Panela

Cheirava à vida o aroma que vinha do fogão. Salgado e mal-temperado segundo chefs. Deleite para lábios úmidos de cachaça para caipirinha. Ardia o sabor no palato de quem não sabe como escrever. Aproximou-se da cozinha, abriu a cortina de contas e viu o vestido azul contrastar com a azulejaria em tom marrom. Suspirou, sentiu perfume, achou bom.

Os cabelos que caiam do coque desleixado atrapalhavam a nuca que pedia cheiro. O perfume desenha o ar. A cabeça recostou no nada como cachorro perdido, humano pedir chamego assim. Carinho que nasceu daquele jeitinho de mexer com a colher. Mais mulher. Mais calor. Lábio pedindo sabor.

Tocou com a ponta do nariz a linha da tatuagem que dizia cervical. Sentiu a coluna dela eriçar. Uma das mãos experimentou erguer o vestido ao começo das coxas e ousou provar: quente, molhadinho.

Quase queima, calor de forno, ferviam como molho, explodiam as bolhas que lambuzavam o avental. Quando a ponta do dedo encontrou a língua pensou: Nada mal. Ao som dum samba antigo requebraram junto os quadris. Desceram um pouco. Requebraram a decência num molejo vadio. E num desvario, ao som da cuíca, até a responsabilidade de ir disse fica. Quando numa dissonante do cavaco, decidiram parar.

Esse tesão tem graça. Riram do desequilíbrio. Riso sóbrio, razão dúbia regada a pouco álcool daquela cervejinha das 11 da manhã. Largou a panela, a colher e o afã. Sozinha na rede, foi-se deitar. Ele já tinha almoçado. Passou pela garrafa, pôs café no copo, frio. Sentiu o amargor, pensou no amor. Engoliu depressa. Pensou em trazer um buquê garni para quando voltar.