3 razões que me fazem odiar o termo “gamer”

Quem já conversou mais de 10 minutos comigo já percebeu que minha forma de arte favorita, de longe, são jogos digitais. Tive fases da vida que gastava 90% do meu dia jogando algum tipo de jogo. De consoles a PC’s e portáteis. E praticamente passando por todos os gêneros possíveis, como FPS, RPG, RTS, MMO’s, you name it.

Quando adolescente, participei de competições de Counter Strike 1.6, fiz alguns personagens com nível máximo em Ragnarok Online e terminei praticamente todos os clássicos modernos dessa mídia tão jovem, como Half Life 1 e 2, Mario 3, praticamente todos os Zeldas, Final Fantasies, Castlevanias, etc. Mas, se tem algo que me incomoda, é quando alguém se define como “gamer”, ou pior, me define como tal.

Decidi listar 3 razões que me fazem torcer o nariz para o termo “gamer” e muito do que o cerca.

Razão 1: Segregação

O meio “nerd” é brutal com minorias. Brutal. Especialmente com as mulheres. A primeira reação da galerinha “gamer” quando uma mulher diz que gosta de jogos é levantar a sobrancelha de desconfiança. Parece que construíram um clubinho e que para fazer parte você deve responder um checklist criado sabe-se lá por quem.

Aí que entra a primeira e talvez pior faceta negativa do “gamer”: Criaram uma categoria para encaixar quem atende parâmetros bizarros e que serve muito mais para excluir do que para reforçar um senso de comunidade. Isso quando a mulher não é exigida provar simplesmente que é mulher mesmo.

Quando alguém fala que gosta de cinema, salvo exceções de nicho (“gosto de cinema italiano”), raramente ele será questionado quanto aos seus hábitos do presente e passado com o meio.

  • Quantas horas você tem assistindo filme?
  • Ah mas aposto que você nunca viu Cidadão Kane
  • Gosta mesmo? Então qual o nome do compositor de Crepúsculo dos Deuses?

Normalmente você simplesmente pergunta “É mesmo? Que tipo de filme você gosta?”. Essa primeira razão já renderia talvez um artigo isolado, e é talvez o que mais me envergonha quando me colocam na categoria.

Razão 2: Confusão

Afinal, quem é “gamer”? Quem hoje não joga nada? A avó do meu filho deve ter umas duas mil horas em candy crush. Tenho um amigo que tem PS4 para jogar 2 ou 3 jogos, no máximo, no final de semana com os amigos. Eu já li, pelo menos, uns 10 livros sobre video-game, ouço mais uns 6 podcasts sobre o assunto incluindo um sobre compositores japoneses da década de 90 (sim, eu fui uma criança sozinha).

Por que cada uma dessas pessoas deve ser considerada mais ou menos “gamer” do que a outra? Percebem o quanto é um termo vago? Todo mundo tem uma interação com video-games hoje. Não é atoa que em meio a toda a crise no Brasil, a indústria de jogos é um colosso que cresceu 600% nos ultimos 8 anos.

Mais uma vez caímos nos parâmetros: Não existe definição do que é um “gamer”. Tenho amigos cinéfilos, que são aqueles apaixonados pela indústria, quase respiram o meio. Sabem atores, diretores, ano de lançamento de filmes, e afins. Eu talvez me aproxime dessa safra equivalente nos jogos, mas o garoto de 14 anos que tem 10.000 horas no Call of Duty se acha mil vezes (ou 10 mil) mais “gamer” do que eu, que sequer gosto de Call of Duty.

Razão 3: Estereótipo

Sempre que falo que gosto de video-games, a maior parte das pessoas já tem construído um perfil, onde tentam me encaixar. O que normalmente escuto, nem sempre nessas palavras:

  • Ah, você deve ser viciado em LoL (nunca joguei)
  • Vamos combinar um fifa
  • Ai deus me livre. Já namorei alguém assim, fica o dia todo em casa, não faz nada, só nos joguin
  • Formata meu PC?

A imagem do “gamer” pelas outras pessoas é mais ou menos assim:

Aqui é gamer porra!11!

Normalmente atribuída à jogos on-line e alta competitividade, a imagem do “gamer” que é alimentada pela mídia é essa mesmo. São ignorados todos os outros espectros do meio.

Tal como em outras formas de arte, temos obras e consumidores de todo tipo. Se no cinema temos “Cara, Cadê meu Carro?” e “Casablanca”, da mesma forma temos jogos como “Doom” e “Kentucky Route Zero“ (que tem uma das cenas mais bonitas que já vi em jogos) convivendo no mesmo ecossistema, e é possível tirar proveito de ambos, tal qual no exemplo cinematográfico!

O mesmo pode se dizer de quem está consumindo a obra. O adolescente virando noite no LoL e gastando dinheiro da mãe com roupinhas do jogo e eu que chorei no final de To The Moon. Ambos consomem jogos digitais, mas de formas diferentes.

Enfim, é um termo confuso, segregacionista, e que reforça um esterótipo equivocado. Talvez se entrássemos em acordo que “gamer” é o equivalente ao cinéfilo ou outro termo associado à alguém fissurado em uma forma de arte e tudo que a envolve, tudo bem. Mas até lá, dispenso o “gamer”.

BÔNUS: A mídia não ajuda muito em desmitificar esses problemas, então vou deixar dois blogs/sites que acompanho que tem um viés bem diferente do padrão, um em inglês e outro em português:

  1. KillScreen — Reportam muita coisa interessante e até os reviews são fora do padrão. Tem uma “playlist” que é um tipo de newsletter onde indicam jogos independentes, curados pela comunidade.
  2. Overloadr — Apesar do alto volume de conteúdo noticioso no site, o ouro está nos especiais escritos, e nos podcasts. Essa entrevista com o criador do genial Overcooked, já vale a visita.