased year over year, with this year’s season nine moving from Logo to the more readily accessible VH1. The show’s alums — of which there are well over 100 at this point — often go on to sell out shows, attract many thousands of Instagram followers, star in music videos and web series to millions of views, and even headline worldwide tours. To their most dedicated fans, the queens’ lives almost become another show outside the show itself; as with any huge pop or movie star beloved among #teens, no detail is too small to obsess over. (x)
A atenção, então, se virou para a estrutura da competição em si e para as reviravoltas que se multiplicaram nesta temporada. Curiosamente, os eventos deste ano, mesmo emocionantes, não foram capazes de corresponder às expectativas dos fãs, que novamente se queixaram dos desafios excessivamente voltados à atuação (mais facilmente editáveis e de avaliação mais subjetiva), em detrimento dos que nos permitem conhecer melhor as competidoras, como os de costura. Quando o programa concedia um tempo razoável na workroom, fazia lembrar temporadas celebradas, como a quarta ou a sexta, mas isso dificilmente acontecia.

Além e por conta disso, muitas das reviravoltas aconteceram sem que um elo entre as queens e o público fosse bem construído. Charlie Hides não foi a primeira que desistiu de dublar no seu lip sync for your life; na primeira temporada, a “temporada perdida”, Jade e Tammie Brown também saíram sem lutar, desgastadas pela competição, mas o fato de que àquela altura tínhamos poucas competidoras e suas personalidades eram exibidas sem dificuldade contribuíram para que os fãs sofressem ao vê-las partir. Charlie não teve oportunidade de mostrar sua comédia britânica e seus visuais arrojados antes de sua eliminação confusa e, literalmente, dolorosa, se considerarmos suas costelas quebradas.
Outro exemplo do mesmo fenômeno foi a saída de Eureka. Primeira na herstory a ir embora por problemas de saúde, a rainha voltou para casa após exibir pouquíssimas facetas da sua personalidade. A edição, sempre tema de longas discussões entre os fãs, colaborou: se o começo da temporada ela surgiu como uma comedy queen com tiradas pouco inspiradas, mas persistentes, logo no primeiro embate com Trinity, sua ex-concorrente de concursos (narrativa que volta e meia volta ao programa, com a disputa entre Alyssa Edwards e Coco Montrese sendo um pequeno cânone), se tornou algo muito próximo de uma vilã, para, no episódio seguinte, vir como alguém agradável e afeita pelas suas colegas na competição — provavelmente para preparar o público para seu retorno na décima temporada. A confusão em captar sua personalidade prejudicou a percepção dos fãs desta queen, que parece muito mais interessante fora do programa do que dentro. Torço para que o décimo ano do programa a aproveite melhor.

A maior entre todas as viradas da história foi, é claro, a queda de Valentina. Marco indiscutível da história do programa, o acontecimento foi definidor para a discussão em torno da relevância dos lip syncs, tanto para a estrutura do programa quanto para a cultura drag como um todo. Ver tantas queens passando ao largo de um elemento fundamental para a identidade das drag queens motivou RuPaul a alterar as regras da grand finale — que anteriormente era apenas uma cerimônia de entrega do título de America’s Next Drag Superstar à rainha com mais vitórias durante os episódios, na qual as demais queens conversavam por 20 segundos cada com a dona do programa. A mudança de canal (RPDR saiu da Logo, canal fechado voltado ao público LGBT, para a VH1, com um público mais amplo) também provavelmente foi um fator que impulsionou a mudança, visto que o reality show não passaria de uma casa para outra sem alterações.
A mudança do formato da grand finale foi outro tema de discussão entre os fãs. Muitos reclamaram que o antigo formato era mais justo, por funcionar como a conclusão de uma equação lógica que passava a régua nos resultados individuais dos desafios. Ganhava-se, afinal, a queen com melhor desempenho durante a temporada (entra na conta também o grau de likeability desta competidora, claro). A nova final, porém, foi a primeira na história do programa a fazer vibrar o coração do público, que pela primeira vez não conseguiu prever quem seria a rainha coroada. A comparação com um critério mata-mata de campeonatos de futebol, levantada por alguns fãs, não parece fazer sentido: todos os desafios são construídos (ao menos em tese) de modo a peneirar as queens mais aptas a ser o novo rosto de RuPaul’s Drag Race e caminhar para sempre no hall das campeãs. Eventuais injustiças (como a presença de Peppermint na disputa final) hão de ser perdoadas por fatores inevitáveis, como um carisma que supera as quedas de desempenho ao longo da edição.
A edição, eterna vilã, também tem seu papel na construção da montanha-russa que foi essa temporada. Em um novo canal, o programa teve que se ajustar numa grade mais apertada em um horário ingrato, as noites de sexta. O resultado foi uma bagunça só vista pontualmente nas outras edições: convidados mal aproveitados, tempo de tela irregular para cada competidora (o que tornava fácil prever quem ia embora a cada episódio), rivalidades mal resolvidas (Trinity x Valentina, Aja x Valentina, Trinity x Eureka e até um ensaio de um Shea x Sasha, que sequer teve fôlego para avançar para o episódio seguinte) etc. Num reality que exige que suspensamos ao máximo toda descrença, faltou definir as histórias que nos guiariam ao decorrer da temporada.

