Está me ouvindo?
Quis fazer do meu último telefonema um poema. Medo da linha cair. Medo velho. Não pretendia que uma linha sequer fosse esquecida. Na dúvida, não sei se me ouviu. Ia dizer algo importante, esqueci. Ou fingi esquecer para lhe entreter mais um segundo. O que você acha do mundo? Não o do jornal. Do que te dei de surpresa. Do que construí em volta da beleza de quando você diz… Você sabe o que diz, pelo menos poderia, deveria?
Me pediu um minuto enquanto ria do outro lado. Pelo menos dois a se considerar. Vou desligar. Hesito. Tem uma nuance na sua voz que não está aqui, daquelas que a gente reconheceria logo no alô. Aliás, que mania!
Começa direto pelo assunto. Apresenta uma tese e argumenta. Não adianta não vai passar. Queria pintar seu nome no meu rosto e sorrir feliz pelo que acredito que vou aprender. O processo seletivo é manter vivo o dom de esquecer. Zerei. Fuga do tema. Volta ao telefonema.
Tirei o telefone do ouvido por um minutinho para ver sua foto na tela, lembrei-me que não tinha ficou sua voz sozinha perguntando se eu ouvia bem. Não. Com certeza, não. Você sabe. Lembro de quando comemoramos não termos de pagar pelas ligações. Pensei naquele instante que teria todo o tempo do mundo para te contar meus sonhos. Você gostaria de ouvir, eu suponho. Sempre respondia com aquele tom que sumiu. Doce e duro jeito de ridicularizar meu T.O.C em poetizar.
Este termo? Você inventou. Não é neologismo é só um dos seus achismos sobre meu modo de expressar. Eu sempre achei que dentre todas as palavras que eu conhecia ainda faltava uma para te desenhar. Lia noutros amantes, caçava nas gavetas, rabiscava nas notas. Sempre me perdia. Nesta história, nenhuma migalha me faria voltar. As palavras ficaram, me servem chá e bolinhos. Ria alto de mim, quando vi um autor que escolheu o nome Mãe. O livro? “Homens imprudentemente poéticos”
Cara, ficou um manchão aqui no peito como aquelas de quem suja a camiseta se lambuzando de manga. Comi com a mão e que se foda. Nenhum fiapo tira a delícia de rasgar sua carne com as dentes. Tenra e úmida, amarela quase laranja, uma textura meio jasmim. Já beijou aquela flor? Como poderia? São seus lábios.
Pensei ter lhe dito tudo isso, mas o fato de não haver resposta me fez ver que da minha boca só sairam um desejo de bom dia e um beijo falado.
Nos telefonemas não cabem P.S.
Desligamos.
