Capitalismo, meritocracia, desigualdade e a finitude dos recursos da terra

Parabéns a nós, a humanidade toda:

“2015 será lembrado como o primeiro ano da série histórica no qual a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor total de ativos.

[…] A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, deixa somente uma leitura possível: os ricos sairão da crise sendo mais ricos, tanto em termos absolutos como relativos, e os pobres, relativamente mais pobres.

[…] No Brasil, a renda média doméstica triplicou entre 2000 e 2014, aumentando de 8.000 dólares por adulto para 23.400, segundo o relatório. A desigualdade, no entanto, ainda persiste no país, que possui um padrão educativo desproporcional, e ainda a presença de um setor formal e outro informal da economia.”
(Retirado do El Pais-Brasil em 16.11.2015: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/13/economia/1444760736_267255.html)

Dou os parabéns a toda a humanidade usando a meritocracia, a lente dos tolos que, direta ou indiretamente, acreditam que o 1% tem o mérito de ter o que tem e os 99% restantes demérito. A meritocracia é útil, não é mesmo, respalda o primeiro grupo e serve de discurso e retórica para o segundo sonhar que é possível ascender ou mesmo que o desigual, o pobre, o faminto, o com menos estudo o é porque é um incompetente e merece estar na condição que está.

Lógico que isso é quase uma metáfora, afinal, o mundo não é divido em dois grupos, os ricos e os pobres, os competentes e os incompetentes, longe disso, mas dividi-lo assim nos dá uma dimensão da concentração de renda que o modelo econômico atual, praticamente global, impõe a todos nós.

Vamos imaginar que existe, então, um outro planeta igualzinho ao nosso, uma cópia do que temos atualmente. Vamos chamá-lo de Stulte.

Em Stulte surgiu um vírus misterioso, o Mendacium, que atacava apenas pessoas que tinham algum tipo de poder institucional (público, privado, criminoso etc) relevante, e todos se convenceram que a missão de cada um naquele planeta era a de promover ações contundentes para que as pessoas pudessem melhorar suas condições de vida e questões como pobreza, fome, restrições de acesso à saúde, saneamento básico, transporte coletivo, educação etc fossem erradicadas. O vírus não alterou, no entanto, a crença de que o capitalismo seria a forma mais justa de conduzir a economia, a sociedade, e, nesse cenário, tiveram uma ideia genial, certamente com algum estímulo do Mendacium, e conseguiram uma fórmula aplicável, um plano sensacional, o Oraculum para que, a partir daquele momento, todos os indivíduos que nascessem teriam todo o suporte necessário, alimentação, cuidados médicos, emocionais, tudo o que a ciência identificara como necessário para que uma pessoa possa forma-se com a capacidade de desenvolver suas habilidades e conseguir ter uma vida com o conforto mínimo necessário. Eles criaram um instituto global chamado Commentitias, com ajuda das maiores empresas do mundo, que ficaria responsável pela execução do Oraculum, já que os estados não teriam capacidade para tal.

Com o passar dos anos esses indivíduos assistidos pelo Commentitias foram crescendo e suas mentalidades, capitalistas, os levaram para rumos prósperos, ideias explodiram, novos empreendimentos foram criadas, e na mesma proporção e velocidade os recursos naturais de Stulte, finitos como aqui na Terra, foram sendo transformados em bens para suprir todas as demandas do novo mundo que estava se anunciando. Mas, simplificando, as empresas tiveram seus custos aumentando vertiginosamente, dada a escassez de matéria prima, as coisas foram ficando mais caras, absurdamente mais caras, a reciclagem era algo muito custoso, demandava muita energia e produzir os equipamentos para produção de energia eólica, solar e tantas outras que inventaram, também tinham um custo elevado. Eles descubram na própria carne que um Stulte só não daria mais para suportar aquele modo de vida.

A ideia genial foi descobrir outro planeta. Gastaram um volume quase incalculável de riquezas para tal, e o planeta Stulte quase entra em colapso, mas a empreitada teve sucesso, descobriram outro planeta, o chamaram de Terra. Quando chegaram lá tiveram uma surpresa: Já estava habitado por pessoas semelhantes, daí não tiveram alternativa a não ser entrar em guerra interplanetária. Bem, não vou continuar esse exercício de suposição, não terminaria nunca e se acabasse, não acabaria bem.

Moral primeira da história: Se tem gente que acredita que é possível que todos tenham uma vida minimante saudável seguindo o ritmo que estamos, no modelo que temos, vamos precisar de outro planeta, sem ninguém, para podermos extrair os recursos naturais que serão necessários, o que, convenhamos, não é ideia razoável… Quer dizer, parece que tem gente que já pensa nisso.

Agora se você acha que deve ser cada um por si mesmo, quem não consegue desenvolver os próprios meios para ter uma vida minimamente saudável que continue como tal, bem, aí talvez não precisasse ler o texto, não temos nem como confrontar as ideia de mundo, elas são distintas, não comungam a ideia central de que a humanidade é uma só, que precisa avançar de forma harmoniosa, o que não quer dizer sem conflito, sem problemas etc, lógico, mas harmoniosa no sentido de perceber os limites da natureza, o respeito a dignidade do outro, ou seja, que haja onde houver algum tipo de injustiça a alguém, que isso diz respeito, direta ou indiretamente, a todos e a cada um de nós e que nossas atitudes devem ser repensadas e transformadas para corrigir tais distorções.

Moral segunda da história: Assumindo então que precisamos fazer algo para buscar uma harmonia na terra devemos colocar em prática sistemas econômicos que não estimulem pouquíssimas pessoas a sugarem da terra recursos naturais para consumirem bens fúteis, irrelevantes para a harmonia da humanidade e que a financeirização da economia (ver para detalhes http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-dinheiro-e-a-financeirizacao-da-economia-mundial/4/31520) seja um mal a ser combatido, já que sem dúvida essa, entre algumas outras, faz parte de um conjunto de características do capitalismo que cria essa aberração na humanidade.

E fazendo referência a motivação inicial desse texto, a desigualdade em que vivemos, as visões que buscam equações para diminuir a desigualdade não devem ser simplistas ao ponto de imaginar um aumento do consumo “de baixo pra cima”, precisam ter pressupostos de que as soluções passem, necessariamente, pela diminuição do consumo daqueles que muito consomem e o aumento daqueles que pouco consomem, tendo, em ambos os casos, referencias de consumo voltados na direção do conforto suficiente para se viver adequadamente, ou seja, futilidades por exemplo não cabem.

Observar que tudo isso não entra no mérito das ideologias, do vegetarianismo, do desmatamento, das religiões, do respeito, do amor, da bondade entre as pessoas, entra numa questão prática, material, a finitude dos recursos naturais da terra, no entanto, me parece que buscar meios para que não entremos em colapso daqui a poucas décadas talvez, passa, invariavelmente, por questões humanas, o relacionar-se com o outro e tudo o que possamos desdobrar disso.

O capitalismo não é, e nunca será, compatível com uma visão de terra sustentável e de uma humanidade mais justa.