As únicas jornadas bem construídas o suficiente foram as sustentadas por Nina Bo’Nina Brown e por Valentina. A primeira tratava-se de uma personagem complexa, que causava todo tipo de sensação aos fãs: admiração, confusão, pena, raiva e, por fim, desdém. Seu trajeto foi contado de maneira quase trágica: com um começo triunfal (com direito a elogio de Lady Gaga!), ninguém imaginava que aquele monstro da maquiagem artística entraria num vórtice de autodestruição que culminaria numa eliminação opaca, com gosto de “já não era sem tempo”. A edição soube aproveitar bem este poço de insegurança e paranoia, explorando ao máximo os murmúrios e lamentações de Nina e não dando espaço para que ela mostrasse outros aspectos da sua personalidade (com exceção do seu assombroso talento com maquiagem). Seu perfil autosabotador é algo que remonta outras rainhas memoráveis (como Laganja Estranja e Trinity K. Bonet, ambas da sexta temporada, ou mesmo Katya, da sétima), mas entra em conflito direto com a robustez de seu rosto quando pintado. Como essas ex-participantes, espero que Nina, dentro ou fora de Drag Race, encontre seu caminho para a redenção e para uma maior autoconfiança.

Chegamos, então, à Valentina, espécie de campeã moral da edição. Antes mesmo de começar o programa, a latina uniu duas pontas no mesmo nó: era a favorita do público e tinha claramente a simpatia da produção, que fazia questão de colocá-la separadamente no material de divulgação. É um personagem quase inédito: podemos encontrar ecos deste fenômeno de popularidade em Bianca Del Rio (campeã da sexta temporada, mas dividiu parte substancial da preferência do público com a espontaneidade de Adore Delano) e em Sharon Needles (vencedora da quarta temporada e favorita absoluta entre os fãs à época, mas encontrou resistência da produção em coroá-la devido a questões de bastidores), mas poucas já iniciaram a corrida com tamanha vantagem.

Simbolizada por rosas vermelhas, a jovem rainha surgiu como um anjo demoníaco. Consciente de que tinha a corrida nas mãos, pouco interagia com as colegas de temporada. O favoritismo dado pelos fãs de Drag Race e silenciosamente concedido pela edição (que lhe tentava imputar uma imagem de princesa, jamais shady ou vulgar, valorizando suas boas aparições e ocultando performances medíocres) seria uma fórmula perfeita e incontestável para uma vitória segura, como a que se anunciava desde o primeiro episódio. Não à toa, o lip sync for your crown, na final disputada por Peppermint e Sasha Velour, foi ao som de “It’s Not Right, But It’s Okay” (“não é o certo, mas é ok”), de Whitney Houston.
Sem dúvidas, Valentina era uma das competidoras mais belas e inteligentes de toda a competição, capaz de render momentos sublimes (como seu look inspirado em Madonna ou seu fenomenal vestido de noiva). RuPaul’s Drag Race sempre foi um reality show previsível enquanto narrativa, afinal. A força do imponderável, não obstante, pesou sobre a trajetória da Valentina e do próprio programa, desviando-o da rota programada e enfiando-o num caminho totalmente imprevisível pela primeira vez na história, numa reviravolta, ao que tudo consta, quase totalmente espontânea.
A frase de RuPaul para Valentina, na ocasião de sua partida (“I throught you had the stuff to go all the way”), foi como uma navalha no coração da diva latina: ela era uma aposta com pouquíssimas possibilidades de erro, mas se permitiu fracassar. Não é possível saber os motivos que levaram a esse episódio; Valentina nunca se permitiu uma maior exposição com seus fãs, e quase tudo o que sabemos dela é filtrado pela produção de RPDR. É possível imaginar, é claro, que a jovem queen tinha mais confiança do que necessário em sua vitória e não conseguiu lidar quando percebeu que não era madura e perspicaz quanto colegas como Sasha, Shea e Trinity.

Os efeitos off-Drag Race foram devastadores. A chuva de ódio destilado pelo fandom da estrela mexicana nas outras competidoras fez com que a imagem angelical de Valentina fosse destruída por elas, que não se furtaram em atacá-la de modo impetuoso na Reunion. Imagino que a ausência de dramas lascivos e duradouros durante a temporada tenha permitido que as queens performassem uma mágoa tão assustadora e pouco profissional à favorita dos fãs. Mesmo queens como Sasha, que se elevava quanto às demais com sua elegância e artisticidade, optaram por se rebaixar e exigir de Valentina que ela tivesse feito o impossível: coordenar uma horda furiosa de fãs adolescentes dispostos a ameaçar de morte (!) as rainhas que assistiram passivamente à queda de sua ídola.

