Geração 7 a 1 mimizenta… que gente chata!

“É muito mimimi”

Depois do fatídico 8 de julho de 2014, quando o Brasil levou uma goleada histórica e humilhante da Alemanha por 7 a 1, não há um dia que alguém não sentencie nesse país: “todo dia um 7 a 1 diferente!”. É a maneira de tentar se expressar com um pouco de leveza (se é que isso é possível) para nos referirmos aos problemas cotidianos, tanto de ordem pessoal quanto da sociedade brasileira, esta tão desmoralizada nos últimos tempos, por conta de tanta podridão (e veja bem, o problema não são “eles”, somos nós todos como sociedade. Somos nós que damos um “jeitinho” aqui, colocamos pra debaixo do tapete outras coisas erradas e nos lixamos para o semelhante, pois eles que se ferrem, que morram, ou que “façam por si”. Temos assim uma nação repleta de pessoas individualistas, corruptas e mesquinhas. Um verdadeiro 7 a 1). Entretanto, a expressão passou também a ser usada por pessoas conservadoras, para se referir aos que se posicionam contra os diversos preconceitos existentes na sociedade. Esta “geração 7 a 1 e mimizenta” está deixando o mundo mais chato, segundo os conservadores. Poxa, não dá mais para ser preconceituoso em paz?

A FIFA investiga e pode punir o Brasil pelos gritos de “bicha” da torcida brasileira ocorridos na partida entre Brasil x Paraguai, dia 28 de março. Esse gesto imbecil infelizmente se tornou prática comum nos estádios paulistas. Está muito correta a FIFA quando pretende punir quem faz isso. De modo equivocado, justifica-se o grito com o argumento de que o estádio é o lugar para as pessoas extravasarem. Mais equivocado e problemático são as entidades máximas do futebol do Brasil e da América do Sul fazendo lamentáveis defesas de práticas preconceituosas nos estádios. Vale lembrar que essa modinha tosca veio com a Copa do Mundo de 2014, quando os mexicanos invadiram os estádios brasileiros com seus gritos de “puto”. Felizmente, há luz até num meio ultraconservador como o futebol, e clubes como o Rio Claro, que faz campanha contra os cânticos homofóbicos, trazem esperanças de dias melhores para o esporte.

No Rio Grande do Sul, as torcidas de Grêmio e Internacional seguem a tradicional cartilha de proferir chorume pelas arquibancadas. Pelo lado tricolor, chamar o rival de “macaco” é prática comum e naturalizada há muito tempo. Contribui para a perpetuação dessa vergonha a total omissão da instituição, que apenas se manifestou contrária aos cânticos com a palavra macaco após o “caso Aranha”, quando o Grêmio estava muito evidenciado e poderia sofrer punições severas. Agora que “a poeira baixou”, a palavra macaco faz parte dos cantos em todos os jogos e a instituição cruza os braços e nada faz. Há também, como praticamente todas as torcidas fazem, piadas homofóbicas contra o rival, que atingem até mesmo um dos maiores ídolos do Inter. Pelo lado colorado, a antiga torcida Coligay do Grêmio é prato cheio para debochar da imagem do rival, bem como o caso da Poltrona 36, em que corre a história de que dois jogadores do Grêmio em 2004 tiveram relação sexual no ônibus. Casos de racismo também já foram denunciados contra a torcida colorada.

É fundamental, nos dias atuais, rever conceitos e buscar avançar, eliminando práticas ofensivas que são comuns e até pouco tempo atrás não recebiam a devida atenção e crítica. Estamos, neste bombardeio midiático, eliminando muito velozmente equívocos fortemente enraizados na nossa sociedade, causando incômodo em muita gente acomodada e preconceituosa. Infelizmente, estas pessoas ainda se mantêm fechadas na escuridão da ignorância, orgulhosas de suas convicções retrógradas e contra “essa geração 7 a 1 do mimimi”. Mesmo assim, aos poucos as coisas vão melhorando. Se hoje uma mulher for abusada, muitas outras imediatamente comprarão a causa, não aceitando mais em hipótese alguma serem humilhadas pelos homens. Apesar de termos absurdamente a marca de país com maior violência transfóbica no mundo, há um pingo de esperança quando vemos cenas de pessoas nas ruas posicionando-se em defesa de uma travesti cruelmente insultada (trata-se de uma cena armada, mas que felizmente ocasionou em efeito de compaixão de populares). Se tu achas que é chato derrubar preconceitos e preferes que o mundo se mantenha fechado “do jeito que está”, sinto muito por ti! É justamente esse 7 a 1 institucionalizado que precisa ser combatido diariamente.

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