Neymar é o Brasil que deu certo

O mundo do futebol foi tomado de surpresa desde que se noticiou a saída de Neymar Júnior do Barcelona para o Paris Saint-Germain, o conhecido PSG. Disparada a contratação mais cara da história do futebol (avaliada em 222 milhões de euros), causou repercussão gigantesca. A escolha foi certa? E o Fair Play Financeiro? Neymar só pensa em ser o melhor jogador do mundo? Ele só pensa em dinheiro? Inúmeros questionamentos, muitos com respostas concretas, outros que geram apenas interpretações distintas. Apaixonado por futebol que sou, e fã do Neymar, debati efusivamente com amigos sobre esta transferência, enfatizando mais o viés do jogo propriamente dito, sem entrar em questões éticas ou os detalhes jurídicos, que também possuem relevância. Pessoalmente, acreditei desde o início que seguir no Barcelona era a melhor opção. Continuo pensando o mesmo, mas com bem menos convicção e muito mais questionamentos, até sobre visão de mundo. Mesmo questionando, admiro muito a decisão do Neymar. Em matéria de ousadia, o cara é realmente gabaritado. Alô Paris: “o ousado chegou! kkkk”
Tomado por uma dose de antipatia por estes “pequenos gigantes” como o PSG, que nunca tiveram a tradição de um clube de ponta e se tornaram de repente gigantes por causa de uma fortuna babilônica investida, não me agradou inicialmente a ideia de ver o craque brasileiro trocar o Barcelona por um clube que quer ser potência na marra dos petrodólares. Trocando um papo com amigos pude observar que, além desta antipatia, nutro também um conservadorismo futebolístico, ao ser resistente às mudanças de ares dos craques.. Porém, além deste conservadorismo, nutro também uma filosofia romântica em relação ao futebol, de admirar relações apaixonadas entre jogadores e suas torcidas, como Totti e Lahm, Recoba e seu Nacional no Uruguai, Reus e a torcida do Borussia, Marcos e o Palmeiras, Zico e o Flamengo, entre tantos outros. Confesso que posso ser até meio cafona num idealismo anacrônico em pleno 2017. Isto não tem problema, mas ser conservador não me agrada. Depois de muito pensar, concluí que o melhor é ser flexível e apreciar este novo marco no futebol. Neymar afirmou, já com a camisa francesa, que não foi uma decisão fácil e pensou muito. Porém, decidiu aceitar um novo e imenso desafio, maior que em Barcelona, onde ele já não via tanta margem para o seu crescimento próprio e coletivo do time. O trio MSN está na história gloriosa dos blaugranas, mas já é passado nestes “tempos líquidos”. Tu bobeou e caiu no gemidão e não prestou atenção no tamanho da ousadia do Neymar, João. O céu é o limite para o brasileiro. Neymar deixa a Espanha com os seguintes números e títulos:
186 jogos
105 gols
59 assistências
2 títulos do Campeonato Espanhol
3 títulos da Copa do Rei
1 Liga dos Campeões
1 Mundial de Clubes
Os ídolos de outrora eram mais facilmente definidos. Romário, o herói de 94, malandro carioca, o rei da área, o peixe matador. Ronaldinho, a magia única e o sorriso ímpar que encantou o mundo. Rivaldo, craque da camisa 10, tímido e subestimado como o seu Nordeste. Zico, o craque do Flamengo, reizinho no Maracanã. Neymar é tanta coisa misturada. Ele representa um pouco do momento atual do seu país, aliás. Esta situação esquisita, em que até pouco tempo era digna de esperanças e orgulho, mas que agora já está uma merda, um país cheio de FDP, mas com muita gente boa também. O maior craque santista desde Pelé. Foi colocado abaixo de Ganso no início (impressão inicial, tudo bem), mas seguiu zombado por muitos com discursos do tipo “artilheiro de Paulistão, quero ver na Europa”. Ídolo do Santos, mas que arranhou a sua relação com o Peixe depois da sua venda pro Barcelona. Camisa 10 e referência absoluta da Seleção Brasileira, mas que demorou a cair nas graças do povo (afinal, há um ano foi duramente criticado nos primeiros jogos das Olimpíadas, quando confundiram apoio à seleção feminina com desprezo pela masculina, e no final foi Neymar quem esteve no panteão dos campeões). Sempre mantendo o respeito absoluto ao ídolo Messi, Neymar soube ser o melhor coadjuvante possível no futebol, jogando maravilhosamente bem, mas se entortando, se fosse preciso, pra deixar que o craque argentino marcasse o gol, sem jamais reclamar. É como o brasileiro que sempre respeitou as estruturas tradicionais de respeitar o seu superior sem reclamar. Porém, Neymar também é outra faceta, a do desbravador do mundo, que acredita mais em si do que qualquer pessoa e é capaz de sair da zona de conforto de jogar com o trio MSN no Barcelona para encarar o desafio de agigantar o milionário PSG. A decisão foi aprovada por muitos torcedores, mas reprovada por outra parcela. O que impressiona é que, se por um lado, o brasileiro tem na sua história o costume de ter a síndrome de vira-latas e se rebaixar, ao mesmo tempo ficamos soberbos com as 5 Copas, acreditando que somos melhores que qualquer outro país no mundo quando o assunto é futebol. Já fomos, não somos e nunca o seremos eternamente, futebol é um processo que depende de estratégias, planejamentos bem executados e do MOMENTO. Nem somos o melhor futebol (talvez em 2018 consigamos ser), nem Neymar é o melhor jogador do mundo (também talvez possa ser em 2018) atualmente. Porém, ele já é a transação mais cara da história do futebol e, melhor do mundo ou não, possui provavelmente o futebol mais fascinante de ser observado.
Neymar é quase tudo o que se possa imaginar. Festeiro, mas religioso. Um moleque abusado nos campos, mas pai dedicado há um bom tempo. Individualista, mas bom de grupo e respeitoso com todos. Jogador sempre inteligente e ciente das suas responsabilidades em campo, mas que assina o maior contrato da história vestido de Batman. Quebrador de recordes na Seleção e principal jogador, mas ainda ausente de um grande título. Causa amor e ódio. “Não é tudo isso” ou “é o melhor de todos”. Acima de tudo, é um corajoso e ousado, que sai das zonas de confortos e busca os maiores confrontos, sempre acreditando em si, querendo conquistar o mundo. Com erros e acertos, fracassos e sucessos, Neymar é um pouco do seu país de origem. Extremamente valioso, único, vai escrevendo uma história ímpar no futebol. Como o melhor dos desbravadores, o “1 em 1 milhão”, como o brasileiro que vai à luta, Neymar é um pouco deste Brasil que, aos trancos e barrancos, dá certo.
