Aceite
Acorda amor. O sonho está feito. Não estamos juntos, e nem é a mesma cama. A culpa estride de ouvido a outro, atormenta e vibra embaixo do travesseiro. A luz que rompe os olhos desconstrói o escuro que foi matéria prima desta ilusão. Posso chamar assim? Ilusão? Muito prazer.
Nela fomos apresentados ao encoberto em nós. Claros eram carne, toque e vergonha. No contrário volúpia, ímpeto e garra. Lembro seu número de cor para te contar. A vontade se desfaz no antes do nono dígito, que se transformou em um botão vermelho bem debaixo do meu dedo. No criado mudo, sempre deixo um copo de água pela metade. Enquanto procurava meus óculos, um gole sem olhar. Tinha gosto de azeite. Estava certo, a culpa não ia se misturar.
Nas notícias do dia, matéria insossa diz que azeite é tóxico para fritar. Desminto pelas gerações de mediterrâneos — escritores, cozinheiros e até mães — que viveram e alimentaram vidas fritando com azeite. Copo meio cheio. Devaneios paralelos como este são mal vistos ou mal quistos? Enquanto me resolvia, era otimismo pensar nele cheio. O gosto de azeite na boca me lembra aquele sonho que não te contei.