O debate, inflado pelo inevitável rancor pelo excesso de favoritismo da latina, não merece tomar lugar mais uma vez de tão surrado. O que podemos dizer a esta altura é que ninguém esperava por ataques tão veementes e dramáticos. Ao mesmo tempo em que se exigia de Valentina uma maior atenção ao comportamento dos seus fãs (o que seria um pedido válido se nele não se imputasse um senso messiânico de salvação, como se um ídolo gozasse todo o controle sobre seus seguidores — quando, no impulso de recuperar parte de sua reputação, Valentina pediu aos fãs que publicassem emojis de rosas vermelhas nos perfis das queens da nona temporada, eles bombardearam as redes sociais de todas as participantes de todas as temporadas de uma forma passivo-agressiva a causar ainda mais incômodo às estrelas de Drag Race), exigia-se que ela retirasse a máscara que compunha sua personagem doce e agradável e revelasse diante das câmeras o que ela realmente era nos bastidores. Pela primeira vez, uma Miss Simpatia foi chamada de “psicopata” por uma colega de elenco.
Ver Valentina acuada (“I’m very bad with social media” provavelmente foi a pior justificativa possível), lidando frontalmente com sua inexperiência com a fama e influência, foi ainda mais constrangedor. As discussões que brotaram dali (curiosamente, apenas Trinity Taylor, que recentemente ganhou o ódio dos fãs por seu discurso aparentemente misógino, se portou de forma razoavelmente elegante na ocasião) ainda devem ser exploradas à exaustão por RuPaul, a ponto de incluí-la nas filmagens de uma terceira edição All Stars, já em agosto deste ano, na qual a reconstrução de sua personagem e sua consequente vitória parecem inevitáveis.

A saída de Valentina promoveu um efeito interessante na rota do programa: com a saída da favorita, os fãs se viram obrigados a escolher novas competidoras para torcer, e nomes como Shea, Sasha e Trinity passaram a ganhar uma relevância muito maior do que teriam com a presença da mexicana. As amigas Shea e Sasha foram as que mais ganharam fãs, a última ocupando lentamente a segunda posição entre as mais seguidas no Instagram, desbancando Farrah Moan (ela e Valentina com um séquito de seguidores assustadoramente jovens). Apenas três semanas após sua vitória (e toda a visibilidade que a coroa implica), Sasha Velour conseguiu ultrapassar Valentina em número de seguidores em redes sociais.
A vitória de Sasha, é claro, pode ser entendida por estes três fatores: a queda de Valentina (não por acaso, suas duas performances na grand finale fizeram referência à famigerada fan favorite, fazendo o uso de rosas vermelhas — simultaneamente símbolo da latina e da drag family da própria Velour— e de uma máscara), sua crescente popularidade e o que sua aparência, ao mesmo tempo estranha e agradável, pode acrescentar ao legado de Drag Race. Tratou-se provavelmente da primeira vez na qual qualquer uma das finalistas tinham condições de vencer (com exceção de Peppermint). Shea, a opção mais segura pelo seu histórico quase sem precedentes, foi ofuscada pelo frescor artístico de Sasha, que prioriza conceito e política em suas performances e visuais.

É curioso que a persona de Sasha seja oferecida ao público como uma ruptura inovadora na estrada do programa, porém. Quem assistiu ao reality com mais atenção pôde perceber que 1) a estrada da oddness foi pavimentada por várias queens ao decorrer das temporadas (desde os looks versáteis de Raja aos visuais provocativos de Sharon Needles) e 2) houve quem fosse além em sua drag transgressora (os jurados simplesmente não sabiam como avaliar o que Milk e Vivacious faziam, em suas curtas trajetórias na sexta temporada, tão absurdos eram seus visuais). A drag de Sasha é polida, feminina, arrojada, elegante e diferente das demais, mas (sejamos sinceros) dificilmente desconcertante e fora do eixo.
Soa estranho que o programa tente nos convencer que Sasha realmente seja a mais perfeita tradução da drag do futuro, quando outras queens já fizeram provocações até maiores que ela, mas ao mesmo tempo é compreensível: há de se apontar um diferente caminho para a arte drag, mas sem assustar os jovens desavisados que acabaram de mergulhar neste universo. Em entrevista à Vulture, Sasha disse que acreditava que sua drag “não tinha o necessário para ganhar” (x). É claro que seu diagnóstico se provou falso: sua aparência é um símbolo vivo das ambições de Drag Race; uma ‘polidez transgressora’, uma subversão aprazível. Sua victory line (“Let’s change the motherfucking world!”) não deixa de ser irônica: mudemos o mundo, mas só um pouquinho.

Com todos os percalços, a nona temporada de RuPaul’s Drag Race parece ter se esforçado por um equilíbrio entre inovação e tradição. Se o oitavo ano do programa foi todo pautado em uma autorreferenciação (com um top 3 todo formado por ‘filhas’ de Drag Race), a nona se preocupou em exibir vitalidade e em garantir que se mantém relevante e com potencial de atingir grandes feitos. O programa já provou que a celebração dos lip syncs, da cultura club kid, dos readings podem casar perfeitamente com a massificação, com a arte contemporânea e com a quebra de gênero, provocando discussões instigantes e expandindo o alcance de uma atração de nicho ao máximo. Resta saber se ainda há surpresas na manga de RuPaul capazes de manter a visibilidade da cultura drag no topo pelos próximos anos.